Transformação digital, inteligência artificial e mudanças culturais em instituições de Saúde

Publicado originalmente em Jornal da UFRGS. Para acessar, clique aqui.

Artigo | Doutoranda no PPG em Sociologia, Bibiana Poche Florio reflete sobre a receptividade da IA por parte de instituições e profissionais do setor da saúde a partir de sua pesquisa de campo

*Por: Bibiana Poche Florio
*Ilustração: Mariana LemmertzPrograma de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS

Nos últimos anos, a proliferação de eventos voltados à inovação tem evidenciado a crescente incorporação dos processos de digitalização nas discussões de diversos setores econômicos. Áreas como agronegócio, educação, logística, saúde, marketing e indústria vêm sendo impactadas por um fenômeno amplamente conhecido como “Transformação Digital”. Nesse contexto, surge a oportunidade de explorar o papel da Inteligência Artificial (IA) no cenário econômico e seu potencial para transformar processos e dinâmicas culturais e de trabalho. Este texto se propõe a analisar, em especial, como a IA está sendo introduzida no setor da saúde e a avaliar a receptividade dessa tecnologia por parte das instituições e de profissionais da área.

Primeiramente, vale dizer que a Transformação Digital que ocorre no setor de saúde é também indicada com o termo “Saúde Digital” e seus desdobramentos. De qualquer modo, ambas as qualificações na prática indicam que o setor de saúde vem se aproximando do mundo digital e de suas tecnologias de informação e comunicação. A área da saúde não apenas se aproximou desses processos como foi empurrada para isso devido à pandemia de covid-19.

O setor é conhecido pela dificuldade de se digitalizar, comparado a outros, pois o contato direto com o paciente é bastante reconhecido e valorizado como padrão ouro de atendimento. Um exemplo disso é que apenas em 2018, com a Lei n.º 13.787, autorizou-se “a digitalização e a utilização de sistemas informatizados para a guarda, o armazenamento e o manuseio de prontuário de paciente” por instituições e que, ainda hoje, ao final de 2024, prontuários de papel são utilizados por cerca de 2.000 hospitais dos mais de 7.000 espalhados pelo país, conforme relato coletado.

Assim, é impossível abordar a Inteligência Artificial (IA) na saúde sem destacar a importância da coleta e do armazenamento de dados. Sem bases estruturadas, como prontuários eletrônicos, não há como implementar programas de IA capazes de oferecer contribuições significativas ao setor.

Nesse sentido, uma Transformação Digital mínima é indispensável para viabilizar a aplicação dessas tecnologias. A IA tem o potencial de transformar as dinâmicas de saúde ao possibilitar a análise massiva de dados, a criação de indicadores que antecipem intercorrências graves, a identificação de erros e a otimização do uso de recursos, promovendo maior eficiência e qualidade no atendimento.

Conforme observação participante, foi mencionado que o uso de IA em prontuários eletrônicos pode, por exemplo, resumir dados complexos, identificar pacientes elegíveis para estudos clínicos, agilizar autorizações de processos burocráticos e ajudar a reduzir o burnout entre profissionais da saúde.

Dado esse pano de fundo, quais seriam, então, os principais impeditivos para o uso da IA na saúde? Um dos desafios centrais é a segurança de dados, especialmente no contexto de dados pessoais sensíveis, como informações de saúde, que devem ser resguardadas em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Garantir essa proteção exige altos investimentos em infraestrutura tecnológica e cibernética, um fardo significativo para instituições como hospitais, que já operam sob elevados níveis de despesas. Além disso, há o problema da interoperabilidade entre softwares: sistemas muitas vezes não são compatíveis entre si, o que compromete a qualidade e a completude das análises de dados, limitando o potencial da IA em oferecer insights confiáveis e precisos.

E quais seriam os principais desdobramentos para profissionais e pacientes envolvidos? Para os profissionais de saúde, fala-se em “segurança psicológica” para atender pacientes baseados em IA. Ou seja, não há a confiança adequada para um uso disseminado de IA (apesar de já existirem casos de sucesso). Além disso, há um descompasso entre a formação tradicional dos profissionais e as demandas impostas pelas novas tecnologias, evidenciando um gap significativo. Assim, a dinamicidade tecnológica pode estar mais veloz que a capacidade de adaptação cultural dentro das organizações.  

Gestores, segundo observações até o momento, sobretudo do setor privado, destacam a necessidade de uma “mudança no modelo mental”, enfatizando que a “disrupção deve ser interna” e que “todos precisam estar na onda da IA, mesmo sem compreender totalmente seu funcionamento”.

Nesse cenário, aposta-se em um futuro em que a IA oferecerá algum nível de assistência aos profissionais de saúde, ainda que eles não estejam completamente preparados para explorar todo o potencial dessas ferramentas.

Do lado dos pacientes, é fundamental considerar a variabilidade geracional, regional e de acessibilidade. O acesso à Saúde Digital, como um todo, precisa ser pensado e adaptado para atender às diferentes realidades existentes. Isso inclui desafios como a limitação no acesso à internet e a dispositivos tecnológicos, as dificuldades enfrentadas por pessoas idosas para compreender e utilizar ferramentas digitais, além das desigualdades e dos descompassos na maturidade dos sistemas de saúde em diferentes regiões do Brasil.

Em conclusão, a IA representa um novo capítulo na trajetória das inovações tecnológicas, mas sua plena integração ao setor de saúde ainda depende de superar desafios significativos. O prontuário eletrônico pode ser a porta de entrada para essa Transformação Digital, mas questões como segurança, infraestrutura e adaptação cultural continuam sendo barreiras críticas. Apesar dos discursos otimistas e do marketing em torno da tecnologia, a adoção efetiva da IA deve priorizar a solução de problemas concretos e a melhoria da experiência tanto para os profissionais quanto para os pacientes. Assim como outras inovações transformaram setores, como os casos do Uber e do iFood, projeta-se que a saúde também passe por mudanças culturais profundas nos próximos anos, guiadas pela digitalização e pela Inteligência Artificial.


Bibiana Poche Florio é doutoranda no Programa de Pós-graduação em Sociologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Participa do Grupo de Estudos da Inovação (GEI/UFRGS/CNPq). Possui interesse em Estudos da Inovação, Inovação em Saúde, Transformação Digital e Sociologia Econômica. 

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