Por que precisamos de uma Semana de Apoio à Amamentação Negra?

Publicado originalmente em Nós, mulheres da periferia por Mayara Penina. Para acessar, clique aqui.

Conheça a Semana de Apoio à Amamentação Negra, criada por ativistas brasileiras para evidenciar como o racismo afeta a amamentação das mulheres negras.

Reduz os índices de mortalidade infantil, protege contra desnutrição e doenças infecciosas da primeira infância, diminui os riscos de, no futuro, a criança ter doenças como obesidade, hipertensão e diabetes tipo 1, também diminui a ocorrência de depressão pós-parto. Estes são alguns dos benefícios da amamentação para as crianças e para a sociedade, pois tem reflexos na educação, na economia e na saúde da população.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) recomenda que os bebês sejam alimentados exclusivamente com leite materno até os seis meses. Após essa idade, o aleitamento deve ser mantido de forma complementar à alimentação sólida até pelo menos os dois anos.

Ainda com todas evidências científicas da importância da amamentação, segundo dados do Enani (Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil), divulgado em 2020 pelo Ministério da Saúde, apenas 45,7% das crianças recebem exclusivamente leite materno até os seis meses. Entre os bebês de um ano, em 53,1% o aleitamento era feito de forma complementar à alimentação.

Segundo o Enani, aos quatro meses, quando a licença-maternidade é garantida para todas as mulheres inseridas no mercado de trabalho formal, 60% dos bebês são alimentados exclusivamente com leite materno, porcentagem que cai para 45,7% aos seis meses.

Ao analisar os dados das mães que trabalham de maneira informal, o desmame pode acontecer de forma ainda mais precoce. Segundo a pesquisa Estatísticas de Gênero do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 2019, menos da metade (49,7%) das mulheres negras que são mães de crianças de até três anos de idade estavam inseridas no mercado de trabalho. O percentual de mães brancas de crianças da mesma idade, inseridas no mercado de trabalho, era de 62,6%

“Precisamos também considerar a história brasileira, em que as mulheres negras eram obrigadas a amamentar os bebês brancos enquanto seus próprios bebês eram vendidos. Tudo isso vai trazer significados e vivências diferentes em cada pessoa, que vai impactar nos índices de aleitamento materno”, é o que afirmam a psicóloga e consultora em amamentação, Fernanda Lopes, e a pediatra Tiacuã Fazendeiro.

Juntas, elas idealizaram a Semana da Amamentação Negra que acontece entre os dias 25 a 31 de agosto. A ação é inspirada na Black Breastfeeding Week (Semana de Amamentação Negra), criada em 2012 nos Estados Unidos por três mulheres negras –Kimberly Seals Allers, Kiddada Green e Anayah Sangodele-Ayoka– com o propósito de incentivar e apoiar mães negras no processo de amamentação, principalmente no quesito representatividade.

Em sua segunda edição, a #SAAN se apresenta com o tema “A grande pausa – descanso coletivo para empoderamento coletivo” e convida todas as mulheres para honrar a Amamentação negra como uma revolução.

Nós, mulheres da periferia conversou Fernanda e Tiacuã, que contaram sobre o projeto. Confira!

Nós, mulheres da periferia –  Por que precisamos de uma Semana de Apoio à Amamentação Negra no Brasil? 

Fernanda Lopes e Tiacuã Fazendeiro: A mortalidade infantil, um dos principais indicadores de saúde e desenvolvimento humano, é quase o dobro na população negra se comparada com a não negra no Brasil. A amamentação diminui a mortalidade infantil, protege contra desnutrição e doenças infecciosas da primeira infância. Também tem efeito protetor contra doenças cardiovasculares, como hipertensão, diabetes, infarto, que hoje são importante causa de adoecimento e morte precoce na população negra.

Para além das dificuldades encontradas por todas as pessoas que desejam amamentar, o racismo impacta diretamente na amamentação: as mulheres negras sofrem mais violência obstétrica, pior assistência pré-natal, recebem menos orientações sobre amamentação, tem menos chance de ter licença maternidade já que são a maior parte dos trabalhadores informais do Brasil, tem menores salários e, portanto, menos condições de buscar ajuda, moram principalmente nas periferias das cidades, onde há menor quantidade de serviços públicos especializados em amamentação, tem menos acesso a rede de apoio.

Nós – Quais são as ações da Semana da Amamentação Negra este ano?

Fernanda e Tiacuã – Ao longo do nosso primeiro ano de existência, temos nos preocupado em trazer visibilidade ao tema e contribuir com lactantes e profissionais da amamentação. Nesse sentido, temos o site amamentacaonegra.com.br com imagens livres para uso didático, temos participado de diversas lives e palestras sobre o tema e produzido conteúdo na nossa página do Instagram.

Nós – Como vocês enxergam o cenário da amamentação hoje no Brasil, com o uso desenfreado das fórmulas?

Fernanda e Tiacuã: Temos índices baixos de aleitamento, profissionais sem formação adequada, um grande assédio da indústria de alimentação sobre as famílias, as instituições de assistência e formação de profissionais de saúde e a própria Sociedade Brasileira de Pediatria. Toda a estrutura da nossa sociedade dificulta o aleitamento. Por exemplo, a representação de bebês quase sempre vem junto com o uso de bicos artificiais, as bonecas já vem com mamadeira. É comum creches não terem condições de receber leite humano nem de oferecer leite, seja materno ou fórmula, sem uso de bicos artificiais.

As questões trabalhistas também trazem grande impacto: como amamentar exclusivamente e em livre demanda até os seis meses se a licença maternidade é de apenas quatro meses? Isso sem falar na grande quantidade de pessoas que trabalham sem vínculos formais ou na flexibilização dos contratos de trabalho a partir da Reforma Trabalhista, que diminui os direitos.

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