Riscos em procedimentos estéticos com PMMA impulsionam o debate sobre a proibição do produto

Publicado originalmente em Jornal da UFRGS. Para acessar, clique aqui.

Saúde | Muito populares nas redes sociais, preenchimentos com a substância podem causar complicações graves, como insuficiência renal e necrose

*Foto: Flávio Dutra e Pietro Scopel/JU

“Este produto precisa ser proibido.” “Quantas pessoas vão ter que morrer?” “Eu sou uma vítima, assim como tantas outras.” Esses e outros comentários recebem centenas de curtidas em páginas de redes sociais focadas em alertar sobre os riscos da aplicação do polimetilmetacrilato, popularmente conhecido como PMMA.

O PMMA é uma substância sintética derivada do acrílico na forma de microesferas. Originalmente, o material era injetado para corrigir pequenas deformidades ou perda de gordura facial em pessoas com HIV. O tratamento, no entanto, demonstrou oferecer riscos e acarretar complicações ao longo do tempo, e hoje em dia existem substâncias mais modernas e seguras que são utilizadas para esse mesmo fim. Apesar disso, o material ainda é utilizado por médicos e não médicos para fins estéticos. Os principais riscos incluem reações inflamatórias, granulomas, necrose e insuficiência renal.

Segundo o cirurgião plástico e membro-titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica Alexandre Kataoka, a substância é considerada um preenchedor permanente, pois, diferentemente da toxina botulínica (botox) e do ácido hialurônico, por exemplo, ela não é reabsorvida pelo corpo após sua aplicação.

“Apesar da popularidade, o uso do PMMA envolve riscos significativos, principalmente devido à permanência no organismo”

Alexandre Kataoka

Atualmente, a aplicação do PMMA no Brasil exige treinamento e habilitação, e só pode ser utilizada em caso de correção de lipodistrofia (distribuição anormal de gordura corporal) e correção volumétrica facial e corporal. No entanto, pacientes que desconhecem os efeitos adversos da substância ainda procuram o tratamento. Além disso, profissionais da estética não habilitados utilizam o material em procedimentos, por vezes enganando os clientes e vendendo o produto como se fosse botox ou ácido hialurônico.

Recentemente, alguns casos envolvendo complicações sérias e até mesmo a morte de pacientes após a aplicação do polimetilmetacrilato suscitaram debate sobre a proibição da aplicação do material. Em janeiro deste ano, o Conselho Federal de Medicina (CFM) pediu à Anvisa a proibição do uso de preenchedores à base de PMMA. “O país vive um grave problema de saúde pública com o uso indiscriminado do PMMA para fins estéticos, inclusive por não médicos”, diz o documento enviado pelo CFM. O Conselho também destaca a complexidade do tratamento das complicações causadas pelo PMMA, “sendo impossível a remoção do material sem causar sequelas permanentes às pacientes”.

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O mercado de beleza ganhou força com as redes sociais, estabelecendo padrões de beleza que podem levar a procedimentos excessivos, em condições pouco adequadas e que podem causar problemas graves e definitivos
(Fotos: Flávio Dutra e Pietro Scopel/JU)
Procedimentos realizados por pessoas sem formação oferecem mais riscos

Em junho de 2024, um empresário de 27 anos morreu após realizar um peeling de fenol em uma clínica estética de São Paulo. O procedimento que levou à morte do paciente consiste na aplicação de um composto orgânico ácido na pele para promover a descamação do tecido e a renovação celular, eliminando cicatrizes, manchas e linhas de expressão.

Apesar da popularidade do método, o peeling de fenol é considerado um procedimento invasivo. A substância oferece riscos sérios quando entra em contato com a corrente sanguínea, o que foi o caso do empresário morto após o procedimento, podendo causar complicações para o coração, o fígado e os rins. No Brasil, dermatologistas, farmacêuticos e biomédicos têm autorização para realizar o peeling de fenol, mas tanto o Conselho Federal de Farmácia (CFF) quanto o Conselho Federal de Biomedicina (CFBM) apontam que o profissional deve possuir treinamento específico para atuação na área estética antes de fornecer o serviço.

Uma pesquisa realizada pela Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em 19 estados brasileiros aponta que as chances de complicações em procedimentos de preenchimento estéticos são mais altas quando a intervenção é feita por pessoas sem treinamento médico. Foi o caso do procedimento que levou à morte do paciente em São Paulo: a responsável pelo procedimento não possuía formação em nenhuma área da saúde ou estética, nem habilitação para aplicar o produto.

Também foi o caso de Sabrina*, de 57 anos, que pediu à reportagem que seu nome fosse alterado. Em 2020, após realizar o peeling de fenol para amenizar linhas de expressão com uma cosmetóloga, ela passou por complicações. Durante a cicatrização, um período longo e doloroso que pode durar até três meses, Sabrina experienciou fortes dores, observou o surgimento de cicatrizes que se tornaram permanentes e, após a melhora dos sintomas, o tom da pele de seu rosto ficou alterado por alguns meses.

Ela expõe, no entanto, que sua maior decepção foi a falta de amparo da profissional responsável pela intervenção. “Tanto antes quanto depois do procedimento, faltaram orientações sobre os riscos e sobre o como lidar com as complicações. Eu fiz sem ter ideia do que poderia acontecer, achando que era totalmente seguro”, conta. “Me senti desamparada e precisei buscar um médico dermatologista pra saber como lidar.”

Segundo a professora do departamento de Antropologia da UFRGS Fabíola Rohden, a falta de orientação adequada por parte dos médicos e cosmetologistas sobre todos os possíveis riscos de procedimentos e cirurgias estéticas é um dos fatores que contribui para a elevada busca por esse tipo de intervenção.

“Muitas vezes, a conversa sobre os riscos é muito reduzida, muito rápida por parte do profissional. Se os pacientes soubessem de todos os riscos, muitos talvez não realizariam os procedimentos”

Fabíola Rohden

Ela acrescenta que é importante que o paciente esteja aberto a entender cada uma das possíveis complicações para tomar uma decisão bem informada. “Às vezes, as pessoas estão tão preocupadas em realizar uma cirurgia que, para elas, parece a realização de um sonho, que talvez elas entrem num mecanismo de empurrar os riscos para baixo do tapete”, reflete.

Por que a busca por esses procedimentos segue alta?

Segundo o último relatório global de procedimentos estéticos e cosméticos da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS, na sigla em inglês), o Brasil é o país que mais realiza procedimentos estéticos cirúrgicos no mundo: foram mais de 2 milhões de cirurgias em 2022, quando o estudo foi conduzido. No ranking de procedimentos não cirúrgicos, o país fica em segundo lugar, atrás apenas dos Estados Unidos, com mais de 3 milhões de procedimentos em um ano, contando apenas aqueles realizados por cirurgiões plásticos — o número não inclui, portanto, intervenções estéticas realizadas por dermatologistas, cirurgiões bucomaxilofaciais, esteticistas e outros profissionais.

O mercado da beleza ganhou uma nova camada de força com as redes sociais. No TikTok e Instagram, influenciadoras documentam suas jornadas antes e após a realização de cirurgias plásticas, como a lipoaspiração e o implante de silicone nos seios — os dois procedimentos estéticos cirúrgicos mais comuns no Brasil, segundo a pesquisa da ISAPS. A aplicação de botox preventivo em pessoas na faixa dos 20 aos 30 anos é encorajada com o objetivo de se antecipar aos sinais naturais de envelhecimento da pele, e o preenchimento de ácido hialurônico parece uma norma padrão. A hashtag #cirurgiaplástica acumula mais de 350 mil vídeos apenas no TikTok.

Para Fabíola, diversos motivos estão por trás do número elevado de procedimentos estéticos, inclusive aqueles que oferecem riscos à saúde. Um deles é a pressão estética e a busca constante pelo aperfeiçoamento na sociedade de consumo. “Enquanto essa busca pode gerar hábitos positivos e saudáveis, a gente percebe que tem um outro lado que é bastante negativo, que é essa pressão.”

Ainda segundo a pesquisa da ISAPS, as mulheres são 86,2% das pessoas que realizam procedimentos estéticos cirúrgicos, e 85,7% das pacientes de procedimentos não cirúrgicos. Fabíola aponta que esse recorte também é importante. “A gente precisa considerar esse número, porque historicamente, culturalmente, o corpo feminino tem sido objeto de atenção e intervenção constantes.”

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Fotos: Flávio Dutra e Pietro Scopel/JU

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