Paulo Freire vive no jornalismo feito sobre, para e a partir das periferias e favelas brasileiras

Publicado originalmente em ObjETHOS. Para acessar, clique aqui.

uliana Freire Bezerra
Doutoranda do PPGJOR UFSC e pesquisadora do objETHOS

Não é só no meio acadêmico que as homenagens ao centenário de Paulo Freire acontecem. No jornalismo, elas também estão presentes, sobretudo naquele praticado pelas populações periféricas e faveladas, a quem a educação freiriana foi dedicada. Em reportagem publicada no último mês, o portal jornalístico Periferia em Movimento (SP) afirmou que os “estudos do educador seguem muito atuais e presentes nas práticas cotidianas nas escolas, nas culturas populares e movimentos sociais que estão nas quebradas e favelas do Brasil”. Compartilho do mesmo entendimento ao observar atualmente o modo de agir do Jornalismo profissional feito sobre, para e a partir desses contextos.

Desde o início da pandemia da Covid-19, é possível identificar clara relação entre a metodologia freiriana e o modo de atuação de diferentes iniciativas jornalísticas feitas por Sujeitos Periféricos e Favelados com formação profissional na área. Diante do desafio de orientar as populações das realidades onde residiam, sabendo que muitas delas não tinham recursos para praticar medidas básicas de prevenção contra a doença, tais jornalistas se articularam junto a outras organizações sociais em uma grande rede nacional chamada #CoronaNasPeriferias. A ideia, posta em prática com sucesso, foi refletir coletivamente sobre as realidades periféricas e faveladas (práxis: ação-reflexão-ação) para estabelecerem uma comunicação eficiente dos “nossos para os nossos”. Isto é, sobre, para e a partir do ponto de vista dos/as Sujeitos/as Periféricos/as e Favelados/as.

Do método dialógico e praxiológico, que tomava a realidade periférica e favelada como ponto de partida e de retorno da reflexão coletiva, resultou a cobertura transformadora que esse jornalismo tem exercido. Como já relatado em outro artigo publicado no objETHOS, a tradicional cultura da solidariedade tão presente em contextos marcados pela ausência do Estado foi a saída encontrada coletivamente para a produção e socialização de conhecimentos inventivos. Dessa forma, as pessoas eram orientadas a praticarem as medidas de prevenção da doença com os recursos que dispunham e compartilhavam entre si. Neste sentido, quem tinha água em casa, por exemplo, era orientado a compartilhar com o vizinho que enfrentava a escassez desse recurso.

Simultaneamente, essas iniciativas jornalísticas denunciavam as diversas violações de direitos que aconteciam nestes contextos, desde as dificuldades de acesso a produtos de higiene  à negação de atendimento médico e os desafios para conseguir oauxílio emergencial. Além disso, cobravam do poder público medidas políticas direcionadas aqueles contextos e colaboravam para a criação e o fortalecimento de campanhas organizadas pela sociedade civil de doação de alimentos, produtos de higiene, água, entre outros recursos.

Da denúncia à proposição, o jornalismo profissional feito sobre, para e partir das periferias e favelas brasileiras atuou de forma a encharcar os conhecimentos que produzia das especificidades e cultura das localidades a que se referiam. Nada mais freiriano do que isso. Mas não é de hoje que o pensamento do Patrono da Educação Brasileira inspira o modo de atuação do jornalismo feito de baixo para cima.

 Nas décadas de 1970 e 1980, enquanto a maior parte da sua obra era escrita e socializada, a despeito de censurada pelos regimes ditatoriais latino-americanos, o jornalismo feito a partir das bases sociais organizadas se multiplicou. No Brasil, o jornalismo feito pelo povo e para o povo atuou clandestinamente não só denunciando o que ocorria, mas também propondo outras formas de ser, conhecer e estar no mundo, a partir da perspectiva dos oprimidos, como inspirava a pedagogia freiriana.

O movimento de tomada da palavra pelas classes populares, que procuravam exercitar o direito à comunicação na prática, também recebeu o apoio da Igreja Católica, que desde o concílio do Vaticano II tinha feito a opção de atuar junto as populações empobrecidas. Por meio das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), foram desenvolvidos diversos projetos educativos nos contextos periféricos, favelados e campesinos brasileiros, muito deles fortemente influenciados pela metodologia freiriana. Nestes espaços formativos, o povo não só aprendia a ler a palavra, mas também a interpretar criticamente as causas do estar sendo do mundo e a escrever a suas versões da História. Desse processo, surgiram vários movimentos sociais, no campo e nas cidades, como também diversas iniciativas comunicativas e jornalísticas protagonizadas pelas bases sociais nos sindicatos, nas associações comunitárias, nas organizações rurais.

Também as universidades, inspiradas pela proposta de educação dialógica, horizontal e praxiológica de Paulo Freire, incidiram diretamente neste movimento comunicacional. Nesta época, diversos cursos de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo tornavam obrigatória em seu currículo as disciplinas Comunicação Popular/ Comunitária, contribuindo em alguma medida para aproximar os acadêmicos dos contextos periféricos e tornar mais potente todo esse movimento comunicacional e jornalístico que já ocorria na prática dos movimentos sociais. Nesta via de mão dupla, os estudantes também aprendiam muito com as populações periféricas e faveladas, tendo a oportunidade de fortalecerem o seu olhar humanístico e cidadão.

A despeito do limitado alcance de público devido à tiragem reduzida de exemplares, de forma cumulativa, o jornalismo feito pelo e para o povo fomentou o movimento nacional de redemocratização do país. E, ainda que depois desse período histórico tenha assumindo suas especificidades mais locais; com as possibilidades digitais vigentes e em momentos históricos específicos, como o atual, demonstram mais uma vez sua força de articulação. É que, como permite refletir Paulo Freire, as pessoas que se disponibilizam a pensar criticamente sobre a realidade adquirem a potencialidade de trabalharem coletivamente para o fortalecimento das lutas por cidadania.

Em conferência virtual realizada este mês, o professor e pesquisador de Jornalismo Eduardo Meditsch explicou que a fecundidade do trabalho de Freire para diversas áreas profissionais e de conhecimento, incluindo a comunicação e o jornalismo, reside no fato de que ele era um homem da práxis. Isto é, um pensador comprometido em usar o seu trabalho para refletir e agir sobre a realidade, visando um horizonte de erradicação das privações sociais e a construção de um mundo mais democrático. Dessa forma, para Medistch, são justas as afirmações de que Paulo Freire foi o inventor de um método revolucionário de alfabetização e um dos maiores pensadores da Educação em todo o mundo no século XX. Mas essas definições são insuficientes para contemplar a intensa criatividade de Paulo Freire. O jornalismo feito sobre, para e a partir das periferias e favelas brasileiras, seja feito por pessoas com formação na área ou não, tem demonstrado isto por também se comprometer potencialmente a transformar o que causa as injustiças do mundo.

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