Três mitos sobre as vacinas contra a COVID-19, contestados por especialistas

Publicado originalmente em COVID-19 DivulgAÇÃO Científica por Catarina Chagas. Para acessar, clique aqui.

Efeitos colaterais, rapidez no desenvolvimento dos imunizantes e necessidade de máscaras e distanciamento social após a vacinação têm gerado controvérsia nas redes sociais.

Há vários meses, as vacinas contra a COVID-19 vêm sendo alvo de fake news e boatos nas redes sociais. Aqui mesmo, na iniciativa COVID-19 DivulgAção Científica, já abordamos, por exemplo, que vacinas de RNA não alteram o genoma humano, que as vacinas não contêm células de fetos abortados e por que as grávidas ainda não estão recebendo vacinas contra COVID-19. Ainda assim, com o início da vacinação nas diferentes regiões do Brasil, o tema continua sendo debatido intensamente. Convidamos quatro especialistas para comentar três mitos sobre as vacinas contra a COVID-19: Flávio Guimarães da Fonseca, virologista da Universidade Federal de Minas Gerais; Carlos Zárate-Bladés, imunologista do Laboratório de Imunorregulação da Universidade Federal de Santa Catarina; Gerusa Maria Figueiredo, epidemiologista e infectologista do Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo; e Beatriz Carniel, bióloga e doutora em medicina tropical – as duas últimas são membros da iniciativa multidisciplinar Ação COVID-19. Confira, abaixo, o que eles nos disseram.

MITO 1: As vacinas contra COVID-19 foram desenvolvidas muito rapidamente, por isso, não sabemos ainda se elas são seguras.

É fato que as vacinas contra COVID-19 foram desenvolvidas em tempo recorde. Mas isso não significa que houve negligência nas etapas de desenvolvimento, e sim que houve um grande esforço para criar esses imunizantes, com recursos financeiros e humanos que permitiram isso. “A pesquisa científica é, em geral, limitada pela quantidade de recursos alocados e pela quantidade de cientistas empenhados no tema”, argumenta Carniel. “Em 2020, o mundo inteiro estava focado em fazer uma vacina contra COVID-19. Foram muitos recursos e muitos grupos de cientistas investidos no mesmo objetivo”. Figueiredo reforça o coro, afirmando que “situações excepcionais exigem esforços excepcionais”, e lembra que houve grande apoio não apenas da comunidade científica, mas também da população que se voluntariou para os ensaios clínicos.

Foi uma absoluta necessidade”, ressalta Fonseca. “Não podemos, no meio de uma pandemia, esperar cinco anos para ter uma vacina. Imagine a quantidade de mortes que isso causaria no mundo inteiro!” As vacinas se baseiam em estudos, produtos e processos que já existiam ou tinham se iniciado antes mesmo da pandemia. Além disso,o pesquisador acredita que avanços tecnológicos recentes permitiram acelerar o desenvolvimento de novos imunizantes, de um modo que não era possível algumas décadas atrás. Para Zárate-Bladés, os resultados dos ensaios clínicos realizados, somados ao fato de que milhões de pessoas já foram vacinadas em vários países ao longo dos últimos meses, nos tranquilizam sobre a segurança desses novos produtos.

MITO 2: Vacinas contra COVID-19 causam mortes e efeitos colaterais graves.

Não é isso o que mostram os resultados dos ensaios clínicos das vacinas contra COVID-19 cujo uso emergencial já foi autorizado pelas agências reguladoras. Aliás, um dos principais objetivos dos ensaios clínicos é garantir a segurança das vacinas antes que sejam aplicadas em larga escala. “Toda vacina – inclusive aquelas que já tomamos hoje pelo calendário nacional de imunização, como pólio e febre amarela – pode ter efeitos adversos, mas a maioria dos efeitos adversos é branda, como dor no local de aplicação ou febrícola. Esses também são os sintomas observados em pacientes após a vacina da COVID-19”, esclarece Fonseca.

Zárate-Bladés pontua que efeitos adversos graves e óbitos em decorrência de vacinas em geral são extremamente raros e têm duas causas principais. A primeira é o uso de agentes patogênicos atenuados em algumas vacinas – não é o caso dos imunizantes contra COVID-19 já autorizados para uso no Brasil. A segunda se refere a reações alérgicas graves, chamadas reações anafiláticas, a algum componente da vacina. No caso das vacinas contra a COVID-19, por exemplo, nos Estados Unidos, a vacina de Oxford/AstraZeneca, em um milhão de vacinados, levou a cinco reações anafiláticas, e nenhuma delas foi a óbito. A vacina da Pfizer levou a três reações em um milhão de vacinados”, diz, sublinhando que trata-se de números muito baixos de reações diante do número total de vacinados.

Para Carniel, é importante lembrar que as pessoas vacinadas até agora são parte de grupos prioritários, como idosos, e, embora tenha havido óbitos entre os vacinados, as mortes não estiveram relacionadas à vacinação. Figueiredo acrescenta, ainda, que as primeiras etapas da vacinação no Brasil estão ocorrendo de forma concomitante a um agravamento da pandemia no país. Por isso, há casos em que pessoas recém-vacinadas foram acometidas pelo novo coronavírus antes de receber a segunda dose da vacina, por exemplo.

MITO 3: Se, mesmo após a vacinação, continuamos precisando de máscaras e distanciamento social, é porque a vacina não funciona de verdade.

Para rebater esse mito, Figueiredo propõe olhar para o objetivo dos ensaios clínicos das vacinas contra COVID-10. “A pergunta que queríamos responder era se o produto protegia as pessoas da doença nos seus diferentes graus de gravidade, e não se diminuía a transmissão”, explica, lembrando que a preocupação maior, neste momento, é evitar casos severos de COVID-19, que requerem internação hospitalar e podem levar à morte.

Embora os dados mostrem que a vacinação contra COVID-19 reduz a ocorrência de casos graves e óbitos, as vacinas atualmente em uso não são 100% eficazes para impedir a infecção. Há indícios de que pessoas vacinadas podem se infectar – ainda que não desenvolvam sintomas – e, potencialmente, transmitir o vírus a outras pessoas. Por isso, o uso de máscaras e o distanciamento social seguem indispensáveis.

“Vale lembrar também que a vacinação, no mundo inteiro, está sendo feita de forma escalonada, ou seja, não é todo mundo que está recebendo a vacina ao mesmo tempo. Então, a manutenção do uso de máscaras e do distanciamento social visa proteger os grupos que vão ser vacinados mais tardiamente”, ressalta Fonseca. Zárate-Bladés completa: “Esperamos que, quando chegarmos a 70% ou 80% da população vacinada, já não vamos precisar fazer mais uso das máscaras ou do distanciamento, pois a grande maioria das pessoas já estará apta a combater o vírus e não desenvolver doença grave.”

Por fim, Carniel pontua que, como a imunidade não se desenvolve imediatamente após o recebimento da vacina, há o risco de as pessoas vacinadas serem contaminadas se entrarem em contato com o vírus poucos dias após a imunização. Além do risco de desenvolver a doença, há o risco de facilitar o surgimento de novas variantes do coronavírus. “A vacina demora 14 dias para fazer um efeito completo e, enquanto isso, o corpo ainda está aprendendo o que é o coronavírus e como se defender dele”, explica. “Se você entrar em contato com o vírus antes de a sua defesa estar completa, o corpo pode conseguir neutralizar a maioria das partículas virais, mas sobram as mais resistentes à vacina. E esses vírus podem começar a se replicar e se espalhar por aí, gerando novas variantes”.

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