Não há indícios sobre a eficácia de teste de biorressonância feito a partir da urina

Publicado originalmente em Agência Lupa por Maiquel Rosauro. Para acessar, clique aqui.

Uma nutricionista chamada Elisangela Trindade vende na internet um “teste de biorressonância” que seria capaz de detectar o que causa adoecimento nas pessoas. Para isso, é preciso enviar uma amostra de urina via Correios para que seja realizado o exame em uma clínica chamada Purity. 

Conforme a página que vende o serviço, o teste é capaz de identificar alimentos com os quais você é incompatível, parasitas que vivem dentro do seu corpo, fungos e bactérias que estão se multiplicando dentro de você, metais pesados que estão presentes no seu organismo, vitaminas e minerais que estão em falta no seu corpo e quais órgãos começaram a entrar em um processo de doença. Contudo, esse conteúdo é falso e trata-se de um golpe.

Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa​:

O teste de biorressonância é capaz de detectar o que está te adoecendo.
Para descobrir o que está te adoecendo é muito simples.
Basta enviar para a nossa clínica uma amostra da sua urina em um vidrinho comum usado em exames – você acha esse vidrinho em qualquer supermercado e nos envia normalmente pelos correios.
Assim que recebermos a sua mostra de urina, em até 7 úteis faremos o seu teste reagindo a cada um dos nossos testadores.”

– Texto em site que vende o teste de biorressonância

Falso

Lupa não encontrou nenhuma evidência sobre a existência ou eficácia de um teste de biorressonância realizado a partir de uma análise de amostra de urina. O Ministério da Saúde e um especialista na área ouvido pela reportagem contradizem as informações presentes no site que vende o produto.

Além disso, no Reclame Aqui há queixas de pessoas que compraram o exame, não receberam o resultado e não tiveram o dinheiro devolvido. 

Há, porém, o caso de uma pessoa que recebeu o resultado após ter feito uma reclamação e relatou que o exame indicou a presença de H.pylory (bactéria que se localiza no estômago do ser humano) em seu organismo. Contudo, a pessoa disse que realizou uma endoscopia recente com biópsia que não constatou a presença da bactéria. Um indício de que o teste pode ser ineficaz ou enganoso.

Teste de biorressonância

Em nota enviada à Lupa, o Ministério da Saúde relata que o teste de biorressonância é uma técnica associada a práticas de medicina integrativa e alternativa, que alega utilizar frequências eletromagnéticas emitidas pelo corpo humano para diagnosticar e tratar diversas condições de saúde. 

“Embora seja mais comumente realizado com dispositivos que analisam frequências do corpo em geral, algumas variantes podem incluir amostras de fluidos corporais, como urina, para obter informações adicionais”, diz a pasta.

Entretanto, o Ministério da Saúde indica que a técnica não é reconhecida por órgãos reguladores, como o Conselho Federal de Medicina (CFM), que considera a biorressonância magnética carente de fundamentação científica para fins diagnósticos ou terapêuticos (Processo-Consulta CFM nº22/2019-Parecer nº19/2024).

“Adicionalmente, não há registro de equipamentos de biorressonância magnética quântica na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Por isso, a fabricação, comercialização, divulgação ou utilização desses dispositivos são práticas irregulares e violam as Leis nº 6.360/1976 e nº 6.437/1977, que regulamentam os produtos de saúde no Brasil”, diz o Ministério da Saúde.

“Alimentos incompatíveis”

O site alega que o teste de biorressonância é capaz de identificar os alimentos incompatíveis para uma pessoa. Porém, o farmacêutico e professor adjunto em Toxicologia Clínica do curso de Farmácia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), André Villa de Bairros, desconhece essa possibilidade. 

“Até o presente momento, nunca soube na literatura científica que exames urinários, independente da sua natureza, permitam indicar os alimentos incompatíveis”, explica Bairros, que é coordenador do Núcleo Aplicado a Toxicologia (NAT) da UFSM e possui mestrado em Bioquímica Toxicológica pela UFSM e doutorado em Toxicologia e Análises Toxicológicas pela Universidade de São Paulo (USP).

Segundo o professor, geralmente a identificação de alimentos incompatíveis emprega técnicas bioquímicas, imunológicas e dependendo da complexidade, de biologia molecular. “Pessoas que apresentam alergias, deficiência ou superexpressão de enzimas ou algum outro cofator no organismo são propensos a apresentarem essas incompatibilidades”, diz.

“Parasitas” e “fungos e bactérias que estão se multiplicando dentro da pessoa”

De acordo com o professor, o teste de urina seria capaz de identificar um parasita proveniente de uma infecção sexualmente transmissível (IST). Ele também aponta que fungos e bactérias podem estar presentes na urina, contudo a descrição presente no site indica uma infecção grave e potencialmente fatal.

“Pela urina é possível identificar o protozoário Trichomonas vaginalis, decorrente de transmissão sexual. Fungos e bactérias podem estar presentes na urina, mas a descrição “se multiplicando dentro da pessoa” remete a uma septicemia, o que é grave e potencialmente fatal”, diz Bairros.

“Metais pesados”

O especialista explica que um exame de urina pode indicar a presença de metais pesados no organismo. Todavia, isso não significaria uma intoxicação e, além disso, há equipamentos específicos para fazer o exame.

“De fato, a urina pode indicar a presença de metais pesados no organismo de uma pessoa. Porém, isso não significa que é intoxicação, e sim uma exposição. Os equipamentos indicados para tal são a espectroscopia de absorção atômica ou o plasma indutivamente acoplado”, diz o professor.

“Vitaminas e minerais” e “órgãos em processo de doença”

“A urina pode indicar uma maior excreção de determinados minerais, que por consequência indica menor concentração no sangue. Em relação a vitaminas, não há uma relação entre exame urinário e alguma deficiência corporal até onde eu pude investigar”, afirma Bairros.

Eficácia do exame

Lupa questionou o professor André Bairros se um exame de urina enviado via Correios seria capaz de detectar todos os itens descritos no site. Segundo o farmacêutico, a identificação de metais pesados é viável desta forma, porém existe uma técnica específica. 

“Para a análise de metais pesados, isso é viável e praticável. Atualmente há uma técnica chamada dried urine spot, semelhante ao teste do pezinho, onde uma alíquota de urina é alocada em um papel e enviado seco para o laboratório para análise toxicológica de medicamentos, metais, praguicidas e drogas em geral. Porém, deve-se destacar que dependendo da substância e sua concentração, sua estabilidade em determinadas condições considerando a temperatura, umidade e exposição a luz, possibilidade de contaminação do invólucro e ciclos de resfriamento e descongelamento afetam a determinação do composto a ser analisado”, diz Bairros.

O professor ainda aponta que “há substâncias (vitaminas, drogas, medicamentos e outras moléculas) que são eliminadas na urina na forma de metabólitos e que não indicam correlação com o real status do organismo”.

Outro lado

Lupa entrou em contato com a nutricionista Elisangela Andrade e com a clínica Purity por e-mail e via Instagram (ambas não divulgam telefone para contato), mas não obteve retorno até a publicação desta matéria. O texto será atualizado em caso de manifestação da profissional ou da empresa

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