Pungência e honestidade em tempos de guerra

Publicado originalmente em Editorial J por Fabiane Cunha. Para acessar, clique aqui.

A coragem de um repórter ao viajar pelas regiões mais perigosas do mundo e narrar os traumas das guerras

Escrever sobre guerras era algo relativamente fácil nos séculos passados. Mas a guerra e o jornalismo mudaram. Na obra A vida secreta da guerra, o jornalista Peter Beaumont prova que a privatização dos conflitos bélicos por alguns grupos armados e a fragmentação dos Estados instáveis transformam a guerra em rotina, um estilo de vida que desafia os exércitos “tradicionais”. Beaumont descreve os horrores das guerras pós-modernas quase de forma lírica, com um texto composto por uma interessante frieza e uma boa abordagem psicológica no ponto de vista de quem cobre os conflitos de perto. A comparação que o autor faz de conflitos em regiões como Balcãs, Líbano, Faixa de Gaza, Iraque e Afeganistão com um tipo de droga que aprisiona o cérebro e os sentidos traz uma linguagem mais “literária” à narrativa.

Logo no início da obra, a passagem sobre os “soldados zumbis” mostra a real essência da narrativa. Segundo o sargento Garth Sizemore, morto aos 31 anos de idade, os soldados – que são chamados de hajis zumbis de maneira pejorativa – tomavam doses de Artane, um antipsicótico para o tratamento da esquizofrenia, a fim de diminuir o medo. Essa passagem é uma das mais interessantes do livro porque logo mostra que esse não é apenas um relato sobre conflitos, mas também algo mais humano que traz uma abordagem psicológica a todas as histórias e personagens.

Para retratar as guerras em suas realidades, Peter Beaumont leva o leitor a imaginar cada cenário e local ao narrar todos os detalhes de cada acontecimento. Em vez de se concentrar somente na parte política dos conflitos, o jornalista leva o leitor às engrenagens de cada cotidiano: o sofrimento de civis e soldados, a rotina dos embates, as aspirações de todos os envolvidos. São descritas situações que só quem esteve frente a frente com a guerra poderia saber, como a revelação de um plano da Al Qaeda de ataque à Londres. Isso coloca ao repórter a responsabilidade de fazer o leitor ter uma experiência quase imersiva e próxima ao que está sendo contado.

Em diversos momentos, Beaumont questiona o que faz uma pessoa estar em uma guerra e o que leva um jornalista a cobrir estas ações. Isso significa que testemunhar um conflito bélico de dentro do quarto de um hotel, ou de locais considerados seguros por um exército, é a parte mais covarde da carreira de um repórter de guerra. Por conta disso, a auto análise psicológica acaba tornando-se uma “personagem” na obra.

A vida secreta da guerra é o resultado de um dos mais corajosos trabalhos do jornalismo investigativo e da cobertura de guerra dos últimos anos, pois levou Peter Beaumont a viajar – muitas vezes – sozinho e sem qualquer segurança para os lugares mais arriscados do mundo. Isso permitiu ao repórter – e, posteriormente, aos leitores – maior proximidade e intimidade com o jornalismo de guerra e cada entrevistado nessa jornada. É uma obra intimista e detalhada, que faz o leitor refletir sobre o verdadeiro perigo de estar em uma zona de guerra, muitas vezes com pessoas não autorizadas a deixar o país e salvar a própria vida.

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