Secagem da erva-mate por micro-ondas proporciona ganho nutricional e produto de melhor qualidade

Publicado originalmente em Ciência UFPR. Para acessar, clique aqui.

Estudo comparou sete métodos de secagem e destacou os resultados da nova técnica que ainda não é utilizada no setor

erva-mate (Ilex paraguariensis) é o principal produto florestal não madeireiro do sul do Brasil, consumida principalmente na forma de chimarrão, tereré ou chá-mate, vem tendo uma importância econômica crescente, tanto com a expansão do uso desses produtos tradicionais como o desenvolvimento de novas formas de sua aplicação, como em energéticos ou na indústria cosmética.

O processo de secagem das folhas de erva-mate é essencial no processamento desses produtos. Uma das possíveis alternativas aos métodos aplicados hoje nessa indústria é o uso de micro-ondas. A técnica ainda não é utilizada no setor, mas uma pesquisa demonstrou que ela pode trazer vantagens em relação aos métodos tradicionais, resultando em um elevado teor de componentes benéficos à saúde no produto final.

A secagem das folhas da erva-mate por meio de micro-ondas resultou em um elevado teor de componentes benéficos à saúde

A pesquisadora do Programa de Pós-graduação em Agronomia – Produção Vegetal da UFPR (PGAPV), Jéssica de Cássia Tomasi, apresentou em sua tese de doutorado um detalhado estudo comparativo sobre os efeito de diferentes processos de secagem na composição química, nutricional e características de cor das folhas de erva-mate. O estudo foi orientado por pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e pelo professor Cícero Deschamps, também do PGAPV.

O estudo avaliou sete tratamentos: micro-ondas, liofilizador, secadores a 40°, 60° e 80° C e os dois processos tradicionais (sapeco rotativo e esteira). Um dos objetivos foi traçar a manutenção do teor dos principais compostos bioativos do produto final, como cafeína, teobromina e ácidos monocafeoilquínicos, além dos compostos fenólicos totais e capacidade antioxidante. Foram avaliados também os nutrientes, como fibras, proteínas, lipídeos e cinzas, além da coloração e teor de antraquinona, uma substância nociva.

A árvore da erva-mate é nativa da região subtropical da América do Sul, abrangendo parte do Brasil, Paraguai, Argentina e Uruguai. Podendo atingir 12 metros de altura em ambiente natural.
Imagem: Kátia Picheli/Embrapa.

Os resultados, publicados no artigo Effects of different drying methods on the chemical, nutritional and colour of yerba mate leaves no International Journal of Food Engineering, indicaram que o produto resultante da secagem por micro-ondas foi semelhante àqueles de melhor qualidade produzidos por outros métodos.

“[A técnica] apresentou apresentou alta taxa de ácidos cafeoilquínicos, compostos fenólicos totais e alta capacidade de radicais antioxidantes, características ideais para consumo, pois contém mais propriedades benéficas que as outras secagens”Cristiane Helm, pesquisadora da Embrapa

“Os dados sobre a secagem tradicional e o micro-ondas ficaram reunidos em um grupo, o que significa que possuem valores parecidos. Esse grupo único apresentou alta taxa de ácidos cafeoilquínicos, compostos fenólicos totais e alta capacidade de radicais antioxidantes, características ideais para consumo, pois contém mais propriedades benéficas que as outras secagens”, aponta Cristiane Helm, pesquisadora da Embrapa e co-autora do artigo.O processo também resultou em uma matéria-prima com baixo teor de antraquinona dentro do limite aceitável pela União Europeia, ao se comparar com os processos tradicionais de secagem.

Secagem é momento decisivo para a qualidade do produto

O processo tradicional de secagem da erva-mate é histórico e culturalmente importante no Brasil, além de eficiente, principalmente na manutenção da coloração verde e sabor das folhas, atributo valorizado pelos consumidores de chimarrão e tereré. Essa característica é mantida em decorrência do sapeco, etapa na qual as folhas entram em contato direto com o fogo e fumaça, inativando as enzimas que causam o escurecimento da matéria-prima. Na sequência, as folhas são direcionadas ao secador rotativo, no qual entram em contato com a fumaça; ou para o secador de esteira, isento de fumaça.

Nas plantações a erva-mate é cultivada em fileiras e com podas sazonais que mantém a árvore baixa para melhorar a produção e o manejo.
Imagem: Kátia Picheli/Embrapa.

Principalmente o processo tradicional (sapeco + secador rotativo) traz também desvantagens, que podem se tornar inseguras para o consumo, ao apresentar potencial para gerar compostos prejudiciais à saúde que estão associados a diversas doenças. “Um dos problemas desses processos é a fumaça que, apesar de favorecer um aroma e sabor característicos, quando em contato com as folhas, contribuiu para o acréscimo de compostos tóxicos, como a antraquinona (ATQ), analisada na pesquisa”, explica Tomasi.

“Os processos em secadores e liofilizador também apresentaram reduzido teor de antraquinona, entretanto, não tiveram resultados interessantes de coloração, teor de ácidos cafeoilquínicos e capacidade antioxidante. Por isso, não foram enfatizados os resultados desses processos”Ivar Wendling, pesquisador da Embrapa

“Essas constatações fazem com que muitos segmentos da cadeia de erva-mate busquem estratégias alternativas de secagem e melhorias nos processos a fim de obter produtos mais seguros e que também mantenham níveis mais elevados de compostos bioativos”, declara o pesquisador da Embrapa, Ivar Wendling, um dos responsáveis por orientar a pesquisa.

O cientista explica que outros métodos alternativos que apresentam a mesma vantagem de baixo teor de antraquinona, ao contrário do uso de micro-ondas, não conseguiram reproduzir características apreciadas pelos consumidores.

“Os processos em secadores e liofilizador também apresentaram reduzido teor de antraquinona, entretanto, não tiveram resultados interessantes de coloração, teor de ácidos cafeoilquínicos e capacidade antioxidante. Por isso, não foram enfatizados os resultados desses processos”, completa Wendling.

Aspectos nutricionais foram destaque no estudo

Na avaliação de nutrientes, os dados ressaltam o potencial da erva-mate como fonte de proteína vegetal. Ao se compararem os processos de secagem, todos mantiveram teores similares de proteínas, em torno de 16%. “De modo geral, esse valor é satisfatório, caracterizando a erva-mate como boa fonte de proteína vegetal, fonte de vários aminoácidos essenciais ao nosso organismo”, declara a Tomasi.

Os lipídios, que também são macronutrientes essenciais para a dieta humana, variaram de 4% a 6% entre os processos, sendo os menores teores provenientes dos processos tradicionais. As fibras alimentares totais tiveram variação de 48% a 69%, que são fundamentais na dieta para um bom funcionamento do intestino, pois promovem a aceleração da digestão e evitam a prisão de ventre. O micro-ondas resultou no teor semelhante aos tradicionais, tendo maior teor no secador a 60°C.

O beneficiamento das folhas de erva-mate depende muito do processo de secagem que serve para estabilizar o produto além de desenvolver os sabores característicos dos produtos finais.
Imagem: Kátia Pichelli/Embrapa

Nas cinzas (minerais inorgânicos, importantes na composição de um alimento e essenciais ao organismo, como cálcio, magnésio, manganês, ferro, sódio, zinco, fósforo, potássio e enxofre), houve uma média de 6%, apresentando valores similares nos diferentes processos. “A erva-mate, seca em micro-ondas, é fonte de todos os macronutrientes (e micronutrientes, em função dos minerais) na composição nutricional de que precisamos para ter uma dieta balanceada. Por isso, essa secagem favorece as funções da erva-mate como alimento, e não necessariamente como bebida”, defende Helm.

No teste colorimétrico, as folhas secas no micro-ondas apresentaram coloração verde mais clara, ao passo que os processos tradicionais tiveram coloração verde mais escura. Os secadores resultaram em colorações escuras (folhas oxidadas) e o liofilizador proporcionou coloração verde clara. “De modo geral, o micro-ondas apresentou resultado satisfatório, semelhante aos processos tradicionais, porém, resultou em uma matéria-prima com verde mais intenso, preferida pelos consumidores”, ressalta a pesquisadora da Embrapa Rossana Catie Bueno de Godoy, co-autora do estudo.

Análise foi feita simulando a forma de consumo da erva-mate

A extração dos compostos bioativos foi realizada com água quente, que simula a ingestão da bebida. Foram avaliadas as metilxantinas (cafeína e teobromina) e os ácidos cafeoilquínicos, que são considerados os principais compostos bioativos da erva-mate. As metilxantinas são responsáveis pelo caráter estimulante da erva-mate e, no estudo comparativo, apresentaram os menores valores mediante processos tradicionais. “Isso mostra que o micro-ondas é uma alternativa de secagem que favorece a manutenção do teor de cafeína, composto estimulante do sistema nervoso central, primordial para indústria de bebidas energéticas”, aponta Tomasi.

“o micro-ondas é uma alternativa de secagem que favorece a manutenção do teor de cafeína, composto estimulante do sistema nervoso central, primordial para indústria de bebidas energéticas”Jéssica Tomasi, pesquisadora do PGAPV/UFPR

“Já os ácidos cafeoilquínicos, relacionados à ação anti-inflamatória e neuroprotetora, apresentaram o maior teor nos processos tradicionais e micro-ondas, sendo o seu teor dez vezes superior nesses três processos, se comparado aos demais”, ressalta Gabriel Goetten de Lima, pesquisador de pós-doutorado da UFPR. Isso, mais uma vez, mostra que o micro-ondas pode ser considerado uma alternativa para a secagem das folhas de erva-mate, já que apresenta alta concentração desses compostos, relevantes para a indústria.

Os resultados do extrato aquoso utilizado para avaliar a erva-mate moída nos processos tradicionais de secagem e de micro-ondas tiveram o maior teor de compostos fenólicos totais, com média 3,8 vezes superior à média dos demais processos. Os três métodos (secador tradicional rotativo e esteira e micro-ondas) também colaboraram para a maior capacidade antioxidante do extrato, sendo comprovada a correlação positiva entre compostos fenólicos e capacidade antioxidante. “Assim, quanto maior o teor de compostos fenólicos totais, maior a capacidade antioxidante da matéria-prima, ou seja, mais potente será no combate aos radicais livres, para a linha de bebidas, cosméticos ou outros fins. E o micro-ondas mostrou-se uma alternativa eficiente”, afirma Tomasi.

O próximo passo do estudo é avaliar na prática o produto com a análise sensorial do chá-mate quente e gelado produzido sob diferentes formas de secagem. “Esse estudo é primordial para validar a utilização do micro-ondas como uma alternativa de secagem da matéria-prima por meio da avaliação da aceitação dos consumidores de chá-mate”, declara Tomasi.

Adaptado de publicação no portal da Embrapa

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