Publicado originalmente em Coronavírus em xeque por Lia Seixas. Para acessar, clique aqui.

A melhor coisa que poderia ter acontecido para o jornalismo foram as fake news. Sim, as fake news.  

Com a desinformação desgovernada nas redes sociais, tanto a sociedade digitalizada quanto a sociedade analógica, se deram conta de que eventos não são opiniões, precisam de verificação, portanto de jornalismo profissional.

A pós-verdade, mais do que ter a ver com verdade, tem a ver com o desejo de estar certo, de todo ser humano. Trata-se de influência na opinião pública. No grau zero, pós-truth: relativo ou referente a circunstâncias nas quais os fatos objetivos são menos influentes na opinião pública do que as emoções e as crenças pessoais. Um desejo que sempre existiu, mas agora ganhou um corpo e tanto com a circulação de um ‘boca a boca’ (‘celular a celular’) fulminante.

Independente do desejo individual, coletivamente cada indivíduo pensante reconhece e prima pela necessidade de saber sobre o mundo atual. Portanto, uma necessidade. Uma necessidade das sociedades. Necessidade de saber sobre o mundo atual. O Brasil atual tem a crise de covid-19. Espero, a angústia de não ter essa necessidade atendida leve a manifestações ativas nas ruas.

Essa necessidade foi desprezada pelo governo federal, neste início de junho de 2020. Além de mudar os horários de divulgação dos dados, já subnotificados, o governo federal resolveu retirar do site do Ministério da Saúde os dados acumulados. Inadmissível em sociedade democrática.

Pois a última afirmação acima, felizmente consensual para atores de poder, traz no bojo o que pode ser a faísca para que a angústia coletiva se manifeste. Esta última afirmação simplesmente reitera o que centenas de autores do estudos de jornalismo disseram desde o início do jornalismo moderno: não existe democracia sem jornalismo profissional.

Jornalismo profissional? Não, não tem nada a ver com tradicional ou alternativo. Nada a ver com ser ou não ser jornalista. Nada a ver com prática digitalizada ou analógica. Trata-se desse campo reconhecido pela sociedade como campo da verificação de fatos – acredite-se ou não nisso. Não estamos falando da existência ou não de fatos e dados, mas de valor institucional. Do campo de Bourdieu. Esses valores que se acredita perdidos numa crise.

Pelo contrário, os valores jornalísticos estão mais fortes do que nunca. Valores como objetividade (sem a discussão importante do que isso significa, mas é um valor na sociedade brasileira). O valor da atualidade, do evento que ocorre no mundo atual. O valor do interesse público foi, nada mais nada menos, do que escrachado com a pandemia. Quantas pessoas morrem? O valor da vida clamado mundialmente, agora, por “Black lives matter”.

As fake news impulsionaram a tímida onda de valorização do jornalismo. Viva as fake news!

*Lia Seixas é jornalista, professora do PósCOM – UFBA e pesquisadora do Núcleo de Estudos em Jornalismo.

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