Retórica da desinformação

Publicado originalmente em Coronavírus em Xeque por Yvana Fechine. Para acessar, clique aqui.

Acompanhamento das postagens de Bolsonaro sobre a pandemia de COVID 19 no Facebook

Apelando para fake news e falsos argumentos, o presidente Jair Bolsonaro tem atuado como um dos principais agentes públicos de desinformação ao longo da pandemia de COVID 19 no Brasil, empregando para isso, sobretudo, os seus perfis nas redes sociais digitais. Os textos aqui reunidos exemplificam as variadas estratégias empregadas pelo presidente nas postagens feitas no seu perfil no Facebook entre abril e agosto de 2020, período em que o Brasil viu crescer de modo alarmante o número de infectados pelo novo Coronavírus e mortos pela COVID 19. Todos os textos foram gravados em áudio e veiculados como interprogramas pela Rádio Universitária FM 99.9 e pela Rádio Universitária Paulo Freire 820 AM, além de serem disponibilizados no site do “Coronavírus em xeque”.

Os textos compilados dos interprogramas, produzidos ao longo de 20 semanas indicam o que considero como uma espécie de “retórica da desinformação” explorada pelo Presidente da República, a quem caberia, por dever do cargo que ocupa, orientar a população com base na orientação das autoridades sanitárias e no conhecimento científico. O uso do termo “retórica” para se referir às postagens de Bolsonaro que analisei justifica-se. Segundo o linguista e semioticista José Luiz Fiorin [1], a retórica ocupa-se dos meios de persuasão criados pelo discurso, bem como dos efeitos provocados nos ouvintes. Essa “retórica da desinformação” corresponde, aqui, as mais variadas estratégias empregadas pelo presidente para convencer seus milhões de seguidores nas redes sociais a aderir ao seu negacionismo e anticientificismo frente à pandemia de COVID 19. Acreditamos que um dos caminhos para combater a desinformação é desmascarar seus artifícios retóricos, é apontar como as informações falsas e/ou deturpadas são construídas discursivamente. Foi esta a intenção dos interprogramas que realizei, foi este o objetivo do “Coronavírus em xeque” em todas as suas ações (áudios, vídeos, podcast, programa de rádio, relatórios).

O discurso salvacionista do Governo Bolsonaro

Desde a campanha eleitoral, Bolsonaro vem se apresentando aos seus seguidores como um enviado por Deus para cumprir a missão de mudar o Brasil. Além de reforçada pelo apoio dos religiosos conservadores, essa imagem predestinado por Deus, foi ainda mais reforçada pela facada que ele recebeu na campanha. Uma facada da qual se salvou, segundo ele mesmo, por milagre! Pois bem, essa imagem de enviado por Deus, voltou a ecoar com força entre os seguidores dele nesse momento de pandemia de Coronavírus. Sem cobrar do presidente a responsabilidade no gerenciamento dessa crise, muitos seguidores preferem atribuir a causa e a solução da epidemia a forças transcendentes. O inimigo agora é um Mal que não tem nome, mas que vem do Alto. O enviado para combatê-lo é Bolsonaro, que um dos seguidores chegou a chamar de um Anjo de Deus. Há inclusive quem faça postagem com trechos bíblicos do Velho Testamento comparando o Coronavírus à peste que veio como castigo divino pelos pecados do povo. A cura viria, neste caso, com arrependimento e oração. 

Muitos seguidores de Bolsonaro no Facebook  já sugeriram ao presidente que convoque um dia de jejum e oração em todo Brasil para acabar com epidemia. São inúmeras as promessas de oração pelo presidente e as demonstrações de confiança cega no que Bolsonaro diz, mesmo quando ele contraria as orientações das autoridades de saúde internacionais e do próprio Governo. Não pretendo aqui, de modo nenhum, desmerecer o comportamento de quem se apega a fé para enfrentar esse momento. O problema é quando a fé em Deus se confunde com a fé em um presidente que já demonstrou incapacidade para liderar o país na crise. A fé, que nos fortalece na dificuldade, não pode nos impedir de acatar o conhecimento cientifico que tem orientado as medidas de contenção da epidemia. Não se pode explorar a boa fé de grande parcela da população para pregar o fim das medidas de isolamento social com postagens duvidosas no Facebook. Enfim, a fé, alimentada pela desinformação, não pode se transformar em uma armadilha populista.

Cloroquina nas redes de Bolsonaro

Bolsonaro tem se comportado como um verdadeiro garoto propaganda do medicamento fazendo postagens diárias nas redes sociais em que incentiva o uso da substâncias, apesar de não existirem ainda estudos conclusivos  respeito. Por isso, Bolsonaro já ganhou o apelido nas redes sociais de capitão Cloroquina e virou alvo de inúmeros memes. Mas, ele não recua e já anunciou no Facebook que laboratórios das Forcas Armadas vão ampliar a produção de cloroquina e que a Índia vai nos ajudar nisso. No quinto pronunciamento em rede nacional de rádio e TV sobre a crise do Coronavírus, o presidente defendeu o uso da cloroquina para tratar doentes da Covid-19 desde a fase inicial da doença. Mas, como já se sabe que o medicamento possui efeitos colaterais muito graves, a substância tem sido prescrita apenas para os casos muito graves, e mesmo assim falta consenso científico. Na dúvida, Bolsonaro vende a certeza da cura. 

Parece evidente a intenção de Bolsonaro: se já existe tratamento fácil, não há necessidade de rigor na prevenção e aí fim do isolamento social, que ele tanto defende, poderia terminar. Essa recomendação precipitada da cloroquina, ignorando todos os protocolos da ciência, parece, no entanto, atender a outros propósitos. Mais uma vez, o presidente estimula em suas redes sociais a polarização política que garantiu sua eleição, só que agora usando um medicamento como pretexto. E isso não é tudo. Bolsonaro aciona, com isso, uma estratégia muito comum entre os populistas que é eleger inimigos imaginários contra os quais precisa da mobilização dos seus apoiadores. O inimigo da vez são todos aqueles que são contra a prescrição médica imediata da cloroquina e a favor do isolamento social. Com essa campanha em defesa da cloroquina, ele assume a paternidade de ao menos uma iniciativa, mesmo que equivocada, de combate à epidemia. Isso porque, até agora, as poucas ações do Governo Bolsonaro deixaram à margem o próprio presidente. Mais que isso,  ao se colocar no papel de visionário que anteviu o remédio para a Covid 19, ele reforça mais uma vez o papel de Messias, um papel que ele adora assumir. E tem dado certo porque grande parte dos seus seguidores no Facebook têm acatado seus conselhos e há inclusive que elogie o presidente por descobrir a cura para a Covid 19. Bolsonaro transforma tudo em uma grande disputa conspiratória entre forças de Direita e de Esquerda e, diante da pandemia de Coronavírus, não te disso diferente. ele quer posar como o herói que aponta o antídoto contra o vírus que veio da China comunista. Mas a gente sabe que a epidemia não é uma fábula com soluções mágicas e que não podemos nos deixar enganar por um conto de fadas populista. Por isso, na próxima vez que ouvir o presidente defender a cloroquina, proteja-se contra o vírus da desinformação.

As “meias verdades” de Bolsonaro

Nós podemos considerar como meias verdades ou como informações com contexto falso aquelas informações chegam pra gente distorcidas de propósito. O presidente Jair Bolsonaro, por exemplo, tem feito muito isso com os números  mortos pela COVID 19. Ele  divulgou uma tabelas em que o Brasil aparece em posição muito melhor em comparação com outros países, mas a postagem não  mostra que nosso índice de testagem é muito baixo e nem esclarece que a contaminação em cada país ocorre em tempos diferentes. É muito fácil distorcer estatísticas! É muito comum também nas redes sociais o uso de declarações de especialistas e autoridades fora do contexto, dando um sentido bem diferente do que tinham na fala original. E Bolsonaro tem feito isso com declarações do diretor da Organização Mundial de Saúde, Tedros Adhanom. Bolsonaro publicou um vídeo no Facebook com um trecho de um pronunciamento do diretor da OMS dizendo que as medidas restritivas não devem ser usadas às custas dos direitos humanos.  A frase foi tirada do contexto para criticar o fim do isolamento social, justamente o contrário do que a OMS defende. 

No pronunciamento, o diretor da OMS demonstrava preocupação  com os efeitos negativos do isolamento social na economia, especialmente nos países mais pobres. Mas, em nenhum momento, ele minimiza a necessidade do isolamento social. Pelo contrário.  A OMS divulgou uma lista de critérios que os países devem atender antes de flexibilizarem a quarentena. O Brasil, infelizmente, ainda não se enquadra nesses critérios. Não é a primeira vez que Bolsonaro faz isso. Para defender o fim do isolamento social, o presidente já distorceu outra fala do diretor da OMS e foi desmentido publicamente por Tedros Adhanom. Como não dá para a gente esperar desmentidos só tem um jeito: desconfiar de postagens com declarações que pareçam contrariar o que as pessoas já defenderam publicamente, como foi o caso do diretor da OMS. Na dúvida, procure a declaração no contexto original. Num momento em que uma informação distorcida pode até colocar vidas em risco, é preciso  ter também esse tipo de precaução.

Teorias da conspiração

As teorias da conspiração tratam sempre de intenções maliciosas e projetos secretos contra pessoas e instituições. São formas simplórias de enfrentar problemas que envolvem explicações ou soluções complexas. Diante do que não entendemos, é mais fácil encontrar explicações maquiavélicas que, quase sempre,  apontam um inimigo imaginário, um traidor, um conspirador. Bastaria então descobrir a conspiração e eliminar o conspirador para a gente ter a impressão que o problema seria resolvido. 

As conspirações também funcionam muito bem como cortinas de fumaças para desviar nossa atenção do que realmente importa. Quando a gente observa o perfil de Jair Bolsonaro no Facebook, como estamos fazendo, dá para ver claramente esse apelo a teorias da conspiração tanto da parte do presidente quanto dos seguidores. O inimigo, o traidor, conspirador depende do momento, da conveniência política e do problema que não se quer ou não se sabe, de fato, enfrentar.  O mais grave é quando o enfrentamento de uma pandemia é atrapalhado por teorias da conspiração. Os seguidores de Bolsonaro se encarregaram de espalhar fake news alegando que a China, governada pelo Partido Comunista, havia fabricado o vírus em laboratório como parte de um plano mirabolante para quebrar os mercados e assumir a liderança na economia mundial. Todo isso, claro, já foi desmentido. Mas quando o tema parecia superado, o Ministro da Relações Exteriores Ernesto Araújo volta com nova teoria da conspiração. O chanceler Ernesto Araújo defendeu em um blog pessoal que a pandemia pode estar sendo usada para, nas palavras dele, “instaurar o comunismo, o mundo sem nações nem liberdade, um sistema feito para vigiar e punir”. O chanceler também sugere que as ações globais propostas pela Organização Mundial da Saúde para combate à pandemia são o primeiro passo na construção do que ele chama de uma “solidariedade comunista planetária”. Há muitas intenções por trás da tese delirante do ministro, mas uma é mais imediata: associar a OMS a complôs internacionais e dar nova munição as redes bolsonaristas que brigam pelo fim do isolamento social e se insurgem contra o controle de aglomerações em espaços públicos determinado por governos estaduais e municipais, seguindo orientações da OMS. Desconfie sempre de informações sobre golpes, complôs, conspirações. Quem conspira verdadeiramente contra todos nós é quem alimenta a desinformação.

Desinformação e omissão

Um estudo que vem sendo realizado por pesquisadores da Fundação Getúlio Vargas e da Universidade de Cambridge vem mostrando que as falas do presidente Jair Bolsonaro influenciaram negativamente a taxa de isolamento social nos municípios em que ele tem mais eleitores. Os pesquisadores usaram dados de geolocalização anônimos de aparelhos celulares e cruzaram com resultados das eleições de 2018. 

O estudo confirma que o presidente dá mau exemplo. Se Bolsonaro confunde a população com o que fala, ele também colabora para a desinformação quando cala. E foi o que aconteceu nos dez dias seguintes ao pedido de demissão de Sérgio Moro do cargo de Ministro da Justiça e Segurança pública. Nas redes sociais, Bolsonaro mal falou da pandemia. Toda a atenção foi voltada para se defender da acusação feita por Moro de que ele queria intervir politicamente na Polícia Federal, o que configura crime de responsabilidade e dá margem para um impeachment. Moro agora é tratado como um mentiroso traidor e os pedidos de impeachment são denunciados como tentativa de Golpe. Mais preocupado em atiçar os seguidores contra Moro e os pretensos golpistas, de cada dez postagens de Bolsonaro no Facebook, apenas duas em média trataram diretamente da pandemia, e quase sempre criticando medidas dos governadores. Foi o caso de um vídeo do presidente do Conselho Federal de Medicina, Mauro Ribeiro, atacando governadores do Nordeste que querem autorização federal para contratar médicos brasileiros formados no exterior, antes de revalidarem os diplomas, pois isso seria solução para suprir a falta de profissionais. O descaso de Bolsonaro com a pandemia é tão evidente que quando foi questionado em uma das suas lives no Facebook sobre o numero de mortos, respondeu simplesmente com “e daí?” e alegou que se chamava Messias, mas não fazia milagres. No momento em que o numero de infectados cresce em todo país, o silêncio do presidente minimiza a gravidade da pandemia, desvia o foco e desorienta mais vez a população.

“Disse me disse” como estratégia de ataque à imprensa

Quero tratar de uma estratégia política que aposta no disse-me-disse, na falta de coerência entre um discurso e outro, na divulgação de uma informação que é logo em seguida desmentida. Esse tipo de estratégia serve muito bem a quem quer politizar a pandemia do novo coronavírus e desviar o foco do que realmente importa, e é o que tem feito o presidente Jair Bolsonaro. O mais recente exemplo foi o anúncio feito por Bolsonaro de que faria um churrasco reunindo umas 30  pessoas no Palácio do Alvorada. O anúncio, claro, pegou muito mal porque, além de promover aglomeração, Bolsonaro anunciou a festa no momento em que o país chegava aos 10 mil mortos por COVID 19. 

O presidente reagiu à repercussão negativa com uma postagem no Facebook dizendo que o convite era fake e chamando os jornalistas de idiotas por terem acreditado numa declaração supostamente irônica. No vídeo, Bolsonaro sai convidando para festa em tom debochado todos os apoiadores concentrados em frente ao Alvorada, e disse que ia ter umas 1300 pessoas no churrasco. E dessa vez, ele estava realmente tirando onda com o isolamento social. A Folha de São Paulo publicou, no entanto, que fontes palacianas confirmaram que o presidente, de fato, pretendia fazer o tal churrasco para auxiliares mais próximos. Fake ou não, o fato é que o suposto churrasco do presidente provocou mais uma vez um disse-me-disse que tenta descreditar o jornalismo e tirar proveito político da desinformação, e tudo isso em meio a uma pandemia. O caso do churrasco, apelidado de churrasco da morte, tem ainda um agravante: supondo que o presidente estivesse, de fato, sendo irônico, o anúncio ele que fez da festinha no Palácio do Alvorada não foi somente uma falta de respeito às famílias. Foi mais uma vez outro péssimo exemplo. Afinal, se, de acordo com o presidente, os jornalistas não entenderam que o anúncio do churrasco era uma ironia, como será que a declaração foi interpretada pelo cidadão que não costuma lidar com figuras de linguagem? O disse-me-disse do presidente joga mais uma vez contra o isolamento social recomendado pela autoridades sanitárias.

Insinuações perigosas

A insinuação é uma maneira de dar a entender alguma coisa sem dizer claramente, uma forma de aconselhar indiretamente, induzir em erro uma pessoa. Quando o assunto é uma pandemia, como a do novo Coronavírus, insinuações mal intencionadas são perigosas, e ainda mais quando feitas pelo Presidente da República e no Facebook, uma rede social na qual Jair Bolsonaro tem mais de 10 milhões de seguidores e um volume enorme de interações.

Como parte da verdadeira cruzada que tem feito contra o isolamento social, Bolsonaro publicou no último dia 16 de maio um vídeo acompanhado do seguinte texto: “uma aula para vida toda. Como conseguir a sonhada imunidade”. O vídeo é bem parecido com dezenas de outros, de fonte desconhecida, que têm circulado em grupos de Whatsapp. Mas quando é disponibilizado pelo próprio presidente, ganha outro peso. O vídeo mostra um homem que se apresenta como médico na cidade de Presidente Prudente. Sem nenhum embasamento científico, o homem alega que o novo Coronavírus não é tão agressivo quanto se pensa e alega que para combatê-lo o caminho é reforçar a imunidade. A seguir passa a dar dicas de como aumentar a imunidade, e entre elas, recomenda que as pessoas fiquem mais tempo ao ar livre, contrariando as orientações das autoridades de saúde para que todos fiquem em casa.  A insinuação do vídeo no Facebook é bem clara: se você cuidar da sua imunidade, não precisa ter medo da COVID 19. Uma insinuação como esta reforça, claro, a pregação de Bolsonaro pelo fim do isolamento social, induzindo as pessoas a minimizarem os riscos da contaminação pelo novo Coronavírus. Se a solução fosse tão simples, como apenas cuidar da imunidade, outros países como França, Inglaterra e Alemanha, que já passaram por longas quarentenas, teriam adotado.

Insinuações como a do vídeo publicado por Bolsonaro podem custar vidas. Não se deixe enganar. Desconfie de qualquer informação sobre o novo Coronavírus que não seja respaldada por pesquisas, entidades ou especialistas com autoridade científica reconhecida.

Os sofismas de Bolsonaro

Precisamos nos precaver contra os sofismas. De modo geral, nós chamamos de sofismas os falsos argumentos, sem coerência, ilegítimos, falaciosos. Desde que começou a pandemia do novo Coronavírus, eu tenho acompanhado o perfil de Jair Bolosonaro no Facebook e o que não falta por lá são sofismas. Um sofisma usado com muita frequência pelo presidente é mudar o foco da questão, já que, na maioria da vezes, ele não tem argumentos capazes de rebater a posição contrária a dele. Eu destaco aqui a live que o presidente fez na noite do dia 22 de maio para falar da liberação pelo STF do vídeo da reunião ministerial em que ele, segundo Sergio Moro, ameaçou intervir na Policia Federal. Sem argumentos para desmentir o que o vídeo comprova, Bolsonaro desvia o foco: acusa adversários e  a mídia, evoca Deus, a família, a pátria e, claro, volta a atacar o isolamento social e defender a cloroquina como remédio para a COVID 19. Dessa vez, no entanto, a defesa da cloroquina é um exemplo perfeito dos sofismas do presidente. Bolsonaro não tem mais como vender a cloroquina como a cura milagrosa para a COVID 19 porque até o protocolo de uso do medicamento divulgado recentemente pelo Governo reconhece que não há estudos conclusivos. O que Bolsonaro faz então? Muda o foco da questão. O argumento não é mais agora a eficácia da cloroquina, mas o livre arbítrio do cidadão. Aos berros e com palavrões, ele defende o direito que cada um tem de usar a cloroquina. Nas palavras do presidente, usa quem quer e quem não quer não deve encher o saco dos outros. O que o sofisma de Bolsonaro esconde é que um tratamento médico não é uma mera questão de opinião. Um remédio com graves contraindicações, como a cloroquina, pode levar à morte tanto quanto a doença. E para não encarar as milhares de mortes pela COVID 19, lá vem o presidente com mais sofisma. Ele trata das mortes pela Covid 19 desviando, mais uma vez o foco: zomba da cobertura jornalística e chama a TV Globo de TV Funeral. Resta saber até quanto os sofismas de Bolsonaro vão resistir à realidade.

Bolsonaro, fakes news e liberdade de expressão

Quero refletir com você sobre a reação do presidente Jair Bolsonaro às investigações determinadas pelo Supremo Tribunal Federal em torno fake news, fake news que, como a gente vem alertando aqui, têm prejudicado muito o enfrentamento ao novo Coronavírus.

Como sabemos, a Polícia Federal realizou, a mando do STF, buscas  nas casas de blogueiros, empresários e políticos sob os quais pesam suspeitas de envolvimento com as redes bolsonaristas de divulgação de fakes news. Bolsonaro, claro, não gostou.

E qual foi a reação? O presidente correu para as redes sociais apelando, como sempre, para a conhecida estratégia de atacar para se defender. São várias as postagens sugerindo que o inquérito sobre as fake news atenta contra a liberdade de expressão. Em uma live no Facebook, feita no ultimo dia 28 de maio, logo depois da operação da Polícia Federal, o presidente fez um pronunciamento teatral diante dos apoiadores em frente ao Palácio do Alvorada. Esbravejou, proibiu jornalistas de falar, xingou, subiu o tom contra o STF e ameaçou com um sonoro “chega” seguido de palavrão… Entre a indignação e o descontrole, o pronunciamento do presidente alegou que as investigações sobre fake news buscam atingir as mídias alinhadas com o Governo, cerceando a liberdade de expressão dos que o apoiam. Ora, não é de hoje que se trava um debate em várias áreas de conhecimento sobre os limites da liberdade de expressão. No meio jurídico, por exemplo, muitos defendem que, ao mesmo tempo que se precisa garantir a liberdade de expressão, também é necessário que se proteja outros direitos fundamentais igualmente resguardados pela constituição. Não pretendo entrar aqui no mérito dessa discussão. O que pretendo é  destacar a manobra do presidente que ao tomar as dores de apoiadores acusados de propagar fake news se escuda no direito a liberdade de expressão para defender quem espalha mentiras na redes sociais com objetivos políticos. Quando se divulga, por exemplo, a cloroquina como solução para curar a COVID 19 não estamos apenas de diante de uma questão de opinião, mas de uma mentira. Quando se espalha notícias de que os governadores e prefeitos estão fraudando atestados de óbito por COVID 10 para justificar o isolamento social, não estamos mais no terreno da liberdade de expressão, mas de uma difamação. Disseminação da dúvida, desvio do foco, desqualificação dos adversárias, bravatas, apelos passionais… As estratégias retóricas do presidente nas redes sociais são cada vez mais claras. Mas e as fake news? Descobrir quem apoia o presidente às custas de notícias falsas é, nesse momento, uma questão de vida ou morte porque as fake news em torno da pandemia estão colocando muita gente em risco.

Números enganam

Quem tem acompanhado o perfil do presidente Jair Bolsonaro no Facebook desde o inicio da pandemia, como eu, observa que ele gosta de fazer postagens divulgando números que comprovariam os esforços do Governo Federal para enfrentar o novo coronavírus. Geralmente, as postagens trazem números que são listados na forma de tópicos sem maiores explicações ou contextualização. Vou dar um exemplo. Em uma postagem de primeiro de junho, Bolsonaro propagandeou:

– 11,4 milhões de medicamentos distribuídos

– 14 mil novos médicos

– 417, 7 bilhões investidos no combate direto ao vírus

E assim por diante…

Os números listados assim de forma solta parecem sempre positivos. E aí é que está o risco!. Quando números são apresentados sem comparações, sem contextualização, sem uma escala de referência, podem nos enganar. 14 mil novos médicos, por exemplo, é uma boa noticia? Em tese, sim. Mas,  médicos novos não são necessariamente médicos disponíveis para atuar no tratamento da COVID 19. E se forem, quantos na rede publica e privada? E qual a distribuição geográfica? E de quantos o Brasil precisa? Com recortes e palavras escolhidas a dedo é muito fácil iludir com os números.

Um livro dos anos 50 já alertava pra isso. O título é “Como mentir com estatísticas”. O livro é ainda hoje um clássico e você encontra fácil na internet. Recomendo!

Tão perigoso quanto jogar com os números é escondê-los. E a mídia corporativa já denunciou que por ordem de Bolsonaro o Ministério da Saúde passou a divulgar o balanço das mortes por COVID 19 depois das dez da noite pra não dar tempo de entrar nos principais telejornais. Bolsonaro fez uma postagem no Facebook alegando motivos técnicos para mudança. Mas ele praticamente confessou a manobra porque em conversa com apoiadores na frente do Alvorada debochou da Globo dizendo que agora não ia mais ter matéria no Jornal Nacional.  Em qualquer circunstância e seja qual for a fonte, é preciso desconfiar de números descontextualizados, mas é preciso desconfiar mais ainda quando o próprio Governo segura a divulgação de dados num momento em que o Brasil ainda aparece entre os países com maior numero de mortos pela COVID 19.

Negacionismo da COVID 19

Negacionismo é um termo usado para definir a recusa em aceitar uma realidade comprovada por evidências empíricas e cientificas ou pela história. Em outras palavras, é a escolha que muita gente faz de negar a realidade para não enfrentar uma verdade. Por isso mesmo, o negacionismo costuma andar de mãos dadas com teorias da conspiração, que inventam causas ou soluções fantasiosas para os problemas. É o  negacionismo da COVID 19  que está por trás, por exemplo, das noticias falsas que falam de caixões sendo enterrados vazios ou de atestados de óbito falsos para inflar o numero de mortes pela doença, do mesmo modo que levanta suspeitas sobre a lotação dos hospitais públicos. O pior é que esse negacionismo da COVID 19 tem no Presidente da República, Jair Bolsonaro, seu principal representante. A última do presidente ultrapassou todos os limites.  Bolsonaro estimulou os apoiadores dele a entrar e filmar hospitais públicos para comprovar se os leitos estavam, de fato, ocupados e se as instalações eram compatíveis com os gastos feitos por Governadores e prefeitos. O apelo de Bolsonaro foi feito em 11 de junho, na live que ele faz no Facebook todas às quintas-feiras, a pretexto de prestar contas das medidas e decisões do Governo. Na prática, essas lives funcionam como um momento de mobilização da base bolsonarista nas redes sociais. E bem que funciona porque bastou o presidente incitar a invasão de hospitais para que houvesse registro desse tipo de ocorrência no Rio e no Ceará, por exemplo.

Essa convocação de Bolsonaro deixa mais uma vez evidente que o presidente trata a pandemia da COVID 19 como uma grande conspiração política para abalar o Governo e ameaçar a permanência dele no cargo. Por isso, querem isolamento social para quebrar a economia do País e exageram nas mortes e na ocupação dos hospitais. Ora, ao insistir em negar a realidade a alimentar teorias da conspiração, Bolsonaro mostra mesmo é que está mais preocupado com o futuro político dele que com a população. O negacionismo da COVID 19 evidencia a incapacidade do presidente para lidar com uma crise dessas proporções e indica que a desinformação agora é política de Governo.

As falácias do presidente

Mesmo que você não se dê conta, a argumentação é parte do nosso dia a dia porque nós precisamos o tempo todo convencer os outros a acreditar em alguma coisa. Um argumento nada mais é do que um raciocínio que a gente constrói para defender nosso ponto de vista. Quando os fatos contrariam o ponto de vista que se quer defender, muita gente apela para a falácia, que é um tipo de falso argumento que frequentemente apela para a distorção das informações .

Nesse momento,  o que não falta no Facebook do presidente Jair Bolsonaro são postagens que usam argumentos falaciosos. É que está ficando cada vez mais difícil para o presidente justificar a inoperância do Governo Federal no enfrentamento da pandemia de COVID 19. A saída do presidente na última semana foi argumentar, com ao menos duas postagens, que o Supremo Tribunal Federal determinou que as ações de combate ao novo coronavírus eram responsabilidade de Prefeitos e Governadores. Na live semanal, do ultimo dia 18 de junho, Bolsonaro chegou a dizer que, por decisão do STF, o presidente não podia fazer quase nada a não ser mandar dinheiro para Estados e Municípios. E por que esse argumento do presidente é falacioso? Porque para defender sua posição distorce a decisão do STF.

O que o STF decidiu decidiu foi que  estados e municípios poderiam estabelecer medidas na área da Saúde, como o isolamento social, e definir serviços essenciais que poderiam funcionar durante o período da pandemia. A decisão foi tomada ao julgar uma ação contra uma Medida Provisória que dava ao presidente essa competência e que foi considerada inconstitucional. O STF também considerou depois que prefeitos e governadores podiam restringir a circulação interestadual e intermunicipal para conter a propagação do novo coronavírus.

A decisão do STF não eximiu o Governo Federal da responsabilidade de articular e implementar ações nacionais de saúde de combate ao novo coronavírus. Para justificar a própria incapacidade de liderar o Brasil no enfrentamento da pandemia da COVID 19, Bolsonaro  tenta convencer seus mais de 10 milhões de seguidores no Facebook com a falácia de que está de mãos atadas. Mas, como se costuma dizer: contra fatos não há argumentos, especialmente os falsos.

Falsidade como desinformação

Nessa guerra de comunicação envolvendo a COVID 19, quero chamar sua atenção para  falsidade, que é também modo de tentar enganar o outro. A gente pode pensar a falsidade como um jogo entre o parecer e o ser. Falso é tudo aquilo que não é e não parece ser. Um jogo inútil de aparências!

Esse jogo de aparências me veio à cabeça assistindo à live semanal do presidente Jair Bolsonaro, do ultimo dia 25 de junho. Na live, Bolsonaro está sentado ao lado do ministro da economia Paulo Guedes, que foi convocado para fazer um balanço – diga-se de passagem bem duvidoso – dos recursos destinados pelo Governo para enfretamento da pandemia.

Sentado atrás de Bolsonaro e Guedes, num segundo plano, está o presidente da Embratur, Gilson Machado Neto, com uma sanfona. Bolsonaro pede a Gilson Machado Neto para tocar a “Ave Maria” em homenagem aos mortos pela COVID 19. Subserviente, o presidente da Embratur toca e canta bem desafinado a Ave Maria, enquanto Bolsonaro permanece de costas para o sanfoneiro e mexe nos papeis sobre a mesa sem prestar muita atenção. O presidente não consegue nem disfarçar a indiferença ao momento da tal homenagem. Quanto a gente lembra que, ao ser confrontado com o crescimento de mortos pela COVID 19,  Bolsonaro já reagiu com um simples “e daí?”, a encenação é, no mínimo, constrangedora. Fake não é, mas falsa bem que parece ser. Puro jogo de cena que virou até piada em um programa de uma TV portuguesa. O mais grave, porém, é que essa encenação, ridicularizada nas redes sociais, foi a única resposta do presidente da república no momento em que o Brasil já havia ultrapassado e muito os 50 mil mortos pela COVID 19.

Ceticismo e desinformação

Quero falar hoje sobre um comportamento que a gente costuma chamar popularmente  de comportamento de “São Tome”. Essa expressão tem origem no relato sobre o apóstolo Tomé que duvidou da ressurreição de Jesus e exigiu tocar as chagas para que se convencer. A gente costuma associar o comportamento de São Tomé aquele tipo de pessoa que precisa do contato direto, visual e até físico com as evidências para acreditar em alguma coisa.

Por trás do comportamento “São Tomé” existe um ceticismo que tem sido para contestar as evidências e os consensos científicos em torno da pandemia com base apenas em convicções pessoais ou experiências vividas. Ou seja, o que vale é apenas a experiência direta. Tem muita gente, por exemplo, que só passou a acreditar no alto risco do contágio pelo novo Coronavírus quando foi infectado ou que só acreditou na gravidade da COVID 19 quando perdeu alguém próximo. O mais grave é quando um País enfrenta uma pandemia governado por um presidente que dá uma de São Tomé, como Bolsonaro.

Já temos bem mais de um milhão e meio de infectados pelo novo Coronavírus no Brasil e Bolsonaro continua negando a gravidade da pandemia e duvidando do risco de colapso nos sistemas de saúde com o crescimento de casos de COVID 19. Na live semanal no Facebook no dia dois de julho, o presidente sugeriu que não havia mais razão para as pessoas manterem o distanciamento social porque já existiriam leitos de UTI e respiradores suficientes. Em determinado momento da live, Bolsonaro afirmou o seguinte: “Eu desconheço – pode ser que exista, mas eu desconheço qualquer pessoa que tenha perdido a vida por falta de respirador”. Repare: ELE, pessoalmente, desconhece os casos e com base nessa convicção pessoal, ignorando os dados, estimula os brasileiros a irem às ruas.

Ora, desde o início da pandemia, a imprensa noticiou vários casos de pacientes que morreram por falta de acesso a leitos ou a respiradores, ao contrário do que afirma o presidente. O comentário coincide justamente com a preocupação de epidemiologistas, noticiada por grandes jornais, com a falta de leitos de UTI fora das capitais. Pelo menos 100 milhões de brasileiros vivem em locais sem UTI. O colapso no sistema de saúde continua sendo, aliás, uma preocupação dos governos estaduais no momento em que arriscam a reabertura do comercio. Por isso, mesmo que muitas atividades já estejam liberadas, não dê uma de São Tomé: o risco de contágio é ainda muito alto e, se puder, saia de casa apenas em situações essenciais.

Cloroquina em “comercial de margarina”

Peço sua atenção para um assunto sobre o qual já falamos bastante, mas que voltou com tudo depois que foi presidente Jair Bolsonaro informou que está com COVID 19. É claro que estou falando da hidroxicloroquina, que contém a substância cloroquina, objeto de inúmeras fake news e informações duvidosas.

Mas, espere aí, porque eu não vou tratar dos graves efeitos colaterais desses substâncias, como alterações cardíacas que podem levar à morte. Quero chamar sua atenção para como o presidente tem usado a própria doença para “vender” a hidroxicloroquina. Em várias postagens no Facebook, Bolsonaro alega que está tomando o medicamento e, graças a ele, está melhorando. Um dos vídeos do presidente chegou a ser comparado por uma cientista com um comercial de margarina.

Não deixa de ser conveniente que a doença e o suposto tratamento bem sucedido de Bolsonaro com hidroxicloroquina ocorra depois que o Ministério Público exigiu que o Tribunal de Contas da União investigasse  a responsabilidade direta do presidente na ordem para que o Laboratório do Exército aumentasse produção do remédio, mesmo sem comprovação científica de que é, de fato, útil  para o tratamento da covid-19. E não é somente o risco do desperdício de mais de um milhão e meio com comprimidos que permanecem estocados. A  investigação envolve também o superfaturamento na compra de insumos para produção do medicamento.

Nas redes sociais, tem muita gente duvidando de que Bolsonaro esteja mesmo doente. Argumentam que,  em março, muitos auxiliares que conviviam de perto com o presidente tiveram COVID 19, mas ele garantiu que não pegou o vírus. Os testes negativos, no entanto, só apareceram, e com um pseudônimo, depois que um jornal solicitou na justiça a divulgação. Dessa vez, ao contrário, foi o próprio Bolsonaro que alardeou que havia contraído a doença e, no mesmo dia, apareceu sorridente e bem disposto em vídeo no Facebook tomando um comprimido de hidroxicloroquina.

Não dá pra sugerir que a doença do presidente é fake sem cair no mesmo erro das teorias da conspiração que os bolsonaristas exploram. Mas o fato é que Bolsonaro faz uma propaganda inconsequente da hidroxicloroquina, com base apenas em convicções pessoais. E o pior: ignorando que a maioria da população, diferentemente do presidente da república, não pode fazer dois exames cardíacos diários pra monitorar os efeitos colaterais da cloroquina.

Falsos dilemas

Para que haja um dilema, é preciso que não exista uma alternativa além das apresentadas. Quando a gente fala em falso dilema é porque, evidentemente, existem outras alternativas possíveis, mas que não são levadas em consideração, seja lá qual for o motivo. Ao longo de toda a pandemia provocada pelo novo Coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro tem usado e abusado dos falsos dilemas nas lives que faz rotineiramente no Facebook. Quando o presidente diz que nós, brasileiros, temos que escolher entre manter as medidas de distanciamento social ou os empregos está nos colocando, por exemplo, diante de um falso dilema. Um falso dilema que ele insiste em repetir e que esconde a possibilidade do Governo adotar outras medidas econômicas para manutenção de empregos e renda. São alternativas que nem são consideradas porque  contrariam a austeridade e o controle de gastos públicos defendidas pelo ministro Paulo Guedes, tudo em nome do Mercado. Por isso, o dilema colocado pelo presidente é falso. E não é o único.

Muita gente já notou que, desde que adoeceu de COVID 19, Bolsonaro se tornou um verdadeiro garoto propaganda da cloroquina. Além de dar o testemunho pessoal de que o remédio funcionou pra ele, o presidente tem defendido a cloroquina às custas de outro falso dilema. Seja na  live semanal da quinta-feira, seja nas transmissões que faz  das conversas com apoiadores em frente ao Alvorada, Bolsonaro começa instalando a dúvida: admite que não existe estudo científico comprovando que a cloroquina cura a COVID 19, mas também não existe estudo comprovando que não cura. Instalada a dúvida, o presidente coloca o dilema: como os estudos são inconclusivos, cabe ao doente decidir se toma ou não toma a cloroquina, pois não existiriam outras alternativas. Bolsonaro ignora não apenas outros tratamentos, mas deliberadamente omite os riscos provocados pelos efeitos colaterais da cloroquina, como problemas cardíacos.

A  omissão de informação ou informações enganosas costumam sustentar falsos dilemas, como os que são apresentados pelo presidente em relação a medidas para evitar o contágio pelo novo coronavírus ou ao tratamento da COVID 19. Por isso, quando lhe colocarem diante de um dilema procure se informar melhor para avaliar se não existem realmente outras alternativas. O cuidado com os falsos dilemas valem especialmente quando as decisões dizem respeito a nossa saúde.

Já foi enganado com uma preterição?

Vou mostrar que a desinformacão também se manifesta como um modo de dizer alguma coisa sem parecer que está, de fato, dizendo. Isso corresponde a uma figura de linguagem chamada de preterição. Embora a maioria não conheça o termo preterição, é bem provável que já tenha utilizado essa figura de linguagem.  É o que acontece quando a gente começa uma frase dizendo, por exemplo:

Eu não preciso dizer que…. e aí a pessoa começa a falar daquilo que ela disse que não precisava lembrar..

Ou seja, a preterição é recurso usado quando uma pessoa quer parecer que não está dizendo aquilo que, no entanto, ela afirma claramente.

Ora, foi exatamente isso o que o presidente Jair Bolsonaro fez nas suas lives semanais no Facebook durante o período em que esteve com a COVID-19. Nas transmissões pelo Facebook, Bolsonaro aparecia insistentemente exibindo uma caixa de hidroxicloroquina na mesa e sempre dizia “Não estou recomendando pra ninguém”. Mas era exatamente o que ele estava fazendo porque, na sequência, o presidente de como ele melhorou depois de tomar o medicamento. Não bastassem as lives, Bolsonaro anunciou que havia testado negativo em uma postagem em que aparece sorridente exibindo uma caixa de hidroxicloroquina.

Ou seja, Bolsonaro diz que não vai recomendar a hidroxicloroquina quando é exatamente o que ele está fazendo. Não precisa ser um estudioso de retórica para constatar que o presidente usa uma figura de linguagem apenas para mascarar a recomendação irresponsável que ele faz de um medicamento sem eficácia comprovada contra a COVID 19, e  com graves efeitos colaterais, como as alterações cardíacas.

Mas por que o presidente faz de tudo pra promover a hidroxicloroquina, recorrendo até a artifícios retóricos? Uma resposta pode ser a produção do medicamente em larga escala pelo Laboratório Químico Farmacêutico do Exército sem que haja demanda dos Estados nem estudos científicos conclusivos.

E eu termino com uma recomendação que pode lhe ajudar em meio a tanta desinformação em torno da hidroxicloroquina: procure na internet a revista Questão de Ciência. Nela, você encontra artigos de divulgação científica com  informações seguras e acessíveis.

Deboche e desinformação

Quero chamar sua atenção para a relação entre o deboche e a desinformação. Esta relação ficou muito clara na live feita no Facebook pelo presidente Jair Bolsonaro no dia 30 de julho. No final da tradicional live da quinta-feira, Bolsonaro dá uma risada e diz o seguinte (abre aspas)  “depois de 20 dias dentro de casa a gente pega outros problemas. Peguei mofo, mofo no pulmão” (fecha aspas). A forma debochada como o presidente se referiu à infecção no pulmão, diagnosticada depois que ele anunciou estar curado da COVID 19, repercutiu nos jornais e nas redes sociais. Muita gente interpretou a declaração jocosa do presidente como uma forma de criticar mais uma vez o isolamento social e de fazer pouco caso da pandemia. É verdade:  o deboche é uma forma tirar onda, de zombar,  de diminuir a importância de alguém ou de alguma coisa. É uma forma de minimizar, mas é também um forma de desinformar.

E por quê? Porque o deboche coloca a gente diante da dúvida e da incerteza. Será que aquela pessoa está falando sério ou está brincando? Por atrás da gozação, se esconde uma certa dissimulação e uma falta de clareza que, no caso de Bolsonaro, está relacionada às sequelas da COVID 19.

Não há confirmação de que a infeção pulmonar do presidente seria uma consequência direta do novo coronavírus. Mas, foi o próprio Bolsonaro que em tom de gozação associou a infecção ao período em que esteve com a COVID 19. Problemas pulmonares, como o apresentado por ele, estão entre as sequelas da doença que estão sendo analisadas pelos cientistas.

Por ser uma doença nova, ainda não há estudos definitivos sobre quais efeitos a covid-19 pode causar a longo prazo. Mas já há estudos apontando a doença não deixa sequelas apenas na região pulmonar, a mais atacada principal pelo vírus. Relatos clínicos e estudos médicos já apontam sequelas na circulação sanguínea, cérebro, coração e sistema muscular.

O problema pulmonar de Bolsonaro levanta um debate necessário sobre as consequências da doença, mas também sobre quando um paciente pode ser considerado “recuperado” ou não da Covid-19. Isso porque a infecção pulmonar do presidente foi diagnosticada apenas cinco dias depois dele anunciar que estava curado daquela “gripezinha”. Mas, Bolsonaro fugiu do debate fazendo deboche.

Hidroxicloroquina no palanque

Embora acuse os adversários de politizar o combate ao novo Coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro tornou-se o principal responsável pelas disputas com objetivo eleitoral em torno da pandemia. A live que o presidente faz toda quinta-feira no Facebook é o seu principal palanque. Não podia ter melhor exemplo disso do que a transmissão da quinta, 06 de agosto, ao lado do ministro interino da saúde, o general Eduardo Pazuello. Com o Brasil na marca dos 100 mil mortos pela COVID 19,o capitão e o general se juntaram para fazer propaganda da hidroxicloroquina, medicamento incluído nos protocolos do Ministério da Saúde sem comprovação cientifica da eficácia e a despeito dos graves efeitos colaterais. 

A preocupação em justificar o gasto injustificável do Governo com cloroquina não parecia ser o único objetivo. Na live, o general garantiu que está atendendo e que pode atender ao pedido dos prefeitos interessados em oferecer o medicamento à população. Em um ano de eleições municipais, a hidroxicloroquina se tornou um trunfo eleitoral. Os prefeitos bolsonaristas, que acompanham as posições anticientíficas do presidente, distribuem o medicamento que suspostamente cura  a COVID 19 e, com isso, sustentam posições a favor do fim das medidas de distanciamento social. E entra aí outro objeto da disputa eleitoral: a adoção de medidas duras de distanciamento social que, embora necessárias, são impopulares. Mais uma vez, Bolsonaro culpou prefeitos e governadores pelo desemprego provocado por tais medidas. 

A estratégia eleitoreira ficou ainda mais clara quando ele provocou Fernando Haddad, adversário dele no segundo turno. Bolsonaro sugeriu que se o petista tivesse ganho as eleições estaria apoiando o “feche tudo e fique em casa”, assumindo uma postura contrária a dele, que sempre se opôs às medidas de distanciamento social.  Bolsonaro sabe que as medidas de distanciamento social têm um custo eleitoral alto porque, claro, acentuaram o desemprego e a crise econômica que já vinham sendo enfrentados pelo Brasil. Mas, ele conseguiu jogar a conta no colo dos prefeitos e governadores, deixando para eles a responsabilidade de tomar as decisões impopulares que ele se recusou a tomar. Contrariando todas as evidências, Bolsonaro ainda insiste em minimizar a gravidade da pandemia e em tratar como inevitáveis as mortes pela COVID. Não é por caso que ele encerra a live admitindo, sim, que o Brasil, chegaria aos 100 mil mortos, mas que devemos mais é  “tocar a vida”: um completo desdém com a situação do país porque, politicamente para ele, é mais rentável negar do que enfrentar a pandemia.

Desinformação como “política de Governo”

Vou comentar algumas estratégias de desinformação adotadas pelo presidente Jair Bolsonaro durante as 20 semanas que eu acompanhei o perfil dele no Facebook entre abril e agosto deste ano.

O presidente foi, sem dúvida nenhuma, a figura pública que mais contribuiu para a desinformação dos brasileiros insistindo em dois pontos principais. O primeiro era  que o distanciamento social era desnecessário porque todo mundo, mais cedo ou mais tarde, iria pegar o vírus e, por isso, não valia a pena prejudicar a economia para impedir o contágio. O segundo é que, para curar as pessoas dessa gripezinha, havia remédio: a hidroxicloroquina, um medicamento incluído nos protocolos do Ministério da Saúde sem comprovação científica da eficácia e a despeito dos seus graves efeitos colaterais. O problema é que a maioria dos argumentos empregados pelo presidente para defender seus pontos de vista é falaciosa.

Bolsonaro  disseminou dúvidas e distorceu informações, retirando do contexto os números de mortes pela COVID e até declarações das autoridades sanitárias. Tanto é que ele chegou a ser desmentido internacionalmente pelo diretor da OMS.

Bolsonaro também apregoou que ele é a prova da eficácia da cloroquina porque contraiu a doença tomou o remédio e ficou curado. Uma falácia clara: ele estabelece uma relação  de causa e consequência sem qualquer fundamento. Para assegurar que o medicamento funciona, invoca a  experiência pessoal e recorre ao chamado argumento de autoridade, aquele no qual o sujeito apela para sua posição social quando não tem como provar suas teses. Só que nesse caso, quem tem mesmo a autoridade dos são os cientistas.

E não para por aí. Para Bolsonaro, a não comprovação de um ponto de vista implica que seu contrário é verdadeiro.  No caso da cloroquina, se ninguém pôde provar  que a substância não cura a COVID 19 é porque ela deve curar. Na retórica isso é conhecido como apelo a ignorância, tão caro ao presidente.

Os falso argumentos andam de mãos dadas com os falsos dilemas, aqueles que levam a gente a pensar que não existe uma alternativa além das apresentadas. Mas existem. Prescrever hidroxicloroquina ou deixar as pessoas morrerem entubadas na UTI? Preservar os empregos ou as vidas? Falsos dilemas construídos pelo presidente para justificar a inoperância do Governo.

Para garantir popularidade, não faltaram meias verdades, como no caso do auxílio emergencial de 600 reais. Bolsonaro assume a paternidade de uma medida que foi resultado de negociação no Parlamento e não proposta inicial do Governo.

E para completar, os sofismas:  argumentos baseados em incoerências ou que mudam o foco da questão quando não se tem fatos capazes de rebater a posição contrária. Bolsonaro é um mestre dos sofismas. Isso sem falar nas fake news propriamente ditas com vídeos mostrando situações forjadas ou falsos testemunhos que, depois de denunciados, ele apagava do perfil. Para ver exemplos disso tudo, basta procurar as análises detalhadas que estão site do Coronavírus em xeque. A julgar pelo Facebook do presidente, a política da desinformação parece ter sido a única na qual Bolsonaro se mostrou competente nessa pandemia de COVID 19.

[1] Cf. Figuras de retórica, José Luiz Fiorin, São Paulo: Contexto, 2014

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