Publicado originalmente em Agência Lupa por Maiquel Rosauro. Para acessar, clique aqui.
Em vídeo que circula nas redes sociais, um médico chamado Rômulo Flister alega que as vacinas de RNA mensageiro (mRNA) estão sendo retiradas do mercado e que sua aplicação é contraindicada em humanos. Ele diz que as vacinas provocaram um aumento de 220% de casos de morte súbita sobretudo entre pacientes jovens e um aumento de 170% nos casos de autismo.
Durante o vídeo, Flister exibe os títulos de dois textos que são usados como fonte das informações. A questão sobre a retirada das vacinas do mercado é baseada no artigo Review: Calls for Market Removal of COVID-19 Vaccines Intensify as Risks Far Outweigh Theoretical Benefits (Revisão: Apelos para a retirada do mercado das vacinas contra a COVID-19 se intensificam, pois os riscos superam os benefícios teóricos, em tradução livre), publicado no Science, Public Health Policy and the Law, em 28 de janeiro, por Nicolas Hulscher, Maria T. Bowden e Peter A. McCullough.
O médico também cita no vídeo o texto ‘Jaw-dropping’ Study Finds Vaccinated Children Have 170% Higher Risk of Autism (Estudo ‘impressionante’ descobre que crianças vacinadas têm 170% mais risco de autismo, em tradução livre) que tem origem no artigo Vaccination and Neurodevelopmental Disorders: A Study of Nine-Year-Old Children Enrolled in Medicaid (Vacinação e distúrbios do neurodesenvolvimento: um estudo com crianças de nove anos matriculadas no Medicaid, em tradução livre), também publicado no Science, Public Health Policy and the Law, em 23 de janeiro, por Anthony R. Mawson e Binu Jacob.
É falso. As vacinas com mRNA não são contraindicadas e os artigos apresentados possuem dados distorcidos.
Por meio do projeto de verificação de notícias, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

Agora está mais do que provado, quatro anos depois, de que as vacinas RNA mensageiro do Covid estão simplesmente sendo retiradas, é isso mesmo, estão contraindicadas a aplicação em seres humanos. Por quê? Porque o aumento de problemas foi drástico. Estudos mostram e provam isso. Estou falando de aumento de 220% em morte súbita, pacientes jovens morrendo aí a torto e direito. Aumento de 170% no número de casos de autismo, que até então não se tinha uma correlação específica, mas já existem estudos para aqueles que gostam de provas, que a vacina tem uma influência muito significativa disso”
– Fala do médico Rômulo Flister em vídeo
Falso
As vacinas de RNA mensageiro não estão sendo retiradas do mercado e não há contraindicação para sua aplicação em humanos. Além disso, não existem dados que comprovem a relação entre a administração dos imunizantes contra a Covid-19 e um suposto aumento de casos de morte súbita e de autismo.
Em nota enviada à Lupa, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ressalta que a maioria dos efeitos adversos das vacinas são dor e inchaço temporário. “Não há qualquer ação de retirada das vacinas com esta tecnologia no mercado no Brasil por mudança no perfil de segurança. As vacinas contra Covid-19 têm eventos adversos semelhantes ao das demais vacinas em uso no Brasil, sendo a grande maioria de perfil leve como dor e inchaço temporário”.
A agência também explica, em nota, que para a avaliação das vacinas contra Covid-19, foram adotados os mesmos requisitos técnicos utilizados para avaliação de todos os demais medicamentos e vacinas em uso no Brasil, o que inclui estudos clínicos. “Não houve alteração no perfil de eficácia e segurança destas vacinas”.
As informações sobre a retirada destes imunizantes do mercado são baseadas no artigo “Review: Calls for Market Removal of COVID-19 Vaccines Intensify as Risks Far Outweigh Theoretical Benefits”, o qual apresenta uma série de alegações graves sobre os riscos das vacinas contra Covid-19, incluindo mortalidade excessiva, eficácia negativa e contaminação por DNA.
A pedido da Lupa, o artigo foi analisado pelo médico veterinário e virologista, Paulo Michel Roehe, professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências Veterinárias da Faculdade de Veterinária da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o qual argumenta que não há evidências que confirmem os apontamentos do artigo.
“Os problemas atribuídos à vacinação contra Covid-19 com vacinas de mRNA podem ter sido causados por outras coisas, o que é muito difícil de avaliar em estudos que envolvem muitos indivíduos. Se a pesquisa fosse realmente sólida, deveria ter sido publicada em uma revista científica igualmente sólida”, explica Roehe.
Site tendencioso
O artigo foi publicado no site “Science, Public Health Policy and the Law“, o qual Roehe afirmou não conhecer de antemão e, após análise, classificou como “tendencioso”, uma vez que apresenta somente artigos contra a vacinação.
“Isso já levanta um sinal de alarme, pois nenhuma revista séria publicaria somente um lado, negativo ou positivo, sobre determinado tema. Além disso, é produzida por uma empresa privada chamada IPAK-EDU, que igualmente desconheço, e que produz esta publicação que não circula no mundo, digamos, reconhecido, da ciência”, destaca o virologista.
Roehe também chama atenção para o fato de que os artigos citados no vídeo não estão presentes no PubMed (1 e 2), banco de dados gratuito, com artigos de revistas científicas revisadas por pares e desenvolvido pelo Centro Nacional de Informações sobre Biotecnologia (NCBI, na sigla em inglês), da Biblioteca Nacional de Medicina dos EUA (NLM, sigla em inglês).
Opinião semelhante possui o médico infectologista Alexandre Zavascki, professor do Departamento de Medicina Interna da Faculdade de Medicina da UFRGS. Ele afirma, em nota, que o site “Science, Public Health Policy and the Law” não é uma fonte confiável de informação.
“O que é chamado de revista científica é apenas um site (veja que não tem nem ISSN – International Standard Serial Number – Número Internacional Normalizado para Publicações Seriadas, em português). Entre os editores e autores têm notórios “anti-vacinas”, como Peter McCullough. Os artigos sequer têm DOI (Digital Object Identifier – Identificador de Objeto Digital, em português – código alfanumérico único atribuído a um documento digital para identificá-lo de forma permanente). Muito provavelmente são totalmente fabricados”, afirma Zavascki.
Esta não é a primeira vez que informações atribuídas a McCullough são verificadas pela Lupa. Em fevereiro de 2022, viralizou um vídeo no qual esse médico havia dito que o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, sigla em inglês), dos EUA, teria verificado 21 mil casos de miocardite provocados pelas vacinas contra Covid-19. Em julho de 2023, em outro vídeo, ele sustentou que a presença do Vírus Símio 40, conhecido como SV40, em vacinas contra poliomielite, teria causado câncer em 98 milhões de pessoas nos EUA entre as décadas de 1950 e 1970. Contudo, ambas as informações são falsas.
Vacinas não provocam morte súbita
O cardiologista arritmologista, Alexsandro Alves Fagundes, presidente da Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas (Sobrac), afirma em nota enviada à Lupa que é falsa a informação de que há evidências científicas que associam a vacinação contra Covid-19 a casos de morte súbita.
“Não existe nenhum estudo controlado que comprove aumento de 220% na incidência de morte súbita”, diz o médico.
Segundo Fagundes, “miocardite, miocardiopatias congênitas, arritmias ventriculares por defeitos de canais iônicos, anomalias congênitas e uso de drogas são os principais fatores de risco associados à morte súbita em jovens”.
O médico aponta que os registros publicados não mostram aumento significativo no risco cardiovascular que justifique a suspensão de vacinas. “Muito pelo contrário, a infecção por Covid causa mais efeitos deletérios do que a vacina”, complementa Fagundes.
Durante a exibição do vídeo, Rômulo Flister não mostra a origem do dado sobre as vacinas contra Covid-19 terem provocado um aumento de 220% em morte súbita. Buscas realizadas pela Lupa em português e inglês não geraram nenhum resultado que comprovasse a informação.
“As referências apresentadas pelo médico não são estudos controlados e não corroboram o que ele afirma na chamada”, afirma Fagundes em nota.
O presidente da Sobrac encaminhou à Lupa dois artigos que embasam suas respostas. O primeiro é o Assessment of Risk for Sudden Cardiac Death Among Adolescents and Young Adults After Receipt of COVID-19 Vaccine – Oregon, June 2021-December 2022 (Avaliação do risco de morte cardíaca súbita entre adolescentes e jovens adultos após o recebimento da vacina contra a COVID-19 – Oregon, junho de 2021 a dezembro de 2022, em português), publicado no PubMed, em 11 de abril de 2024, por Juventila Liko e Paulo R Cieslak.
Na pesquisa em questão, os investigadores analisaram 1.292 certidões de óbito de residentes do Oregon (estado localizado no noroeste dos Estados Unidos) com idades entre 16 e 30 anos que morreram entre junho de 2021 e dezembro de 2022 por causas de morte cardíacas ou indeterminadas. Os dados foram cruzados com os registros do sistema de informações de imunização do Oregon. Constatou-se que nenhuma certidão de óbito atribuiu a morte à vacinação e que não se comprovou uma associação entre o recebimento da vacina de mRNA contra a Covid-19 e morte cardíaca súbita entre jovens previamente saudáveis.
Outro artigo citado por Fagundes é o Risk for Myocardial Infarction, Stroke, and Pulmonary Embolism Following COVID-19 Vaccines in Adults Younger Than 75 Years in France (Risco de infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral e embolia pulmonar após vacinas contra COVID-19 em adultos com menos de 75 anos na França), publicado no PubMed, em 23 de agosto de 2022, por Jérémie Botton, Marie Joelle Jabagi, Marion Bertrand, Bérangère Baricault, Jérôme Drouin, Stéphane Le Vu, Alain Weill, Paddy Farrington, Mahmoud Zureik e Rosemary Dray-Spira.
O estudo buscou avaliar o risco de curto prazo para eventos cardiovasculares graves (excluindo miocardite e pericardite) após a vacinação contra a Covid-19 em 46,5 milhões de adultos franceses com menos de 75 anos, entre 27 de dezembro de 2020 e 20 de julho de 2021. A pesquisa não observou associação entre vacinas baseadas em mRNA e os eventos cardiovasculares estudados.
Vacinas não causam autismo
O pediatra e infectologista Renato Kfouri, presidente do Departamento de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), em áudio enviado à Lupa, explica que não existe evidência de que alguma vacina tenha relação com o Transtorno do Espectro Autista (TEA), condição do neurodesenvolvimento que afeta a comunicação, a interação social e o comportamento.
“Não há nenhuma associação e, obviamente, isso precisa ser bastante desmentido porque tira a confiança das vacinas. Muito pelo contrário, as vacinas ao prevenir doenças previnem sequelas neurológicas que muitas vezes são associadas também a esses distúrbios comportamentais – como transtorno de déficit de atenção e espectro de autismo – e associadas aos distúrbios neurológicos, como sequelas de meningite, encefalite de sarampo e encefalite por coqueluche. Ou seja, várias doenças hoje preveníveis por vacinação”, diz o médico.
Mentira de Wakefield alimentou movimento anti-vacina
Conforme Kfouri relata no áudio, a origem da desinformação sobre o tema surgiu em 1998, quando o médico inglês Andrew Wakefield publicou um artigo na revista médica Lancet associando a vacina Tríplice Viral-MMR (contra sarampo, caxumba e rubéola) ao autismo. Porém, em 2004, o jornalista Brian Deer publicou uma reportagem no jornal The Sunday Times relatando que a pesquisa era fraudulenta.
“Quando entrevistei essa ativista, mãe de uma das crianças do estudo, vi que as informações que ela me passava não batiam com nenhum dos casos relatados na pesquisa. Achei estranho e fui procurar quem tinha financiado esse estudo. Foi então que descobri que Wakefield havia sido contratado por advogados para produzir dados contra a vacina para que eles pudessem ganhar dinheiro processando os fabricantes do produto”, disse Deer em entrevista ao jornal Estado de S. Paulo, em 2018.
Em 6 de fevereiro de 2010, a Lancet publicou uma retratação informando que a pesquisa possuía erros e que seria apagada de seus registros. Em maio de 2010, o registro médico de Wakefield foi retirado. Conforme matéria publicada pela Folha de S.Paulo, em 7 de janeiro de 2011, mesmo desacreditado, o artigo deu origem a movimentos anti-vacinação nos Estados Unidos e no Reino Unido, o que gerou surtos de contaminação por sarampo.
“É nesse lastro que os anti-vacinas caminham também para dizer que as vacinas causam autismo, como a do HPV e gripe. A [vacina contra] a Covid-19, agora, não iria ficar fora desse discurso falacioso”, comenta Kfouri.
Ainda segundo o médico, os casos de autismo vêm crescendo no mundo devido a fatores genéticos (idade mais avançada que os pais estão tendo filhos) e a fatores ambientais, como alimentação da gestante e da criança com ultraprocessados, alteração da microbiota intestinal, fatores como cigarro, uso de álcool na gestação e prematuridade.”São vários fatores que já se associaram ao aumento de TEA, além, é claro, do reconhecimento mais precoce e mais frequente. Temos hoje médicos mais treinados a reconhecer o espectro de autismo”.
As informações presentes no vídeo foram retiradas do artigo “Vaccination and Neurodevelopmental Disorders: A Study of Nine-Year-Old Children Enrolled in Medicaid“, (Vacinação e distúrbios do neurodesenvolvimento: um estudo com crianças de nove anos matriculadas no Medicaid, em tradução livre) que utiliza dados de crianças inscritas no programa Medicaid da Flórida para associar a vacinação com transtornos do neurodesenvolvimento.
O médico veterinário e virologista, Paulo Michel Roehe, da UFRGS, explica que o artigo envolve vacinas que vêm sendo aplicadas em bebês e crianças por mais de 60 anos, não apenas os imunizantes contra Covid-19.
“Enquanto que as vacinas contra Covid-19 apresentam um fator novo, ou seja, o uso de mRNA como agente imunizante, e são de efeitos a longo prazo desconhecidos, as vacinas tradicionais são preparadas com agentes inativados ou atenuados, e que têm ação protetiva bastante conhecida e testada, embora em todos os casos alguns efeitos colaterais possam ser efetivamente verificados. Mas os benefícios resultantes da vacinação em muito excedem os riscos de eventuais efeitos colaterais. Querer atribuir a essas vacinas transtornos de desenvolvimento me parece querer negar os fatos referentes aos benefícios resultantes da vacinação ao longo de todo o tempo em que elas vêm sendo aplicadas”, afirma Roehe.
Outro lado
A Lupa entrou em contato com Rômulo Flister, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria. O texto será atualizado caso o médico se manifeste.
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