‘Tiktokização’ do Instagram gera novo debate sobre bolhas

Publicado originalmente em Instituto Palavra Aberta por Mariana Mandelli. Para acessar, clique aqui.

Ao anunciar mudanças na plataforma há alguns meses, o Instagram confirmou algo que já era comentado entre pesquisadores e usuários de redes sociais: está em curso um processo de “tiktokzação” da vida digital. Entre as alterações, está a priorização de conteúdos em vídeo, o que significa que esse formato terá mais chance de ser selecionado pelo algoritmo para aparecer nas nossas timelines. Este foi o caminho que a plataforma encontrou para rivalizar à altura com o TikTok, aplicativo de criação e disseminação de vídeos curtos que se tornou febre nos últimos tempos.

Ou seja: para manter sua audiência engajada, recebendo curtidas e comentários dos seguidores, será preciso produzir e publicar conteúdo nesse formato. Caso contrário, é bem provável que seus posts sejam “esquecidos”, não aparecendo para ninguém. “Nós não somos mais um app de compartilhamento de fotos. Em uma pesquisa, a primeira coisa que as pessoas dizem sobre como usam o Instagram, elas falam que é para entretenimento”, disse o presidente do Instagram, Adam Mosseri, em julho.

É sabido que, cada vez mais, as redes sociais determinam o que é ou não relevante para o usuário em termos de discursos e, agora, também de formatos. Porém, cada um de nós faz um uso próprio da internet de acordo com nossos gostos, opiniões e posicionamentos. A ideia de relevância é, portanto, ligada às preferências pessoais, sendo exponencialmente diversa: o que a rede entende como relevante para mim pode ser completamente diferente do que ela vê como importante para você. Temos acesso a recortes diferentes da realidade, sendo que alguns nem contato com a realidade têm, já que consomem discursos fictícios e neuróticosfechando-se em bolhas de teorias conspiratórias.

O debate sobre vivermos imersos em uma “cultura algorítmica” (“algorithmic culture”, em inglês) também não é novo. O termo se refere ao modo com que a tecnologia vem condicionando nossas experiências culturais e formas de ver e apreender a realidade. Nas palavras de Ted Striphas, professor da University of Colorado Boulder e autor do livro The Late Age of Print, o que vivenciamos nas plataformas digitais “é o envolvimento do pensamento humano, da conduta, da organização e da expressão na lógica do big data e da computação em grande escala”.

Para ele, esse movimento provoca transformações profundas nas formas com que a cultura é “praticada, vivenciada e compreendida”. É justamente por isso que a mudança no Instagram eleva a nossa vivência digital para outro patamar: a partir do momento em que a plataforma passa a priorizar mensagens em vídeos de curta duração para que sejamos vistos e ouvidos, isso altera a maneira com que criamos e disseminamos ideias e narrativas.

Tal reflexão não vale apenas para influenciadores digitais — hoje, todos somos criadores de conteúdo. A busca pelo like não é apenas daqueles que têm milhões de seguidores, mas de todos nós, que diariamente postamos fotos, trocamos mensagens e tuitamos nossas opiniões sobre tudo o que nos cerca. 

E mais: isso afeta a difusão de informação e a produção de conhecimento nas redes, incluindo trabalhos de ativismo social e divulgação científica que, se não se adequarem aos novos parâmetros, podem perder a corrida por engajamento para conteúdos de entretenimento e baixo teor informativo. No limite, será mais fácil visualizar vídeos de dancinhas do que acompanhar debates técnicos, jurídicos e sociais sobre temas como, por exemplo, o marco temporal e o movimento Black Lives Matter.

É possível unir entretenimento e conhecimento? Para responder, basta olhar para a infinidade de canais e perfis produzindo conteúdo de ótima qualidade há anos no YouTube, por exemplo. Existe uma infinidade de professores, pesquisadores e especialistas em diversas áreas criando material sério e embasado em suas respectivas áreas de atuação. Mas como transformar tudo isso em minivídeos de 30 segundos para fazer a mensagem chegar em canais como o TikTok e o Reels do Instagram? 

Essa é também uma discussão sobre saúde digital e, consequentemente, sobre educação midiática. Saber o quanto, como e para que usar cada rede parte também da da nossa consciência e responsabilidade na busca e compartilhamento de informações. Acompanhar as mudanças nas plataformas é importante para termos noção do quanto tudo isso pauta nosso jeito de enxergar e se relacionar com o mundo através das telas — e também fora delas.

*Mariana Mandelli é coordenadora de comunicação do Instituto Palavra Aberta

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