CPI da Covid: faltou jornalismo investigativo na imprensa

Publicado originalmente em ObjETHOS por Carlos Castilho. Para acessar, clique aqui.

Com exceção do The Intercept Brasil, da Agência Pública e da revista digital Piauí, a grande imprensa brasileira perdeu para os senadores da CPI da Pandemia no quesito investigação. Ela ficou mais na cobertura declaratória, ou seja, daquilo que foi dito ou nos silêncios dos depoentes, do que na aplicação prática do jornalismo investigativo.

A maior parte das evidências foi colhida através de quebras de sigilos telefônicos, telemáticos e financeiros, bem como em postagens feitas no Facebook, WhatsApp e Twitter. Foram poucos os dados e fatos levantados por investigações jornalísticas promovidas pela grande imprensa brasileira.

The Intercept, a versão brasileira de um projeto baseado nos Estados Unidos, foi o mais contundente na investigação de fatos e dados que não foram aprofundados pela CPI, apesar do site ter muito menos recursos técnicos e humanos do que jornais como Folha de São Paulo e O Globo.

Não falta expertise à nossa imprensa para realizar investigações de grande porte, como a dos Panamá Papers (escândalo em paraísos fiscais) e do recente Caso Pegasus (de espionagem eletrônica contra políticos e jornalistas). Ambas as investigações foram organizadas pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ – sigla em inglês) do qual participam sete jornalistas brasileiros, em sua maioria integrantes de redações de grandes jornais do Rio e São Paulo.

Minha suspeita é de que a imprensa colocou o pé no freio nas investigações temendo se comprometer com o jogo político no qual a CPI acabou envolvida. Se esta foi a razão real, perdeu-se uma excelente oportunidade para os jornais ocuparem um nicho informativo feito sob medida para eles, num momento em que todos lutam para manter a fidelidade dos leitores.

Siga o dinheiro

A CPI reuniu quase 2 terabytes (pouco mais de dois mil gigabytes) de documentos, um acervo muitas vezes superior à capacidade de investigação dos senadores e seus auxiliares. O volume de dados e fatos recolhidos pelos membros da comissão deixou, assim, um enorme campo aberto à investigação jornalística, mesmo que muitos documentos tenham sido classificados como sigilosos.

Nunca a velha máxima do follow the money (siga o rastro do dinheiro) foi tão importante quanto agora nas investigações sobre atos praticados por funcionários do Ministério da Saúde e por espertalhões de todos os matizes. A CPI mostrou que o Ministério foi transformado numa agência de negócios escusos envolvendo somas milionárias e tudo em nome do combate ao vírus.

Seguir o rastro do dinheiro é uma pista aberta para repórteres investigativos porque os indícios levantados pela CPI são mais eloquentes do que os silêncios dos depoentes. Aliás, o recurso ao Supremo Tribunal Federal (STF) para não falar ou não ser preso, virou uma regra para todos os suspeitos de negociatas num ministério considerado a cereja do bolo em matéria de fartura de dinheiro no governo federal.

Apesar dos obstáculos jurídicos, a Comissão acabou se transformando no grande divisor de águas na política nacional. A CPI só conseguiu processar parte do que ela tem em matéria de malfeitos no governo Bolsonaro, mas isto já foi o suficiente para manchar de forma indelével a reputação de um presidente que se elegeu prometendo uma administração pública honesta e eficiente.

Silêncio eloquente

Se a imprensa foi cautelosa no início dos trabalhos da CPI, agora a situação é diferente, pois o risco de retaliações por parte do governo federal é hoje muito menor. Bolsonaro está na defensiva depois que as numerosas denúncias contra seu governo surgidas na CPI levaram boa parte da população a rejeitar a reeleição do presidente, como mostram as pesquisas de opinião pública. Os sucessivos manifestos divulgados por setores empresariais antecipam um clima de fim de festa, corroborado inclusive pelos membros da tropa de choque do governo na CPI. Após um período ruidoso nas primeiras semanas de funcionamento da comissão, os senadores governistas adotaram agora um eloquente silêncio na medida em que aumentam os indícios de corrupção no Ministério da Saúde, envolvendo inclusive militares.

Ainda há tempo para a imprensa reocupar seu papel de “cão de guarda” da moralidade governamental. Há suficientes pontas soltas nos depoimentos e nas investigações feitas pelos senadores para justificar a intensificação do follow the money para que a sociedade conheça o que foi feito em nome dela no combate à pandemia. Já não estamos mais no terreno do perde/ganha político, mas na esfera do interesse de quem paga impostos e precisa saber onde foi parar o dinheiro do combate ao coronavírus.

O jornalismo investigativo, na sua essência, não deve ser um instrumento manejado por empresas de comunicação para interferir na luta pelo poder e nem para resolver desavenças entre corporações. Ele é uma modalidade de jornalismo existente desde o início da profissão, em 1606, com o objetivo de defender e promover os interesses das pessoas comuns.

Cálculos feitos por médicos infectologistas dizem que cada morte causada pelo Coronavírus afetou a vida de 100 outras pessoas, entre amigos e parentes. Caso o cálculo seja real, temos hoje 58 milhões de brasileiros diretamente interessados no esclarecimento total dos desmandos cometidos dentro do Ministério da Saúde no combate à pandemia. Trata-se de uma audiência nada desprezível, à qual o jornalismo investigativo tem muito a oferecer.

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