Até quando vamos acreditar em “fake news”?

Publicado originalmente em Instituto Palavra Aberta. Para acessar, clique aqui.

*Mariana Mandelli é coordenadora de comunicação do Instituto Palavra Aberta

Divulgada em 1 de abril, também conhecido como Dia da Mentira, uma nova pesquisa revelou que 88% dos brasileiros e brasileiras já acreditaram em algum tipo de desinformação. O estudo foi produzido pelo Instituto Locomotiva e utilizou respostas de 1.032 pessoas com mais de 18 anos.

Os dados também mostram que 62% dizem confiar na sua própria habilidade de identificar conteúdos fraudulentos sobre campanhas eleitorais; escândalos políticos; venda de serviços e produtos; iniciativas públicas de vacinação e outros temas que, de acordo com o relatório, são os mais presentes no fluxo de “fake news”.

O cenário é crítico, se considerarmos que o tema da desinformação tem permeado o debate público brasileiro com mais ênfase e frequência há pelo menos cinco anos. Outras pesquisas já apresentaram índices preocupantes e também apontavam para a urgência dessa discussão, que precisa alcançar as mais diversas camadas da população por meio de iniciativas formais de educação midiática, inseridas no sistema de educação básica, e informais, situadas em outros espaços para envolver adultos e idosos.

Se não dá para enxergar o copo meio cheio, é possível ao menos afirmar que ele não está vazio. Isso porque os respondentes da pesquisa afirmam ter acreditado em uma mentira propagada nas redes, o que significa que admitem o erro e reconhecem que não verificaram a veracidade da informação repassada.

Compreender que estamos todos, sem exceção, vulneráveis à desinformação é o primeiro passo para entender qual papel temos no combate às suas diversas formas, enxergando a necessidade de desenvolvermos ou melhorarmos nossas habilidades midiáticas para lidar com os desafios — cada vez mais complexos — do ambiente digital.

Não importa a sua formação ou profissão: com certeza há um tipo de “fake news” por aí para a qual você é a isca perfeita. Pode ser sobre um político com o qual você não concorda ideologicamente, os bastidores do rival do seu time de futebol ou um tratamento milagroso para uma doença presente na sua família. Das mais “inocentes” às verdadeiramente graves, o que não faltam são mensagens falsas sobre os mais diversos assuntos que permeiam a nossa vida pessoal e social.

Diversos estudos já apontaram a prevalência dos vieses de confirmação nesse contexto. Tendemos a acreditar naquilo que confirma nosso sistema de crenças e valores e a refutar tudo aquilo que, de alguma forma, desafie, confronte ou negue essas ideias, sempre mobilizando sentimentos como indignação, surpresa ou até mesmo ódio.

O mesmo vale para o momento de descoberta de que estamos, na realidade, diante de uma desinformação. O próprio estudo do Instituto Locomotiva destaca que o processo de compreender que “caímos em fake news” envolve diversas emoções, tais quais raiva e vergonha, por exemplo.

Por isso, a pergunta que intitula este artigo é praticamente impossível de ser respondida, especialmente no momento em que vemos a inteligência artificial avançar ferozmente sobre as formas como trabalhamos, produzimos e enxergamos o mundo, desenhando um futuro bastante incerto e colocando em xeque o conceito de realidade.

Por ora, o que sabemos é que precisamos de ações firmes e perenes que articulem o poder público, o terceiro setor, as big techs e a população, levando em consideração a heterogeneidade e as profundas desigualdades presentes num País como o Brasil. Caso contrário, seguiremos discutindo levantamentos com porcentagens semelhantes às citadas no início deste texto — e, provavelmente, ainda mais pessimistas.

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