Afirmações levantadas por médico sobre alteração no DNA em decorrência das vacinas para a COVID-19 são falsas

Publicado originalmente em Nujoc Checagem por Edison Mineiro. Para acessar, clique aqui.

Em vídeo publicado nas redes sociais do deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ), o médico Alessandro Loiola aparece fazendo alegações em torno das vacinas desenvolvidas para a COVID-19. As afirmações no vídeo são que as vacinas em questão possam provocar alterações genéticas ou câncer. O boato chegou até nossa equipe, por meio de parceria com o aplicativo Eu Fiscalizo da Fiocruz (disponível para Android e iOS).

Além das alegações mencionadas, Alessandro Loiola tenta desqualificar as pesquisas realizadas para produzir a vacina da COVID-19, assim como também questionou o “curto período” até a aprovação da primeira vacina. O post publicado pelo parlamentar vinha acompanhado da seguinte legenda: “Dr. Alessandro Loiola mais uma vez nos traz o que de fato está acontecendo em relação à ‘pandemia’, e principalmente, sobre as ‘vacinas’ que estão vindo por aí. A estratégia sempre foi muito clara: ‘vamos espalhar o medo em escala global, e assim, podemos emplacar nossos experimentos como cura’”.  

As tecnologias utilizadas nas vacinas – Com informações do Projeto Comprova, o especialista em desenvolvimento de vacinas de DNA vírus pela Fiocruz, Rafael Dhalia, confirmou a utilização de novas tecnologias em algumas vacinas da COVID-19, isto é, a utilização de vetor viral (adenovírus), vacina de DNA e vacina de RNA mensageiro.  “No momento, na última fase de desenvolvimento [fase 3], temos quatro vacinas de vetor viral. A chinesa (Sinovac), a russa (Centro Gamaleya), a inglesa (AstraZeneca e Oxford) e a americana (Johnson & Johnson). E duas de RNA mensageiro, a americana (Moderna) e a americana/alemã (Pfizer e BioNTech)”. Ele disse também que nenhuma vacina de DNA entrou na fase 3 ainda e que a inglesa, produzida pela AstraZeneca em parceria com a Universidade de Oxford, “foi a escolhida pelo governo brasileiro para a vacinação em massa caso venha a ser aprovada”.

“Embora todas elas tenham como base o material genético do vírus, nas vacinas de vetor viral esse material é transportado para nossas células por um vírus deficiente, que não causa doença grave. Enquanto as vacinas de RNA são transportadas para as nossas células dentro de partículas lipídicas”, explicou Dhalia.

 Ainda segundo o especialista, “não é à toa” que o Reino Unido optou por começar a vacinação dos seus profissionais de saúde e idosos com as vacinas de RNA. E também, que a Rússia tenha iniciado a imunização pela vacina de adenovírus. “Uma análise técnica rigorosa por parte de especialistas foi com certeza realizada”, pontuou.

Afinal de contas, a vacina altera o DNA? – Não. De acordo com a VEJA Saúde que entrevistou microbiologista Natália Pasternak, presidente do Instituto Questão de Ciência, no caso da vacina de RNA mensageiro, como a da Pfizer, os compostos presentes em uma dose nem passam perto do nosso DNA. “O RNA é lido no citoplasma das células, e não no núcleo, onde está protegido o o DNA humano”, indica a pesquisadora.

Enquanto isso, as vacinas de DNA precisam mesmo ser lidas no núcleo celular. O processo é complicado, porém, a partir desse estímulo, o código genético humano produz moléculas de RNA, que então incitam a produção de proteínas do vírus.

Mas isso não quer dizer que os compostos desse tipo de imunizante se integrem ao código genético humano. “Na verdade, é muito difícil de conseguir fazer isso, mesmo intencionalmente, em laboratório”, continua a microbiologista. Algumas terapias tentam, por exemplo, corrigir mutações que provocam doenças. Contudo, poucas estão de fato disponíveis – e a custos elevadíssimos.

Alterar nosso DNA é difícil porque ele conta com um forte sistema de proteção, por ser continuamente bombardeado por fatores ambientais. “A todo momento, somos infectados por vírus e bactérias que alcançam o núcleo das células. Mas temos enzimas patrulhando o local e qualquer código genético estranho é imediatamente degradado”, explica Flávio Guimarães, pesquisador e especialista em vacinas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), à VEJA Saúde.

E a possibilidade de desenvolver câncer? – Outra questão levantada no vídeo que também é falsa. Segundo o Projeto Comprova que conversou com a microbiologista Jordana Coelho dos Reis, que atua no Laboratório de Virologia Básica e Aplicada do Departamento de Microbiologia, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ela reforçou que os RNAs que estão sendo utilizados nos testes para algumas vacinas não têm a capacidade de alterar nosso DNA e que, portanto, são seguros. “A gente pode confirmar com segurança, com pé no chão, tranquilamente que essas vacinas não representam um risco para câncer nesse sentido de alterar genoma, não tem a menor chance disso acontecer”.

Tema recorrente – Não é a primeira vez que aparece algum boato envolvendo a alteração genética ocasionada por conta da vacina. Entre outros momentos aqui no Nujoc Checagem cabe destacar este aqui. Em janeiro de 2021, a Revista Arco da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) checou uma informação semelhante: em entrevista a médica estadunidense Christiane Northrup alega que vacinas de RNA, como a da Pfizer, contra a Covid-19 alteram o DNA humano. Confira aqui a checagem.

Quanto ao vídeo divulgado pelo deputado Daniel Silveira e discutido aqui, ele foi suspenso pelo facebook, além de receber um selo de “Informação Falsa”. A publicação já contava com mais de 9 mil comentários, 8 mil curtidas e 600 comentários.

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