Mito: Cientistas previram nos anos 70 uma “era do gelo” iminente, por isso não são confiáveis

Publicado originalmente em Fakebook.eco. Para acessar, clique aqui.

FATO: A maioria das pesquisas científicas já naquela época previa o aquecimento causado pelo aumento de CO2

“Se você voltar para a Time Magazine, eles na verdade estavam proclamando que a próxima era do gelo estava chegando, agora se tornou o aquecimento global… Como você acredita nas mesmas pessoas que previam apenas algumas décadas atrás que a nova era do gelo estava chegando?” (Sean Hannity)

Nos anos 70, cientistas do clima investigaram os efeitos do crescimento das emissões industriais no clima da Terra. Essas emissões possuem dois fatores principais que afetam o sistema climático. Um desses componentes é o dióxido de carbono (CO2), principal gás de efeito estufa – o excesso de CO2, emitido por atividades humanas, causa o aquecimento da baixa atmosfera, elevando a temperatura média da Terra. O outro componente são aerossóis, pequenas partículas atmosféricas que bloqueiam a luz solar. Isso pode ter um efeito resfriador da temperatura geral da Terra, mas os aerossóis só permanecem na atmosfera por cerca de duas semanas antes de se dissiparem. Esses dois efeitos contrastantes levaram os cientistas climáticos a duas diferentes conclusões sobre o que poderia acontecer com o clima da terra no futuro.

O Caso do Resfriamento

De acordo com estudos que projetaram o resfriamento relacionado aos aerossóis, como o artigo de 1971 de Rasool e Schneider, “um aumento de 1 para 4 na concentração de aerossóis pode ser o suficiente para reduzir a temperatura em até 3.5 kelvin”. Essa especulação de quadruplicação foi baseada no rápido aumento da concentração de aerossóis como dióxido sulfúrico nos anos 1970. Contudo, com a adoção de políticas como a Lei do Ar Limpo, as emissões de aerossóis começaram a cair no fim da década de 1970. A figura abaixo (1), de uma tese de 2004, mostra a diminuição das emissões de aerossol – o pico se dá aproximadamente no fim dos anos 1970, e o declínio nos 1980.

Figura 1: Emissões de aerossol 1850-2000. Cores indicam fontes diferentes de aerossóis: uso da terra, material biológico, outros procedimentos industriais, fundição de metais, gás natural, bunkers oceânicos, petróleo, carvão.

O caso do Aquecimento

O efeito de aquecimento do CO2 é conhecido desde 1856, quando a cientista Eunice Foote publicou um estudo indicando que o aumento do CO2 atmosférico aumentaria a temperatura geral da Terra. A maioria (62%) dos estudos climáticos da década de 1970 concluiu que esse aquecimento do efeito estufa pelo CO2 era a força dominante das emissões industriais. Na verdade, houve 6 vezes mais estudos prevendo aquecimento do que prevendo resfriamento (Peterson et. Al. 2008).

Figura 2: Porcentagens de estudos de clima revisados ​​por pares no período 1965-1979 que previram aquecimento (vermelho), que previram resfriamento (azul), e que não tomaram posição quanto à ocorrência de aquecimento ou resfriamento (amarelo).

Então, o que a ciência climática de 1970 realmente disse?

Apesar de a maioria dos estudos ter projetado o aquecimento, um mito comum hoje deturpa a ciência do clima da década de 1970, dizendo que o entendimento geral era de uma era do gelo iminente. A pequena fração de estudos prevendo resfriamento recebeu muita atenção da mídia na década de 1970. A ideia de uma futura era do gelo gerou grandes manchetes. O efeito dessa cobertura desproporcional da mídia persiste hoje, à medida que algumas pessoas e organizações continuam a perpetuar a ideia de que uma era do gelo foi prevista na década de 1970.

Aqueles que continuam a espalhar essa ideia criam a “falácia do espantalho”: quando a posição de um oponente é mal representada, a fim de tornar essa posição mais fácil de atacar. Nesse caso, a posição é a previsão de resfriamento que era sustentada apenas por uma minoria de cientistas e, desde então, foi abandonada. Esse “espantalho” resulta na distorção da compreensão pública da ciência do clima e torna mais fácil lançar dúvidas sobre o fato de que nosso planeta está aquecendo por causa da atividade humana.

Aumento da compreensão científica

A maioria dos cientistas do clima previu aquecimento devido às emissões de CO2, e os dados que sustentam essa previsão aumentaram ao longo da década de 1970. Muitas evidências continuaram a se acumular, todas indicando aumento das temperaturas. Por volta de 1980, as evidências de aquecimento eram tão esmagadoras que as previsões de uma nova era do gelo pararam completamente. Esse aumento na compreensão com base em novas evidências é uma parte fundamental do processo científico. O pensamento científico evolui à medida que estudos revelam novas informações. No caso do aquecimento global vs. era do gelo iminente, o climatologista Stephen Schneider é um exemplo desse ponto-chave da ciência. Ele foi o segundo autor do referido artigo Rasool (1971), que afirmava que uma quadruplicação dos aerossóis diminuiria as temperaturas globais e, se essa diminuição fosse mantida, poderia levar a uma era do gelo. No entanto, ao revisitar essa conclusão em 1974, quando os dados e os modelos climáticos haviam avançado, Schneider retratou as descobertas:

“Eu pessoalmente publiquei o que estava errado (sobre) minha própria hipótese original de resfriamento de 1971 alguns anos depois, quando mais dados e melhores modelos surgiram e análises posteriores mostraram [o aquecimento global antropogênico] como muito mais provável …” (Schneider citado em Santer & Erlich 2014)

A previsão de resfriamento foi baseada na noção de que aerossóis de emissões humanas quadruplicariam. Esse aumento simplesmente não aconteceu, em grande parte por ações como a Lei do Ar Limpo. Na verdade, as emissões de aerossóis diminuíram no final da década de 1970, conforme mencionado anteriormente. Assim, o aspecto principal da previsão de resfriamento não se concretizou, e a previsão foi abandonada.

Hoje, o aquecimento observado da temperatura média da Terra continua a confirmar a maioria das previsões dos cientistas do clima na década de 1970. Além do efeito planetário dominante do CO2, uma grande razão pela qual os aerossóis atualmente têm um efeito mínimo no clima é que ações foram tomadas para reduzir as emissões de aerossóis. Temos a chance de criar o mesmo efeito com os gases de efeito estufa – fazendo a transição para fontes renováveis ​​como a eólica e a solar como nossas principais fontes de energia. Ao fazer isso, podemos diminuir as emissões de CO2 e ajudar a conter os efeitos do aquecimento global.

Este texto foi adaptado do Skeptical Science. É uma refutação do mito “Scientists wrongly predicted an ice age in the 1970s so can’t be trusted now”. Foi escrito por Margaret Orr como parte da aula “Entendendo e Respondendo à Desinformação Climática”, da George Mason University.

LEIA MAIS:

​The Myth of the 1970’s Global Cooling Scientific Consensus – American Meteorological Society

Was an imminent Ice Age predicted in the ’70’s? – William Connolley

Past Cycles: Ice Age Speculations – Spencer Weart

Artigo do New York Times de 1956

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