Médica pede vídeos de apoio ao tratamento precoce

Publicado originalmente em Nujoc Checagem por Márcio Granez. Para acessar, clique aqui.

Defensora do tratamento, Raissa Soares pede que seguidores gravem vídeos para pressionar o Ministério Público em defesa do método ineficaz

A médica Raissa Soares, que atua na cidade de Porto Seguro (BA), conclamou seus seguidores em rede social a produzirem vídeos curtos com depoimentos atestando a eficácia do tratamento precoce. A intenção, segundo ela, é impedir que o Ministério Público proíba a prática do tratamento. O vídeo com o pedido da médica, que circula pelo Instagram, foi enviado à equipe do NUJOC para checagem pelo aplicativo Eu Fiscalizo, da Fundação Oswaldo Cruz.

Raissa começa sua mensagem pedindo aos seguidores que façam vídeos sobre o suposto sucesso com o tratamento precoce: “Pessoal do Brasil, olha só esse recado importante. Nós precisamos que você, que teve Covid, que fez tratamento pra Covid até os três, quatro primeiros dias da doença e que foi recuperado, que tá aí com sua família, que se recuperou, que melhorou: grave um pequeno vídeo, pequeno vídeo. Dá seu nome, de onde você tá falando, que cidade que é, deixa o seu contato, e deixa o número do celular no, falado no vídeo, e você diga: ‘Olha, eu tive doença em tal época, eu fiz o tratamento, eu me recuperei’ ou ‘precisei me internar’, ou não”.

O pedido da médica e suas declarações no vídeo levam a entender que o tratamento precoce funciona para combater a infecção causada pelo novo coronavírus.

Não há prova de eficácia do tratamento precoce, que consiste em administrar medicamentos como hidroxicloroquina, azitromicina e ivermectina para os pacientes infectados ou com suspeita de infecção pela Covid-19. Já foram efetuados diversos testes com esses medicamentos, conforme você pode conferir nestas matérias aqui e aqui. Nenhum dos testes mostrou eficácia, e o tratamento não é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde nem pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa.

Apesar da ineficácia, o tratamento precoce tem defensores na área médica. O grupo Médicos pela Vida, do qual Raissa Soares faz parte, é um dos principais defensores do tratamento. Esses profissionais da medicina alegam que tiveram resultados positivos em sua experiência clínica. Todavia, os cientistas apontam que isso não basta para atestar a eficácia do tratamento, já que essa precisa de provas robustas em estudos aplicados em larga escala. Nenhum desses estudos confirmou até agora a eficácia do tratamento precoce.

CPI – Atualmente ainda correm no Senado os trabalhos de Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a pandemia da Covid-19. A CPI da Covid está investigando suspeitas de que a operadora de planos de saúde Prevent Senior teria fraudado atestados de óbito de pessoas que morreram de Covid-19, ocultando de seus prontuários que elas foram submetidas ao tratamento precoce. “Um dossiê assinado por 15 médicos da Prevent Senior e encaminhado à CPI afirma que prontuários médicos da operadora foram fraudados para esconder as causas da morte de diversos pacientes e para ocultar qual tratamento eles receberam”, relata esta matéria do jornal Folha de S.Paulo, de quarta-feira, 22.

Regina Hang, mãe do empresário Luciano Hang, dono da rede de lojas Havan e fervoroso apoiador do presidente Bolsonaro e do tratamento precoce, é uma das vítimas cuja causa mortis teria sido fraudada. Ela teria sido submetida ao tratamento precoce, mas esta informação não consta de seu prontuário. O senador Renan Calheiros, relator da CPI da Covid, afirma ter provas de que Luciano Hang não apenas sabia do tratamento com o kit covid como também teria pedido aos médicos para não divulgarem essa informação no laudo da morte. Em nota, Hang nega as acusações.

Médica Raissa Soares: conclamando os seguidores em rede social pela defesa do tratamento precoce. Imagem: Captura de tela/Instagram

O vídeo da médica Raissa Soares pedindo depoimentos em favor do tratamento vem num contexto em que se fala na responsabilização dos profissionais da saúde que orientaram seus pacientes a aderir ao tratamento. A médica menciona ainda a suposta pressão do Ministério Público sobre a classe médica: “Nós vamos mostrar pra todo mundo que ainda não sabe ou não acredita que o protocolo da Covid-19 tem fundamento, tem resultado. Ele é capaz de mudar vidas. Nós vamos impedir que o Ministério Público nos bloqueia a tratar, nós vamos impedir que queiram criminalizar médicos que tão tratando”.

A afirmação da médica sobre a atuação do MP não tem fundamento nos fatos. O Ministério Público é um órgão independente, encarregado de vigiar as instituições, garantindo seu bom funcionamento e denunciando as práticas irregulares e prejudiciais à sociedade. Se há pressão do MP sobre os médicos nesse caso, ela se justifica pelos indícios que ligam o tratamento precoce à morte e à piora na situação dos que se submeteram ao tratamento. Como não há comprovação da eficácia do tratamento precoce, recomendá-lo se torna uma prática potencialmente prejudicial e, no limite, criminosa. Daí a necessidade de o MP agir.

O NUJOC já checou mensagens de outros médicos que defendem o tratamento precoce e disseminam desinformação sobre a Covid-19. Nesta checagem aqui, de 16 de março deste ano, um médico ensina e fazer nebulização com água oxigenada e bicarbonato de sódio contra Covid-19. Nesta outra, do dia 29 de abril, uma médica norte-americana disse que 30% dos pacientes contra a Covid-19 iriam morrer em poucos meses. São todas informações falsas.

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