Jornalismo, Neoliberalismo e Episteme

Publicado originalmente em ObjETHOS por Jéferson Silveira Dantas. Para acessar, clique aqui.

Pierre Bourdieu num pequeno ensaio intitulado Contrafogos (1998), sintetizou muito bem os desafios dos intelectuais – especialmente cientistas sociais – no que concerne à ofensiva fatalista e autoritária do neoliberalismo, acompanhada do verniz relativista da racionalidade pós-moderna. O sociólogo francês sinalizava há mais de duas décadas aquilo que, atualmente, conjeturamos, ou seja, o avanço da extrema-direita na Europa e em outras partes do mundo, com a chancela dos grupos empresariais de mídia. Para Bourdieu a grande preocupação desses grupos empresariais midiáticos era (e é) com a rapidez das informações do que com a análise apurada e equilibrada dos fatos, além da substituição crescente e maléfica de jornalistas de ofício por publicitários, marqueteiros, palpiteiros, opinólogos, coaches, etc. Em outras palavras, a doxa teria galgado imensas distâncias nesses últimos anos, enquanto a episteme perde terreno e credibilidade por meio de um processo avassalante de alienação coletiva, teorias conspiratórias e revisionismos históricos grosseiros e cavilosos.

Nessa direção, a perspectiva errática da mídia hegemônica ao querer tratar um sociopata como um estadista (algo que nunca conseguirá ser), contribuiu de forma negativa para o imaginário social de que era possível haver governabilidade apesar da mentalidade autoritária e grotesca do capitão-cloroquina. Como bem aponta o cientista político, Aldo Fornazieri, bolsonaristas nutrem total desprezo pela estrutura e organização do Estado. Daí advém a forma de governar bolsonarista, ou seja, a atuação política por meio de consultas a gabinetes paralelos, como a CPI da Covid-19 já evidenciou nesses dois primeiros meses de trabalhos. Fornazieri sintetiza de forma exemplar: “Bolsonaro não dispõe nem de um partido nem de movimentos totalitários organizados. Em torno dele orbitam os filhos e elementos ideologicamente fascistas. Como não pode duplicar o Estado no partido, o duplica ao menos em alguns aspectos, no círculo familiar e de amigos e aderentes (…). O Estado, a Constituição, o STF, o Congresso, a Federação, o Exército e os ministérios são estruturas que atrapalham. Ele quer decidir sem estar submetido a nenhum tipo de controle, limite, vigilância e prestação de contas de seus atos. Quer o poder total. Quando se tem isso, a vontade transforma-se em violência para alcançar os objetivos e o crime é normalizado e torna-se substituto das leis”.

A análise acima é suficiente para nos darmos conta de que o processo anticivilizatório no Brasil chegou a um ponto de inflexão, i.e., não se trata de polarização política reducionista ou simplificadora como a mídia hegemônica procura nos convencer, mas de combater, exaustivamente, a barbárie mimetizada no invólucro do bolsonarismo, este sim, com tendências de continuísmo e defesa do statu quo ante, identificado com o neoliberalismo autoritário, militarismo e anacronismos históricos.

Logo, pensar num jornalismo de novo tipo, requer engajamento ético e político para a superação de um modelo informativo desprovido da totalidade histórica e, portanto, de platitudes sem checagens ou de meras reproduções de fontes oficiais, já que é inócua diante dos desafios que o jornalismo em nível mundial enfrenta (ou deveria enfrentar) nos dias de hoje. Mas, para um país como o Brasil – mas não só – onde a mídia hegemônica apresenta uma ligação umbilical com o neoliberalismo, isso se torna, praticamente, uma miragem. Para o cientista social Rodrigo Castelo “não há incompatibilidade na defesa de uma ditadura por parte dos neoliberais, pois a democracia não é um valor central para ela. O que chama atenção é que a ideologia neoliberal materializa-se pela primeira vez sob os auspícios da autocracia burguesa, e não dentro das regras do jogo formal da democracia representativa. O uso da coerção é um elemento presente e decisivo na transmutação do neoliberalismo de uma ideologia para uma estratégia política das classes dominantes, (…)”.

A mídia como aparelho privado de hegemonia e representante da classe burguesa não pode utilizar o pretexto de ter sido pega de surpresa em relação ao desmonte das políticas públicas e de uma ação governamental federal ruinosa sem precedentes, o que levou o país até o momento a uma marca indecente de mais de 520 mil mortos pela Covid-19; 400 mil brasileiros/as poderiam estar vivos/as se as vacinas oferecidas tivessem sido compradas com antecedência e se os protocolos sanitários fossem respeitados com rigor em todo o território nacional. Para o filósofo Vladimir Safatle o Brasil vive um luto sem lágrimas, além da desfaçatez ou o deboche em relação às vítimas por parte de um sujeito em permanente campanha presidencial. Há, contudo, no horizonte – mas sem muitas ilusões – os efeitos do superpedido de impeachment do capitão reformado do Exército por suspeitas de prevaricação, apresentadas pela CPI da Covid-19 no Senado federal.

Por fim, no ano em que se comemoram os 100 anos de nascimento do patrono da Educação brasileira, Paulo Freire – alcunhado de doutrinador pelas hostes bolsonaristas –, e dos 25 anos de sua última obra (Pedagogia da Autonomia), ficam-nos aqui o alerta acertado de seus últimos escritos, ou seja, de que a ofensiva neoliberal precisa ser contra-atacada, pois sua racionalidade fatalista e imperativa, cínica e impiedosa, não apresenta qualquer projeto ou alternativa para a classe trabalhadora. É o núcleo duro da relação social de produção que precisa ser atacado e a posição secundária do Brasil na divisão internacional do trabalho (exportador de commodities). Estrutura e superestrutura são questões dialéticas; quando apartadas, beneficiam a lógica do capital e o cinismo dos grupos empresariais jornalísticos!

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