Imunização incompleta pode favorecer o desenvolvimento de novas variantes

Publicado originalmente em Jornal da Universidade por Mateus Rolim. Para acessar, clique aqui.

Saúde | Número de atrasados para a segunda dose da vacinação e um cenário de reabertura acelerada alarmam especialistas e instituições de saúde

Duas sensações talvez definam o que se passa na mente do brasileiro após mais de um ano e meio vivendo as consequências de uma pandemia inesperada: a primeira é de que o pior pode ter ficado no passado; a segunda, de que ainda estamos longe de voltarmos à normalidade, se é que um dia voltaremos àquilo que costumávamos chamar de normal. A reabertura acelerada das atividades comerciais, combinada à vacinação em larga escala, tem causado um rebuliço nos centros urbanos do país, o que pode ser uma armadilha para a completa superação do coronavírus que nos assola desde março de 2020. 

preocupação recente de instituições governamentais e especialistas de saúde tem um foco: não permitir que novos surtos de covid-19 aconteçam enquanto a maioria da população, 61,96% dos mais de 211 milhões de brasileiros, esteja somente imunizada de maneira parcial. A desejada vacina finalmente chegou ao braço de mais de 132 milhões de pessoas – número que se iguala às estatísticas de países que começaram a vacinação mais cedo -, mas o clima de euforia de parte ampla da sociedade não acompanha a visão de autoridades sanitárias; pelo contrário, a “falsa sensação de segurança” consequente da imunização parcial gera alerta para uma possível nova onda de casos.

Atualmente o desafio brasileiro é concluir a vacinação antes que o SARS-Cov-2 e suas variantes tenham terreno para emergir novamente. Para isso, o abandono vacinal deve entrar no radar de ameaças à saúde pública. Dados do Ministério da Saúde de agosto informam que mais de 8,5 milhões de indivíduos estão atrasados para tomar a segunda dose, cifra que mais que quintuplicou desde abril. Com bares, restaurantes e shoppings voltando a funcionar a pleno vapor, a segurança do povo brasileiro não dependerá apenas de agulhadas intramusculares, mas necessitará também de um grande esforço comunicativo para que a desinformação não atrapalhe o programa de imunização. 

Os desafios da segunda dose

Até agora, os impactos devastadores da pandemia vêm sendo atenuados por números se não positivos, pelo menos estáveis: na primeira semana de setembro, a média móvel de óbitos no Rio Grande do Sul variou negativamente em 7% na comparação com a taxa registrada 14 dias antes, e os 833 casos diagnosticados diariamente, em média, configuram a menor marca desde junho de 2020. Em Porto Alegre, o número de óbitos decresceu constantemente desde abril deste ano. Um índice, contudo, ainda preocupa as autoridades governamentais e sanitárias: a adesão à segunda dose da vacina. Segundo Fernando Ritter, coordenador da Vigilância em Saúde da capital, o patamar de atrasados para a imunização completa continua sendo de mais de 22 mil habitantes, constatados em abril, mesmo que esse valor tenha oscilado nas últimas semanas e meses.

Quanto aos motivos que atravancam a vacinação integral, Fernando acredita em uma conjunção de fatores que varia de falhas de comunicação até convicções pessoais da população. “Primeiro, um mundo de fake news que estimula as pessoas a acharem que a vacina que tomou não é boa o suficiente. Segundo, algumas pessoas acabam deixando para depois e aí vão adiando e acabam não indo. Terceira questão importante que a gente observa é que as pessoas querem, nesse momento em que temos uma variedade de quatro vacinas, escolher qual tomar, o que atrasa o processo”, constata.

Uma rápida passagem pelos stories do instagram pode assustar os mais precavidos: jovens recém-vacinados confraternizando em mesas de bar, festas de aniversário cujo dress-code não envolve a máscara de proteção, gente aos borbotões na Orla do Guaíba. Apesar de a faixa etária dos 20 aos 29 anos ser a mais visada quando se discutem os efeitos da falsa sensação de segurança, Fernando garante que é outra fatia da população que mais preocupa.

“A gente tem visto que é a faixa dos trinta e cinco aos cinquenta anos o principal público que não quer se vacinar. Tem uma parcela em torno de 15% a 20% dessas pessoas que não quer se vacinar. Isso talvez prejudique um pouco e retarde a volta a um estado de normalidade” 

Fernando Ritter

Líderes da sociedade não podem ser eximidos de suas responsabilidades públicas. O professor de Saúde Coletiva da UFRGS Alcides Miranda destaca a cultura obscurantista que vem tomando conta do Brasil nos últimos anos. “Há uma conjunção de fatores, porque nós temos aí um negacionismo que vem sendo disseminado de uma forma constante, subliminar, e que tem ocasionado a baixa adesão [à vacinação]. O governo federal tem atuado com uma negligência intencional”, afirma. Segundo o docente, o abrandamento da pandemia ainda não deve ser classificado como definitivo, já que nos últimos meses, em fases em que parecia que o contágio estava diminuindo, era somente um intervalo para uma onda maior. “Agora nós temos uma cobertura vacinal média que vai avançando lentamente, mas a distribuição dessa cobertura vacinal ainda é disforme, ou seja, temos aí variações muito importantes entre municípios e estados”, completa.

No Colégio Júlio de Castilhos, em Porto Alegre, Posto de Saúde Modelo realiza vacinação de primeira e segunda dose de vacinas contra o Sars-CoV-2 (Fotos: Flávio Dutra/Arquivo JU 09 ago. 2021)
Imunização parcial, calendário vacinal e variante Delta

Ter recebido a primeira dose da vacina é como soar as trombetas para uma batalha campal: o organismo, ao receber o imunizante, começa a induzir a formação de anticorpos, sendo que a resposta imunológica costuma variar de pessoa para pessoa. A despeito da mobilização inicial, esse exército ainda não está preparado para resistir totalmente à investida inimiga, pois a proteção calculada para apenas a primeira dose é de cerca de 30%. Ademais, a imunização incompleta depaupera a defesa coletiva, afinal, não anula a transmissão do vírus.

“Antes de falar da margem de segurança para uma imunização só, é preciso deixar claro que mesmo as pessoas vacinadas continuam a veicular contágios, então, na perspectiva coletiva da imunização, todo cuidado continua necessário”

Alcides Miranda

Debate-se ainda sobre como o manejo do calendário de vacinação pode otimizar a imunização integral. Uma das vantagens da antecipação da segunda dose, fora a ampliação da cobertura vacinal, é o combate às variantes. A mais falada do momento, a variante Delta, exige intervalo mais curto que as doze semanas protocolares, como demonstra estudo do Centro de Ciências Matemáticas Aplicadas à Indústria (CeMEAI). O estudo também sugere que vacinas com menos de 50% de imunização na primeira dose devem ser reforçadas num prazo anterior aos 84 dias.

Fernando Ritter concorda com a medida e se posiciona a favor de antecipar a aplicação da segunda dose. “Hoje, o Ministério da Saúde, por decisão de alguns estudos que eu acho que não são suficientemente fortes, resolveu adiar para doze semanas. Se a gente voltar aos vinte e um dias, como é preconizado pelo fabricante, a gente teria uma população muito mais imunizada.”

A variante Delta hoje responde por 87 casos de covid-19 em Porto Alegre. A cepa de origem indiana leva uma maior quantidade de vírus às vias respiratórias e é mais transmissível, mas menos letal. As instituições de saúde ainda não enxergam um efeito prático da Delta nas ocupações em leitos de UTI, considerando a situação estável até o momento. Todavia, adverte Alcides, não se pode descartar o surgimento de uma variante mais agressiva. “Nós estamos correndo o risco de surgir uma variante mutagênica que, além de ser mais transmissível, passe a ser mais letal, e aí a cobertura vacinal pode se tornar algo também insuficiente. Quanto mais celeremente a gente avançar numa cobertura vacinal que atinja o limiar de proteção coletiva, tanto melhor para o controle dessas cepas, que não vão ter como se disseminar, porque vai haver um bloqueio natural”, explica.

Em um futuro relativamente próximo, o novo coronavírus será um patógeno controlado. Até lá, entretanto, a tendência é que continuemos a viver nesse interstício entre a hecatombe sanitária e a plena normalidade. Um dos indícios de que estamos nesse estágio intermediário é percebido na relação entre oferta e demanda hospitalar.

Mesmo que a ocupação de leitos de emergência venha minguando, os hospitais e outras instituições de saúde continuam a ceder boa parte de sua capacidade para lidar com infecções de covid-19. Ninon Girardon Rosa, coordenadora do Grupo de Enfermagem do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, centro de referência para pacientes em estado grave, explica como essa equação vem sendo balanceada nos últimos meses: “Desde o início da pandemia, a gente montou em torno de 105 leitos. Teve um período em fevereiro que a gente teve de aumentar esses leitos em função da demanda, mas agora a gente não tem usado todos porque a demanda diminuiu”.

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