Qual a contribuição da escola na luta antirracista?

Publicado originalmente em Instituto Palavra Aberta por Elisa Tobias. Para acessar, clique aqui.

Uma pesquisa divulgada pelo PoderData em 2020 mostrou que 81% dos brasileiros afirmam haver preconceito contra a cor da pele no País. Porém, apenas 3 em cada 10 admitiram ser racistas. Ou seja, a maioria das pessoas admite a intolerância, mas não assume a prática. “Claro que não, tenho amigos negros”; “Como seria racista se empreguei uma pessoa negra?”; “Imagina, eu já namorei uma pessoa negra” e tantas outras frases como estas são afirmações comuns em uma sociedade fundada no racismo estrutural, como é o caso da nossa.

racismo é algo tão enraizado no cotidiano que pode passar despercebido para quem vive com privilégios, como as pessoas brancas. Compreender a relação entre escravidão e racismo e suas consequências atuais é fundamental para entender o País em que vivemos. E é por isso que este é um assunto imprescindível à sala de aula, em um debate que pode ser feito de forma transversal e interdisciplinar, considerando a produção e o consumo de mídias por crianças e jovens, que vivem num mundo conectado e repleto de imagens, narrativas e discursos de todos os tipos. 

Quando falamos sobre criar e consumir conteúdos midiáticos, nosso olhar deve ser bastante apurado – e isso deve ser incentivado no público infanto-juvenil, que precisa aprender a interrogar o que ouve, lê e vê. Tradicionalmente, qual é o papel destinado a atores negros e atrizes negras na televisão? Que personagens interpretam? Qual foi o último filme a que você assistiu dirigido por um diretor negro? É preciso questionar os produtos informacionais e culturais a que estamos expostos.

Educadores e educadoras precisam incluir essa discussão em seus planos de aula não somente para cumprir a legislação (Lei 10.639/03) e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), mas por uma questão de cidadania, democracia e humanidade. Por isso, é importante que esses profissionais se envolvam nesse debate não só como educadores, mas como cidadãos. Professores e professoras que assumirem tais práticas serão vistos como um porto seguro para apoio em casos de opressão de estudantes pretos. É preciso ir além, pois este é um tema que extrapola a sala de aula e permeia toda a vida social dos territórios e comunidades, envolvendo também as famílias.

Algumas escolas particulares têm realizado atividades relevantes nesse sentido. Pais, mães, funcionários e alunos se reúnem periodicamente para tratar temas relacionados às questões raciais. Cobrar a presença de professores negros no quadro de docentes, realizar palestras com pesquisadores que estudam o tema, fomentar programas de bolsas que contemplem alunos pretos e pobres, distribuir conteúdos específicos sobre o assunto e promover o letramento racial são algumas das ações realizadas por esses colégios, fazendo com que o debate seja estendido para as famílias e seus territórios.

Outra iniciativa notável de exaltação à cultura negra envolvendo estudantes será promovida nos próximos dias pela Prefeitura Municipal de São Paulo. Trata-se da II Expo Internacional da Consciência Negra. O evento, visando debater o racismo estrutural, exibirá vídeos de reflexão sobre o assunto produzido por crianças e adolescentes de escolas municipais durante a programação. Além disso, contará com a cobertura da Imprensa Jovem, iniciativa que prepara professores e alunos para a criação de agências de notícias escolares. 

Escolas também podem promover o antirracismo por incentivar a leitura de livros e textos escritos por autores negros e negras. Compreender a sociedade a partir do olhar desses personagens, rompendo assim o círculo vicioso do racismo, é fundamental se quisermos colocar em prática uma educação antirracista.  

Diante desse monstro tão grande que é o racismo, que apaga, agride, violenta e mata corpos e vidas negras, não há mais tempo ou espaço para intimidação – é preciso agir. Djamila Ribeiro, em sua obra Pequeno Manual Antirracista, afirma que reconhecer o racismo é a melhor forma de lutar contra ele. Portanto, segundo ela, é preciso mostrar às crianças e jovens que eles não devem ter medo de usar palavras como “racismo”ou “racista”, assim como exaltar “negro” e “negritude”. As palavras não podem ser consideradas tabus. É preciso estar sempre atento às nossas próprias atitudes e disposto a enxergar privilégios.  

No mês em que comemoramos o Dia da Consciência Negra, lembramos que é por meio da educação, mais uma vez, que conseguiremos mostrar que pessoas negras são tão humanas quanto brancas. Discutir representação e representatividade, bem como a disseminação e o combate aos discursos de ódio, não é mais uma opção. É uma obrigação desta geração mostrar para as próximas que precisamos caminhar para a igualdade racial. A pauta antirracista é uma causa de todos e todas, sem exceção. 

*Elisa Tobias é educomunicadora e analista de comunicação do Instituto Palavra Aberta

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