Não entendi! Você disse rebarbaro?

Publicado originalmente em Grupo de Pesquisa em Mídias Digitais e Internet – MiDI. Para acessar, clique aqui.

As pessoas talvez não saibam ou não se lembram, mas há menos de trinta anos não existia, na dimensão e disseminação atual, a internet. É sério! Não se trata de fake news nem, como se poderia imaginar, de saudosismo de uma época de ouro. Trata-se, simplesmente, de uma constatação que as gerações “z”, e “y” talvez, tenham sabido de sua existência nalgum livro de história, que, entre um relato sobre gregos e romanos, grandes navegações, ida do homem à lua e dissolução dos Beatles, narrou-lhes este mundo estranho em que virtual era aquilo que se criava na própria consciência.

Aqui faz-se um pequeno parêntese: as designações “z” e “y” para as gerações que sugiram pós meados dos noventa e dos anos 10 do presente século, respectivamente, demonstra toda a limitação que a arrogância acadêmica a serviço do marketing é capaz de produzir, já que são categorias mercadológicas. Assim, como para essas gerações se esgotou o alfabeto ocidental, para as próximas, quem sabe em 2121, será necessário criar outras categorias, donde: se vencer o fundamentalismo religioso, será a “geração Ω” [ômega] ou “geração תּ” [tav]; se a China se tornar o império mundial como denunciam os estadunidenses, “geração 浴室” [yùshi]. Esta seria bem interessante, já que teria o condão de denunciar o erro dessas categorias, pois yùshi significa banheiro em chinês. Ou quem sabe esperar que o cometa prometido livre a humanidade de em 2221 bosquejar alternativas no alfabeto de Vulcano. Enfim, retomemos o fio da meada.

Com a disseminação da internet e as profundas transformações culturais, sociais, econômicas, política que ela provocou, logo surgiu a necessidade de se tentar compreender, sob estas perspectivas, para onde o mundo caminhava e quais as diferenças com relação ao pretérito. Uma das contribuições mais destacadas foi a do sociólogo espanhol Manoel Castells em sua trilogia “A era da informação: economia, sociedade e cultura”, dentre outros livros, na qual ele aponta uma distinção importantíssima, qual seja, aquela que existe entre informação e conhecimento.

Para ele, informação é qualquer dado que tenha sido publicizado e seja apto de ser recebido por um destinatário qualquer. Informação, portanto, é o dado bruto, ainda não devidamente processado, interpretado, analisado, criticado pelo destinatário, e que, como dizem as mães no mundo inteiro, são passíveis de “entrarem por um ouvido e sair pelo outro”, sem que afetem, de alguma maneira, o sujeito. Contudo, é mais provável que haja afetação não pelo conteúdo de per se, mas pelo acúmulo, gerando no sujeito a falsa percepção de que sabe “algo” e de que, por consequência, tem aptidão de bem falar, e com razoável rigor, sobre esse “algo”.

Por sua vez, conhecimento é toda informação que o indivíduo adquire por meio das diversas competências e procedimentos que a educação, a especialização, a capacidade crítica e o bom-senso operam no ato de pensar e refletir sobre uma informação. É do conhecimento que o indivíduo se habilita para a tomada de posições, decisões e novas apreciações, sejam abstratas – a contemplação de uma obra de arte, por exemplo –, ou práticas, decisões no campo profissional, educação de si mesmo e dos filhos, a gestão do próprio patrimônio etc.

Um exemplo: sabe-se, conforme têm divulgado os meios de informação, que 30% da população ativamente econômica do Estado de Rondônia encontra-se inadimplente; sabe-se, pelas mesmas fontes, que 66,4% das famílias estão superendividadas, isto é, em situação de vulnerabilidade econômica. Esses dados são informações que, por si mesmas, não geram afetação alguma. Gerarão se, e somente se, o indivíduo tiver capacidade de refletir sobre a sua situação econômica, saber-se estar numa delas, ou muito aproximadamente, entender as causas disso, que são as mais variadas – do desemprego, passando pela redução da renda familiar na pandemia, doença ou mesmo descontrole financeiro – e buscar formas concretas, caso ajam, para resolver o problema ou evitá-lo. Uma medida preventiva utilíssima, mas nunca posta em prática, é a educação financeira nas escolas; uma medida curativa é a pessoa saber que pode e deve procurar os Núcleos de Defesa do Consumidor das Defensorias Públicas, que prestam assessoria jurídicas em tais casos.

Outro exemplo: disseminaram-se inúmeras fake news acerca das vacinas contra COVID-19. Umas têm uma base razoável para a suspeição; outras se baseiam em mentira deslavada, má-fé e estupidez.

No primeiro caso, como as pessoas ignoram absolutamente os procedimentos científicos no desenvolvimento de fármacos e as etapas necessárias para tal fim, pensam: se a vacina ‘X’ demorou dez anos para ser desenvolvida, como produziram para COVID-19 em seis, sete meses? Vejam, é uma dúvida razoável decorrente da ignorância. Como enfrentá-la? Disseminação do pensamento científico, popularização da ciência e disposição da comunidade científica para o diálogo externo. Explicar que uma vacina demorou dez anos por motivos inerentes ao desenvolvimento do fazer ciência, que não é dado “naturalmente”, mas construído paulatinamente, mas uma vez que se tenha descoberto o caminho [procedimento científico é isso: os caminhos, etapas para a produção de algo], a acumulação de conhecimento permite queimar etapas desnecessárias, reduzindo os prazos e dando a celeridade necessária.

Já com relação às fake news do chip, do código de barras, do DNA alienígena, células de fetos abortados o absurdo dos enunciados deveria gerar suspeição em qualquer pessoa razoavelmente formada. Mas mesmo elas, inclusive com formação médica, se não conseguirem “processar a informação”, ou se tiverem uma péssima formação científica, como efetivamente ocorre em muitos casos, ou pior, forem ignóbeis e desprezarem a vida humana, acreditarão que cloroquina, azitromicina, vitamina D e zinco são mais eficazes que as vacinas. Para o público em geral, cadeia; se médicos, cadeia, mas antes cassação dos registros no CRM.

Umberto Eco certa vez afirmou que:

O problema da internet é que produz muito ruído, pois há muita gente a falar ao mesmo tempo. Faz-me lembrar quando na ópera italiana é necessário imitar o ruído da multidão e o que todos pronunciam é a palavra ‘rabarbaro’. Porque imita esse som quando todos repetem ‘rabarbaro rabarbaro rabarbaro’, e o ruído crescente da informação faz correr o risco de se fazer ‘rabarbaro’ sobre os acontecimentos no mundo”.

Informação é rabarbaro, é o barulho que a multidão faz quando todos falam e querem ser ouvidos. Por sua vez, conhecimento é aquilo que se obtém pelo diálogo que se tem consigo mesmo, aquele movimento interno que Hannah Arendt afirmava ser possível somente com o silêncio.

Por vezes, anseia-se pelo burburinho; por vezes pelo silêncio. Saber quando cessar o rebarbaro da informação para transformá-la em conhecimento, o que pode, inclusive, implicar na necessidade de descartar como inútil a informação, é um caminho que se torna cada vez mais necessário para todos se sintam responsáveis pela terra e pelo mundo em que vive.

Marcus Oliveira é professor de Direito e coordenador do Jus Gentium na UNIR.

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