Nota sobre rastreamento de contato

Publicado originalmente em Observatório COVID-19 BR. Para acessar, clique aqui.

5 de agosto de 2020 – É hora de falar de rastreamento de contatos. Este é um assunto importante no controle da Covid-19 e vamos explicar alguns detalhes nesta nota.

Primeiramente, é importante ressaltar que o rastreamento de contatos não substitui outras intervenções não-farmacológicas para o controle da pandemia, como distanciamento físico e uso de máscara, e deve ser enxergado como complemento a outras medidas.

Num cenário ideal em que o número de novos casos não esteja fora de controle e com alta disponibilidade de testes RT-PCR o rastreamento de contatos seria bastante facilitado, uma vez que seria possível detectar com rapidez os infectados mesmo que assintomáticos ou pré sintomáticos. Porém, infelizmente, essa é uma realidade distante da maioria dos municípios brasileiros.

  • Neste contexto, como tentar reduzir a propagação do vírus?

É importante entender a dinâmica da doença. Em média, o início dos sintomas acontece 5 dias após a exposição ao vírus e em 60-80% dos casos o período infeccioso se inicia por volta de 2 a 3 dias antes do início dos sintomas [Ref 1]. Para simplificar a explicação, vamos considerar que o início do período infeccioso ocorre 2 dias antes do início de sintomas. Na Figura 1 temos a Linha do tempo da Covid-19.

Figura 1
DESCRIÇÃO ACESSÍVEL

Linha do tempo da Covid-19 considerando 5 dias entre a exposição e sintomas e 2 dias entre infeciosidade e sintomas.

Por exemplo, um indivíduo que apresentou sintomas dia 04/08 possivelmente foi exposto ao vírus no dia 30/07 e desde o dia 02/08 está infectando outras pessoas mesmo sem apresentar sintomas. A chave para um rastreamento de contatos bem sucedido é justamente essa janela de 3 dias, entre os dias 30/07 e 01/08 onde a pessoa foi exposta mas ainda não transmite o vírus.

Figura 2
DESCRIÇÃO ACESSÍVEL

Calendário exemplifiativo para rastreamento de casos de Covid-19.

Uma vez conhecida a dinâmica da doença, vamos ao rastreamento de contatos propriamente dito. Utilizaremos nas próximas imagens as seguintes representações traduzidas de What Happens Next? por Marcel Salathé e Nicky Case.

Na Figura 3 temos uma legenda para esta representação, e na Figura 4 temos uma suposição em que só isolamos as pessoas quando estas apresentam sintomas.

Figura 3

DESCRIÇÃO ACESSÍVEL

Legenda da representação usada de What Happens Next?

Figura 4

DESCRIÇÃO ACESSÍVEL

Suposição em que só isolamos as pessoas quando estas apresentam sintomas.

Na situação da Figura 4, o paciente 1 infectou o paciente 2 no quarto dia após a exposição e um dia antes do início dos sintomas. Seguindo a mesma dinâmica o paciente 2 infectou o paciente 3 e a doença continua se espalhando.

Vamos pegar o caso em que isolamos não só quem apresenta sintomas como também os contatos dos indivíduos que apresentaram sintomas na Figura 5.

Figura 5
DESCRIÇÃO ACESSÍVEL

Caso em que isolamos não só quem apresenta sintomas como também os contatos dos indivíduos que apresentaram sintomas.

Apesar do paciente 1 transmitir o vírus para o paciente 2, o paciente 2 foi quarentenado antes de entrar no período infeccioso. Dessa forma, o paciente 2 não transmitiu o vírus para mais ninguém e a cadeia de transmissão foi cortada. Para isso é fundamental que o rastreamento e o isolamento dos contatos sejam feitos de forma pró-ativa e o mais rápido possível.

Se com o rastreio de contatos cada infectado passar a infectar somente uma outra pessoa em vez de duas, o resultado é que em 3 ciclos de transmissão teremos apenas 4 infectados em vez de 17 [Ref 2], como ilustra a Figura 6.

Figura 6
DESCRIÇÃO ACESSÍVEL

Com rastreio de contatos cada infectado passar a infectar um número contido de pessoas, o resultado é que em poucos ciclos de transmissão teremos uma redução significativa de casos.

Sem testes do tipo RT-PCR, capazes de detectar a presença do vírus no indivíduo, a única forma de fazer o rastreamento de contatos é a partir dos sintomas. Sugere-se que qualquer pessoa que apresente qualquer um dos sintomas da Covid se isole em um local protegido e arejado, evitando a infecção de outros moradores da residência. Atenção especial deve ser dada a pessoas que apresentarem perda de olfato e paladar (sintomas altamente específicos da Covid) e pessoas que apresentarem sintomas de gripe mesmo tendo sido vacinadas para a gripe.

Com relação aos assintomáticos, sem uma quantidade suficiente de testes do tipo RT-PCR fica impossível detectá-los. Porém, com um sistema eficiente de vigilância, podemos isolar casos assintomáticos futuros originários de uma pessoa sintomática.

A profundidade do rastreamento depende da capacidade do município em buscar os contatos de casos suspeitos. Familiares que dividem a mesma residência de um caso suspeito têm alta probabilidade de se infectar, ao mesmo tempo que a proximidade também facilita o rastreamento. Por outro lado, é difícil identificar pessoas que frequentaram o mesmo supermercado na mesma hora que o caso suspeito. Dessa forma, é importante uma avaliação de como detectar o maior número de casos possível levando em conta as limitações de recursos.

Apesar de adventos tecnológicos como aplicativos para rastreamento de contatos serem muito bem-vindos e terem um potencial enorme de facilitar esse processo, ferramentas como o WhatsApp, o telefone e, principalmente, os agentes comunitários de saúde são suficientes para a implementação do rastreamento de contatos. Diversas cidades brasileiras possuem uma rede ampla e capilarizada de UBS com ACS que já mantêm um forte vínculo com as comunidades. Da mesma forma, acompanhamentos por telefone e WhastApp podem ajudar a identificar casos suspeitos e seus respectivos contatos.

Em resumo, o rastreamento de contatos é relativamente simples no conceito mas requer uma mobilização de diversos níveis do poder público e organização por parte dos gestores. Países como Singapura e Coréia do Sul, que são exemplos de sucesso no controle da pandemia, têm no rastreio de contatos uma das suas principais armas. Mesmo sem testes RT-PCR, realizar o rastreio a partir de sintomas ainda é possível; podemos avançar muito com uma população bem informada e agentes de saúde bem apoiados. E a partir de um sistema bem estruturado e organizado, a chegada de mais testes pode ser facilmente adicionada à estrutura pré-existente de rastreio. O Observatório Covid-19 Brasil fica à disposição para conversar com secretarias municipais que tenham alguma dúvida e precisem de ajuda na implementação do rastreamento de contatos.

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