O mundo que morreu em 2019: Afoxá e a territorialidade dos saberes ancestrais em performance de dança

Publicado originalmente em Ocorre Diário. Para acessar, clique aqui.

Dramaturgia, palavras danças, ruídos, luzes, vídeo-dança, vídeo com dança e corpes ancestrais na convivência e coexistência de mundos plurais: O mundo que morreu em 2019 é um espetáculo de dança em co-criação do Grupo Afoxá, Artenilde Silva e Elielson Pacheco e traz um turbilhão de sensações e recursos interativos, como é próprio da circularidade afro.

Em segunda apresentação, na última quinta-feira (16), a performance ocupou o palco do Teatro Torquato Neto. Julho de 2021 foi o início desta jornada que culminou em novembro, possibilitada pelo edital do Sesc, 5ª Dança. 

Artenilde Silva comenta sobre a importância de ter estreado no mês de novembro “Diante da simbologia que o trabalho traz, pois trazemos forte os elementos da cultura afro, embora sejam confundidos com o cristianismo. Por exemplo, as carpideiras são mulheres pretas, em sua maioria discriminadas pela igreja. São elas que mantém a cultura de respeito à morte, que para não é morte é renascer, é conseguir devolver para a terra, alimentar a terra com o próprio corpo”, afirma. 

A performance é um convite a sentir, pensar e agir o mundo pandêmico, mas também em certa altura exige a quem está na platéia, a parir novos recomeços. Se de um lado, a dança traz dor da morte, a choradeira das carpideiras enlaçadas no cantar, a despedida, de outro traz o recomeço. É paradoxal, mas na morte aqui é também recomeço. “A cultura banto tem muito respeito pela morte, pois acredita que somos alimentados pelos mortos e não pelos vivos. Quem nos ensina? Os avós, que são nossos antepassados. Por isso, esse trabalho é ancestral e matriarcal”, conta Artenilde. 

Fotos: Hélio Alvarenga

Dançar a coexistência 

A generosidade da territorialidade ancestral negra abre espaço para as convivências e as trocas, o que pode ser percebido no palco. Elielson comenta que para a feitura do trabalho com Artenilde, uma matriarca de nossos tempos, a princípio chegou com a sede de se alimentar dos saberes dela, mas logo foi convidado a entender que se tratava de troca. “Então delimitamos desde o início que era sobre trocar”, comenta Eli reforçando a metodologia da horizontalidade presente nas danças afro.  

Elementos a princípio antagônicos, se fudem neste bailar marcado na terra: Homem e mulher, partriarcado e martriarcado, vida e morte, cristianismo e afroreligiosidade, dentre outros pares (antipares?). Mas no fim das contas, os elementos se fundem para gerar um outro possível para convivência. 

O Banto conjungado com o terço, o barro com o cantado que clama Nossa Senhora, as sementes de Nossa Senhora, que guardam segredos “macumbísticos” para garantir o aleitamento, ou mesmo os sinos conjugados aos barulhos grotescos da cidade. É tudo coexistência. 

Artenilde e Eli, descobrem no processo que não se trata de sincretismo, pois o sincrético, por vezes, anula ou encobre as diferenças. “Porque não é sincrético? As religiões de matriz africana não precisam de sincretismo, pois existem por si só. Nós trazemos a questão do coexistir. Eu não preciso me fundir à tua pessoa pra me manter do teu lado. Eu posso manter a minha identidade e você manter a sua e podemos viver, lindamente, nos complementando”, explica. 

Para Elielson, esse momento das virtualidades convidou o corpo para outros fluxos e foi dessa reflexão que o espetáculo nasceu. “Esse movimento de ficar mais em casa para nos cuidar, nos levou observar mais nossa casa, nosso corpo, nossa espiritualidade. É um momento de morte, mas também da gente renascer. A peça traz essa coisa que está sempre nascendo e morrendo e nascendo”, comenta. 

Além disso, Eli aponta que dentro desta complexa existência trouxe também entendimento de auto-cuidado e maternagem. “Na peça falamos muito sobre maternar, como maternar um novo tue surge. Sem a ideia romântica do maternar, mas um maternar que também é conflito. É como ser mãe, mas também é como ser filho que cuida da mãe. Não é uma via de mão única. É esse lugar de horizontalidade e de sempre aprender uns com os outros. Por isso, vem as imagens das rezadeiras, das carpideiras e das excelências, que velam esses corpos. Por isso a peça traz isso de sempre estar nascendo e morrendo, pois é o ciclo da vida”, aponta. 

Escola Lenir Argento forma a primeira turma de Dança Afro 

A quinta-feira também foi um dia histórico para as danças afro no Piauí. Com 35 anos de existência, a Escola Estadual de Dança Lenir Argento formou a primeira turma de Dança Afro. Não se pode negar o mérito do Grupo Afoxá neste esforço, que defendia a dança afro quando tudo parecia lutar contra esta profunda existência ancestral. 

Fotos: Hélio Alvarenga

A professora Artenildes Silva e o professor Júnior Sil, são grandes mobilizadores e expoentes das danças afro no território de Teresina. Travaram luta óbvia, inclusive para serem considerados bailarinos, pois para a branquitude, o ser bailarino estava restrito às danças clássicas. Ambos, Júnior e Artenilde, sempre defenderam a existência de uma epistemologia e técnicas que embasam as danças afro. Há uma técnica, há uma pedagogia, uma ontologia e uma episteme* nas danças afro. 

Eli, que está no mundo das artes desde 1998, observa a importância deste momento para as danças no Piauí. “A escola estadual de dança ofereceu, no momento pandêmico, um curso virtual de dança afrobrasileira e eu nunca tinha visto um curso voltado para esse tema como uma política do estado, com professores seletistas sendo parte da escola. Isso me chamou muita atenção. Eu fui participar de um momento e achei interessante a metodologia dela e senti meu corpo muito potente. O afoxá traz essa metodologia do acolhimento”, conta.

Fotos: Hélio Alvarenga

A noite também foi abrilhantada pela apresentação de Afrolê, da bailarina argentina, Carol Yanina. A artista traz a dança afro para uma dança com bambolês que encantou o público por sua leveza e equilíbrio. 

* De modo geral, para fins de entendimento da perspectiva aqui apresentada, entendemos epistemologia como as representações teóricas que nos possibilitam criar conhecimento. Já por ontologia, entendemos os modos de ver o mundo que orientam nossas ações. Destacamos episteme e ontologia, pois compreendemos a importância de quebrar com da colonialidade eurocêntrica. Assim, apontamos para a importância da construção de uma epistemologia e ontologia pautadas nas vivências dos setores que foram subalternizados, saberes que se propõem a romper o padrão da colonialidade, contracolonizando o mundo, inclusive, as danças.

Texto: Sarah Fontenelle Santos

Fotos: Hélio Alvarenga

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