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Imagem: Autoria desconhecida
“Toda essa chuva… e o Melo… nada!”, diz a montagem com o prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo, nadando de braçada, em meio à cidade completamente alagada. Muito se questionou sobre o papel dos memes em meio à catástrofe desoladora que assolou a capital gaúcha entre abril e maio deste ano. De fato, não bastassem os conteúdos que, muitas vezes a título de gracejo, contribuem substancialmente para a disseminação de inverdades, há ainda muito o que se discutir sobre o riso em meio a uma tragédia sem proporções como esta.
A professora Giselinde Kuipers, da Universidade de Amsterdam, sugere, em vários de seus estudos, que o humor pode operar como uma estratégia de enfrentamento em contextos de sofrimento e catástrofe. Seus argumentos refletem a tese clássica de Sigmund Freud, segundo a qual o humor pode expiar a dor, e funcionar como um mecanismo para lidar de modo mais fácil com a realidade.
Freud contestava a ideia de que o riso serviria apenas para divertir as elites e oprimir os “mais fracos”. Em sua concepção, o humor serviria também para expiar, ou aliviar, a pena. E, mais além, permitiria sustentar posições que não seriam toleradas de outra forma em ambientes públicos, inclusive aquelas que se constituiriam como tabus sociais. Assim, rir, diria Freud, tem um efeito quase terapêutico. Mas Kuipers estende esta compreensão.
A socióloga neerlandesa se alinha à teoria da violação benigna, desenvolvida pelos psicólogos Peter McGraw e Caleb Warren, para os quais o riso emerge quando há percepção de que uma ação ou proferimento viola normas ou expectativas sociais mas é considerado suficientemente inofensivo para não soar como prejudicial ou impingir dano a outrem, tal como o ensaio fotográfico da modelo Nana Gouvêa em meio aos destroços do furacão Katrina. Como uma espécie de “ódio do bem”, o humor é, conforme Kuipers, responsável por estabelecer limites importantes para o ponto de transgressão, sobre o que é socialmente aceitável, e o que não é. Por isso, em meio a calamidades como a enchete no Rio Grande do Sul, o riso tem muito a nos ensinar.
Mas, vale dizer, o humor em meio a contextos de sofrimento não cumpre uma única função. Ele também pode servir para construir estereótipos degradados sobre a autoridade política, permitindo a circulação de representações culturais que mobilizam afetos e propõem ações. As piadas a respeito de catástrofes naturais e sociais são também parte de um esforço deliberado por colocar a tragédia no cenário da cultura pop.
Geralmente, este tipo de humor, afirma Kuipers, apresenta sujeitos não-genéricos, diferentes daqueles habitualmente evocados no humorismo tradicional, como a figura do bêbado, do náufrago, do malandro ou do valentão. São anedotas que se referem a episódios específicos, dificilmente adaptáveis para outras circunstâncias (vale lembrar, aqui, do Cavalo Caramelo), e sempre produzidas com o intento de provocar ou chocar, o que alguns autores conceituam como um “humorous clash”, uma expressão típica de incongruência ou quebra de expectativas. A fronteira entre o que é inocente e o que é malicioso é, nesse sentido, semelhante àquela que divide o que banal do que é doentio.
Outro elemento distintivo importante é que muito desse humor não incute uma lição moral. Pelo contrário. São essencialmente tiradas amorais, muitas vezes, visualmente agressivas e degradantes. Curiosamente, no entanto, a cobertura noticiosa de grandes tragédias as torna uma peça da cultura midiática, de maneira que o humor oportuniza, nesses casos, uma reflexão importante sobre a própria dinâmica de midiatização desses eventos.
No caso dos memes da enchente, é possível observar um pouco desses múltiplos papeis sociais. Memes como os que ilustram a pequena sereia Ariel, personagem de Hans Christian Andersen, encalhada nas águas barrentas, ou o surfista Rafael Medina, comemorando a “onda perfeita”, constroem um cenário de sociabilidade para a tragédia, seja a partir da solidariedade ou do deboche. Eles se diferenciam daqueles como o que sugere uma autossabotagem (que se transforma em autorremissão) do governador Eduardo Leite ao tombar da própria bicicleta. Este último tipo politiza o debate, trazendo para a agenda pública, por meio da sátira, a crítica e a responsabilização das autoridades.
Reconhecer que os memes não cumprem somente um papel na comunicação pública é entender que eles são parte integrante e ao mesmo a própria esfera pública materialmente constituída. Condená-los porque veiculam desinformação ou porque carecem de maior empatia é conferir aos memes uma agência que é fundamentalmente humana. Memes são apenas uma linguagem para o humor, e o humor é um mecanismo que frequentemente nos é capaz de espelhar o que de melhor e o que de pior partilhamos enquanto sociedade. Entender do que rimos, quando rimos de uma tragédia, é entender não apenas o que nos faz humanos, mas o que toleramos enquanto discurso público, o que consideramos uma agenda pública que deve ser realçada, e o que entendemos ser um dispositivo de reconhecimento e auto-afirmação ou de empatia com outros públicos.
Viktor Chagas
Professor associado do Departamento de Estudos Culturais e Mídia e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense (PPGCOM-UFF). Dedica-se a investigações na área da Comunicação Política, em especial na interface entre Internet e Culturas Políticas, Economia Política da Informação, e Jornalismo e Política. É líder do grupo de pesquisa coLAB/UFF e coordenador do projeto de extensão #MUSEUdeMEMES.
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