Rodrigo Constantino afirma que a vacina serve como marketing para o governo de São Paulo

Publicado originalmente em Nujoc Checagem por Márcio Granez. Para acessar, clique aqui.

Em análise carregada de ideologia, o jornalista questiona a eficácia das vacinas e das medidas de isolamento

O jornalista Rodrigo Constantino afirmou, em vídeo compartilhado pelo Instagram da deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP), que a chegada da vacina a São Paulo foi um espetáculo de marketing. Ele ironiza o que chama de “espetáculo eleitoral”, montado para a divulgação da vacina na capital paulista, e faz afirmações carregadas de viés ideológico, algumas delas falsas, sobre a pandemia e as vacinas. O vídeo chegou à equipe do NUJOC a partir de denúncia feita pelo aplicativo Eu Fiscalizo, da Fundação Oswaldo Cruz. Confira a íntegra do vídeo neste link.

O material que chegou até nós é uma análise sobre os fatos, e tem caráter opinativo. Não se trata, portanto, de uma notícia ou reportagem, mas sim da opinião do jornalista, de um comentário sobre fatos ligados à pandemia. O NUJOC não faz juízos de valor sobre a opinião das pessoas: a missão da checagem é verificar o que se sustenta nos fatos a partir da reunião de evidências. Dito isso, algumas das afirmações do jornalista sobre a pandemia estão em choque com os fatos.

Rodrigo Constantino: leitura ideológica da vacina. Imagem: Reprodução Instagram

O jornalista coloca em dúvida a eficácia da Coronavac, afirmando que o grupo de testes no gruo de risco dos idosos foi “reduzido” e que a eficácia da vacina, em torno de 50%, é muito baixa e não garante o fim da pandemia. “A vacina foi vendida como uma panaceia, a cura, mas é pouco provável que seja, ainda mais a chinesa, com uma eficácia geral de apenas 50%, o nível mínimo exigido.”

A Coronavac e todas as outras vacinas aprovadas recentemente contra a Covid-19 passaram por um processo complexo de controle de qualidade até serem aprovadas, envolvendo milhares de voluntários em meses de testes. A eficácia da Coronavac garante imunidade tanto quanto a de outras vacinas, conforme você pode conferir nesta matéria aqui.

Também ao contrário do que afirma Constantino, a vacina jamais foi vendida como panaceia pelos cientistas. Ela é parte importante do esforço por controlar a pandemia, mas as autoridades médicas e científicas mais qualificadas apontaram desde o início a necessidade de manter as medidas protetivas, incluindo lockdown, por um tempo ainda indefinido, para controlar a disseminação da Covid-19. Essas mesmas autoridades também apontam para a necessidade de seguir observando os efeitos em médio e longo prazo das vacinas, tendo em vista que o tempo de seu desenvolvimento foi acelerado devido à situação de pandemia.

Na sequência, Constantino afirma que o isolamento não mostrou eficácia, nem o uso das máscaras. “E cá estamos nós, um ano depois, na tal segunda onda, insistindo nas mesmas receitas, como lockdown, que não provou a sua eficácia”, complementa.

A afirmação, feita de maneira genérica, não leva em conta as diversas evidências de que o isolamento social apresentou eficácia quando efetivamente observado. Também ignora as evidências sobre a eficácia do uso das máscaras como medida protetiva. Esses são fatos já exaustivamente demonstrados pelas autoridades médicas e pelos cientistas, como você pode conferir nestas matérias aqui e aqui.

Ideologia – O viés ideológico da fala de Constantino transparece quando ele comenta episódio recente em que postagem do Ministério da Saúde foi classificada como fake news pelo Twitter. Ele comenta sobre o fato: “O Twitter chegou a colocar uma bandeira de alerta sobre uma postagem do próprio Ministério da Saúde sobre tratamento precoce. Os inquisidores da rede social não se acham deuses: eles têm certeza que são”. Para o jornalista, o importante a ressaltar do episódio foi não o erro do Ministério da Saúde, mas a “arrogância” do Twitter.

No episódio, o Twitter apenas aplicou sua política relativa às fake news. Já o Ministério da Saúde agiu contra a própria ciência ao estimular o tratamento precoce contra a Covid-19, sem base científica. O jornalista parece se ater mais a pendores ideológicos do que ao respeito aos fatos nesse ponto de sua fala.

Ao final do vídeo, que tem cerca de quatro minutos de duração, o jornalista atribui o que chama de “clima estranho” que vivemos atualmente à ação da mídia: “É um efeito do terrorismo psicológico midiático potencializado pelo isolamento social”, diz ele, citando o analista político Leandro Ruschel.

Os meios de comunicação de massa, a que se dá o nome genérico de “mídia”, não são um poder autônomo nem centralizado, pois são atravessados por diversos interesses, que incluem empresas privadas, governo e sociedade civil. Atribuir a crise atual de confiança nas instituições ao terrorismo da “mídia” é semelhante a atribuir os males da humanidade ao governo oculto das teorias conspiratórias. Se há interesse político na questão das vacinas no Brasil, e é claro que há, é preciso respeitar os fatos para que se tenha o mínimo de racionalidade no debate público.

Defensor do governo Bolsonaro, Costantino já se envolveu em diversos episódios polêmicos relativos à pandemia e outras questões sensíveis, como racismo e sexismo. O NUJOC Checagem já verificou as falas, também marcadas pelo viés ideológico, de outros jornalistas e comentaristas políticos sobre a pandemia. Confira aquiaqui e aqui.

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