Cenário Pós Pandemia no Meio Ambiente

Publicado originalmente em Pretty Much Science por Luisa Maria Diele-Viegas. Para acessar, clique aqui.

A realidade ambiental nesse cenário de Pandemia é bem diferente do que se tem falado em algumas notícias, onde entende-se que a COVID-19 já está sendo bastante prejudicial ao meio ambiente.

Ao longo da história recente, algumas pandemias e epidemias assolaram a humanidade. Ainda no século XIV, a peste negra matou entre 75 e 200 milhões de pessoas, e agora mais recentemente, em 1918, a gripe espanhola matou entre 40 e 50 milhões de pessoas. Estas duas pandemias, assim como a pandemia da gripe suína e epidemias como a do ebola, da zika, chikungunya e dengue, sempre tiveram uma origem comum: os animais.  

Diversos vírus que passaram de hospedeiros animais para os seres humanos no último século tiveram relação com o contato próximo entre pessoas e animais silvestres, como morcegos e macacos. Os dados apontam que nos últimos 50 anos, cerca de 75% das doenças tiveram origem animal, que pode ocorrer de forma direta, ou indireta, através do consumo de carne. 

A destruição ambiental de florestas tropicais causada pela expansão agrícola, industrial e urbana tende a ser foco de transmissões virais entre animais e humanos. Morcegos, por exemplo, que são os prováveis reservatórios de vírus, como o da Covid-19, passam a se alimentar nas proximidades de ambientes urbanos uma vez que seu hábitat natural foi perturbado pela construção de estradas, extração de madeira e outras atividades humanas. 

No início da pandemia do Covid-19, muito se especulou sobre os potenciais impactos positivos da pandemia no meio ambiente, considerando o isolamento social e o período de quarentena. De fato, foi possível verificar uma redução nas emissões de gases do efeito estufa provenientes principalmente do setor de transporte, onde só em Madri, na Espanha, houve uma redução de cerca de 75% na emissão de dióxido de nitrogênio até abril de 2020. Na China, foi possível verificar uma redução de 25% em todo o montante de emissão de CO2 neste mesmo período, sendo possível verificar inclusive uma diminuição da poluição através de imagens de satélite (ex abaixo).  

Outras notícias também ganharam as mídias sociais, voltadas principalmente para a invasão de animais de vida selvagem em ambientes urbanos. Foi noticiado, por exemplo, que os canais de Veneza estariam tão limpos que golfinhos e cisnes estariam de volta à essas águas. Onde em momento posterior se identificaram que tais notícias eram fake news, uma vez que os golfinhos não retornaram aos canais de Veneza e os cisnes nunca deixaram de frequentar o local.  

Apesar dessas especulações, a realidade ambiental nesse cenário de Pandemia é bem diferente do que se tem falado em algumas notícias, onde entende-se que a COVID-19 já está sendo bastante prejudicial ao meio ambiente, a começar pela geração de resíduos hospitalares, onde até abril/2020, só na China, houve um aumento de 400% no volume de lixo hospitalar gerado, chegando a 200 toneladas por dia. Estima-se que somente as embalagens dos materiais utilizados nos EUA até abril/2020 foram responsáveis pelo corte de mais de 1 bilhão de árvores. Além disso, o descarte do lixo hospitalar, o qual inclui máscaras descartáveis e luvas, também está sendo feito de maneira incorreta ao redor do mundo, poluindo ainda mais rios e mares.  

Para além dos impactos ambientais visíveis, a crise econômica causada pela pandemia também leva a um cenário bastante preocupante, onde para se recuperar da crise grandes potências mundiais estão aumentando a queima de combustíveis fósseis para reativar a indústria e assim aquecer a economia. Isso leva a um cenário assustador num futuro próximo, pois o aquecimento global já é uma ameaça real ao clima do mundo e a necessidade de se reduzir as emissões de gases do efeito estufa é urgente e já vem sendo pauta há vários anos. 

No Brasil, considerando que a base da recuperação econômica está baseada na expansão da agropecuária, que é a maior responsável pelo aumento do desmatamento florestal nacional e pela emissão de gases do efeito estufa no país, o cenário também se mostra negativo para a questão ambiental. 

Este cenário é especialmente preocupante quando relacionamos estes fatores ao risco iminente de surgimento de novas pandemias. Por exemplo, somente na região amazônica, a cada 1 km2 de floresta desmatada equivale a 27 novos casos de malária. O desmatamento na Amazônia, junto com o avanço das mudanças climáticas, tende a aumentar o surgimento de novas doenças e zoonoses nos próximos anos.  

A boa notícia é que dá para a gente minimizar a chance de que uma nova pandemia, como a da COVID-19, aconteça novamente.  Para isso, considerando que as ações de controle são mais baratas do que as de mitigação, deveria ocorrer investimento em programas que monitorem e reduzam a destruição das florestas tropicais e as atividades de tráfico de animais silvestres.  É necessário que haja investimento em pesquisas focadas na detecção e controle de vírus que tenham potencial pandêmico, programas de educação ambiental para sensibilizar a população sobre o tema e assim reduzir o desmatamento tropical e o consumo de animais silvestres como forma de alimento. Por fim, são necessárias medidas para reduzir as emissões de gases do efeito estufa e mitigar os impactos das mudanças climáticas em ambientes naturais e urbanos.  

Fontes/Sources: https://www.preprints.org/manuscript/202004.0501/v1https://www.nationalgeographicbrasil.com/ciencia/2020/06/pandemia-coronavirus-covid-19-prejudicial-meio-ambiente-mudancas-climaticashttps://science.sciencemag.org/content/369/6502/379.fullhttps://exame.com/brasil/sem-controlar-desmatamento-amazonia-pode-originar-novas-pandemias/https://www.cnnbrasil.com.br/saude/2020/09/28/como-as-mudancas-climaticas-afetam-as-pandemiasPrevious

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