Publicado originalmente em Agência Lupa por Maiquel Rosauro. Para acessar, clique aqui.
Publicação nas redes sociais traz um vídeo que garante fazer você sair da fila do postinho a partir de um método que promete ser superior à metformina – medicamento amplamente utilizado no tratamento do diabetes tipo 2, doença crônica caracterizada pela resistência à insulina e pela produção insuficiente de insulina pelo pâncreas.
No vídeo, Alessandra Milward, que se apresenta como naturopata (profissional que trabalha com terapias naturais para promover a saúde e o bem-estar), apresenta uma “solução” que promete reverter o diabetes tipo 2. Ela diz que a “inflamação silenciosa que sufoca o pâncreas é a real e única causa do tipo 2” e pessoas que adquiriram seu método “finalmente reverteram a diabetes tipo 2 e deixaram de lado a insulina, metformina ou a gliclazida”.
Alessandra orienta aos usuários das redes sociais a clicarem no link que está abaixo do vídeo, que direciona para a página de um produto chamado CureitMais, o qual alega ser 100% natural e ainda auxilia na remissão do diabetes tipo 2, e que pode ser adquirido por valores entre R$ 199 a R$ 561.
Conforme consta na página, o produto possui três componentes únicos “Curcumina RCM”, “Colágeno Tipo II” e “MSM”, além de possuir uma “fórmula proprietária do Brasil pela Anvisa que certificou e aprovou todo o processo”. É falso.
Por meio do projeto de verificação de notícias, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

Doutora, por que ao invés de passar a metformina os médicos do postinho não mostram essa solução da senhora? Essa é uma pergunta que eu sempre recebo, afinal depois de ter falado sobre a inflamação silenciosa que sufoca o pâncreas ser a real e única causa da [diabetes] tipo 2, centenas senão milhares de pessoas ficaram desesperadas querendo saber um pouco mais sobre isso. E foi quando eu gravei aquele videozinho explicando sobre o método suíço que pode ser feito em casa e que reverte a tipo 2 em semanas. E, desde lá, foi eu comecei a ficar conhecida em meio aos diabéticos porque se tornou quase que um movimento social onde cada pessoas que utilizava do método e via formigamento indo embora, cansaço melhorando e, o principal, medindo seu açúcar e ele batendo 80, 95 pontos pela manhã, começaram a divulgar seus resultados na internet e indicando esse meu vídeo. E em questão de semana, ele já estava com 1,8 milhão de visualizações e eu recebi nesse tempo mais de 70 mil mensagens, na minha rede social, de pessoas que conseguiram, finalmente, reverter a tipo 2 e deixaram de lado a insulina, metformina ou a gliclazida. E eu acredito que ganhei esse reconhecimento todo graças a essa solução que, inclusive, vai passar no jornal esta semana ainda, só ainda não me informaram o dia. E depois de tantos pedidos eu coloquei mais uma vez o link, logo aqui embaixo, onde está escrito “assistir mais”. Por que assim qualquer diabético pode clicar e obter esse vídeo, aprender sobre o método e se livrar da tipo 2. Também gostaria de lembrar que o vídeo só vai ficar no ar até o dia de hoje porque como a notícia vai passar no jornal ainda esta semana, eu assinei um contrato para o vídeo ficar até hoje no ar. Por isso, se tiver algum diabético do tipo vendo, o ideal é ver esse vídeo agora ou ainda hoje. Basta clicar onde está escrito “assistir mais” e ir direto”
– Fala em vídeo que, até 10h19 do dia 4 de fevereiro de 2025, havia sido compartilhado por 3,5 mil usuários no Facebook
Falso
A causa do diabetes tipo 2 não pode ser creditada unicamente a uma inflamação silenciosa no pâncreas. Além disso, o produto oferecido não possui efetividade comprovada ou fórmula conhecida para curar a doença, o que pode ser um risco para pacientes com diabetes tipo 2.
O Ministério da Saúde, em nota enviada à Lupa, explica que a causa do diabete melito tipo 2 (DM2) “não é unicamente uma inflamação do pâncreas, mas sim uma conjunção de fatores de risco cardiovascular complexos, sistêmicos, que se retroalimentam e que culminam nos distúrbios de secreção de insulina característicos do DM2”.
O médico Renato Redorat, coordenador do Departamento de Diabetes, Exercício e Esporte da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), complementa que não existe uma inflamação única causadora ou uma causa única que vai levar ao diabetes 2. “O que leva o paciente a desenvolver diabetes tipo 2 é mais complicado, pois envolve questões genéticas e ambientais. Mas, sem dúvidas, o aumento de peso está intimamente ligado ao desenvolvimento do diabetes tipo 2”, informa o profissional em nota.
Redorat refuta a ideia de que o produto oferecido na publicação irá reverter a doença e fazer os pacientes deixarem de lado medicamentos como insulina, metformina ou a gliclazida.
“Não existe cura para diabetes em nenhuma hipótese. O que existe é remissão. E só podemos falar em remissão quando a pessoa realiza a medição da média da glicose, um exame chamado hemoglobina glicada, em duas verificações a cada seis meses. Se o resultado for inferior a 6,5 nas duas verificações e o paciente não estiver tomando medicamentos, então podemos falar em remissão. Até hoje, nenhum produto natural teve estudo para mostrar que isoladamente levaria à remissão após um acompanhamento por mais de doze meses, afirma o médico.
Outro lado
Em nota enviada à Lupa, Alessandra diz que as informações divulgadas estão corretas e – ao contrário do que diz no vídeo – aponta que a inflamação no pâncreas é uma das causas do diabete tipo 2, e não a única.
“O que afirmamos em nossas postagens e materiais não é mentira, e sim uma das causas. Para ser mais didático as pessoas e não ficar mais extenso colocamos alguns pontos, como a inflamação no pâncreas, vindo da inflamação silenciosa, que não tratada gera uma inflamação crônica e causa vários tipos de doenças, como o Diabetes Tipo 2”, diz a naturopata.
Dúvidas sobre eficácia
A Lupa apurou que além do CureitMais, Alessandra também vende on-line o PureGlico. Conforme as informações presentes em ambas as páginas, os produtos atuam contra o diabetes, possuem os mesmos preços e são oferecidos como suplemento alimentar em cápsula.
Enquanto o CureitMais “auxilia na remissão do diabetes tipo 2”, o PureGlico é “naturalmente poderoso contra a diabetes tipo 2”, alegam as páginas de ambos os produtos. Em comum, eles contam com “curcumina RCM”, “colágeno tipo II” e “MSM”.
Porém, Redorat explica que desconhece a existência de um estudo randomizado – tipo de pesquisa científica em que os participantes são distribuídos de forma aleatória em dois ou mais grupos para comparar diferentes intervenções – e controlado com essas substâncias separadas ou juntas que levem à remissão do diabetes ou que garantam o seu uso prolongado quanto à segurança cardiovascular.
“Sobre esta fórmula, não há estudo que os três componentes juntos teriam benefícios tanto para o controle da glicemia quanto para a remissão do diabetes tipo 2. O único estudo é com o curcumin associado ao medicamento metformina, mais uma dieta rígida e a uma perda de peso, ao mesmo tempo, conseguiu fazer um controle da glicemia e mostrou que essa associação reduziu processos inflamatórios. Importante lembrar que nesse estudo o paciente manteve o medicamento para diabetes”, alerta Redorat.
Ao analisar o site do CureitMais, o médico observou que as imagens não indicam a composição de cada componente da fórmula e que é preciso tomar cuidado com o excesso de substâncias naturais, o que pode fazer mal.
“Elas podem, inclusive, causar interação com medicamentos, reduzindo a eficácia deles. Ou seja, além de cuidados com produtos naturais, jamais devemos substituir os medicamentos recomendados pelo médico, a não ser por orientação desse profissional”, explica o especialista.
Outro lado
Sobre a promessa de cura do diabetes tipo 2, em nota, Alessandra afirma que “os produtos PureGlico e CureitMais foram desenvolvidos com base em evidências científicas e combinam ingredientes que auxiliam na remissão do diabetes tipo 2”, citando diferentes artigos sobre os benefícios individuais de “curcumina RCM” para pré-diabetes (1 e 2), “colágeno tipo II” (1 e 2), “MSM” (1, 2 e 3) e ainda “própolis verde de alecrim” (1, 2, 3 e 4) – esse último consta na página do PureGlico.
Ela afirma ainda que “os três componentes juntos auxiliam na remissão do diabetes tipo 2. O suplemento CureitMais tem como diferença o colágeno tipo 2 (e mais a curcumina e o MSM). Como mencionado no site da Sociedade Brasileira de Diabéticos, a saúde óssea do paciente com diabetes tipo 2 precisa de cuidado: Diabetes mellitus e saúde óssea – Sociedade Brasileira de Diabetes”.
Em nota enviada à Lupa, o Departamento de Nutrição da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) explica que existem evidências sobre o efeito benéfico no uso de suplementos naturais, particularmente em doenças relacionadas ao estresse oxidativo e inflamação, como o DM2. Porém, aponta que o cuidado do paciente com diabetes envolve terapia medicamentosa e modificações no estilo de vida, como alimentação saudável e prática de atividade física.
“A curcumina e o extrato de própolis verde têm sido estudados como substâncias antioxidantes com poder anti-inflamatório e que podem auxiliar no tratamento desta condição, de forma coadjuvante, desde que haja também uma mudança no estilo de vida. É importante lembrar que os estudos publicados até o presente momento evidenciam, além da quantidade mínima necessária dessas substâncias para atingir um resultado positivo no controle da glicemia, a importância de manter o tratamento adequadamente”, diz a SBD.
A entidade argumenta que uma revisão sistemática evidencia os efeitos benéficos da curcumina no tratamento do DM2, mas ressalta que ainda é necessário conhecer sua dose efetiva, sugerindo ensaios clínicos randomizados controlados mais robustos e rigorosos para estabelecer o papel da curcumina na terapia do DM2.
“Neste mesmo sentido, em um ensaio clínico controlado por placebo, a suplementação de própolis por 60 dias não teve efeito sobre a glicose no sangue e o status antioxidante em pacientes diabéticos. Por outro lado, a suplementação diária com doses maiores e por períodos mais longos parece ajudar a controlar melhor o estado glicêmico e pode ser usada como terapia auxiliar nesses pacientes”, afirma a SBD.
A Sociedade Brasileira de Diabetes conclui que “apesar dos resultados positivos devemos ter muita cautela ao consumir produtos que prometem a cura do diabetes, visto que além da falta de transparência quanto à quantidade das referidas substâncias no produto, o tratamento desta condição envolve vários fatores e um acompanhamento adequado por equipe multiprofissional devidamente capacitada”.
Registro na Anvisa
Consultas realizadas no site da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em 6 de fevereiro, na seção de alimentos, não resultaram em registros tanto para o CureitMais quanto para o PureGlico.
Em 1º de setembro de 2024, entrou em vigor a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 843/2024, que havia sida publicada em fevereiro do ano passado pela Anvisa, a qual determina que todos os suplementos passam a ser regularizados pelo órgão, via procedimento de notificação. Ou seja, o fabricante notifica à Anvisa as informações sobre o alimento para poder comercializar.
“No entanto, para os suplementos que já estavam no mercado (e que eram anteriormente regularizados nas vigilâncias sanitárias locais por meio do Comunicado de Início de Fabricação) há um período de transição: a RDC 843/2024 prevê um período de regularização até 01/09/2025 para produtos que já estavam regularizados antes da entrada em vigor da nova regra”, diz a Anvisa em nota enviada à Lupa.
O órgão também explica que é possível fazer uma pesquisa dos produtos já notificados via Site da Anvisa, neste link: https://consultas.anvisa.gov.br/#/alimentos/ (é preciso selecionar a categoria “Suplementos” e “Situação Produto: Ativa”).
“Essa pesquisa não será exaustiva, já que estamos no prazo de adequação das marcas que já estavam no mercado”, pontua a Anvisa. “Importa lembrar também que suplementos alimentares devem seguir regras de composição e de ingredientes permitidos (RDC nº 843/2024 e Instrução Normativa (IN) nº 281/2024) bem como só podem veicular alegações permitidas em legislação (IN nº 28/2018)”, conclui o órgão em nota.
Outro lado
Em nota, Alessandra afirma que os suplementos seguem a RDC nº 27/2010, antiga normativa que isentava suplementos vitamínicos ou minerais de apresentarem o registro sanitário.
“Com as novas diretrizes da Anvisa para suplementos, já estamos providenciando os estudos necessários para o registro formal, conforme as exigências atualizadas. Já iniciamos o processo dentro do prazo legal da Anvisa, visto que é uma nova lei, para a obtenção do registro”, diz a naturopata. “Nosso compromisso é com a seriedade, a ciência e o bem-estar dos consumidores”, complementa.
Alessandra também encaminhou à Lupa cópias dos Comunicados de Início de Fabricação, do CureitMais (datado de 1º de março de 2024) e do PureClico (datado de 2 de agosto de 2024), enviados à Anvisa. Nos documentos estão listados os ingredientes e a informação nutricional, dados que não estão presentes nas páginas dos produtos na internet.

Informações presentes no Comunicado de Início de Fabricação do CurreitMais. Foto: Reprodução

Informações presentes no Comunicado de Início de Fabricação do PureGlico. Foto: Reprodução
A naturopata também sustenta, na nota, que o laboratório que fabrica os produtos é devidamente regulamentado pela Anvisa. Esta informação, contudo, não está correta. Nos Comunicados de Início de Fabricação é possível constatar que o fabricante é a Deprol Indústria de Comércio, de Marechal Floriano (ES). Uma busca por empresas no site da Anvisa não resultou em informações sobre o laboratório.
Em contato via telefone, a assessoria de imprensa da Anvisa explicou que a fiscalização dos fabricantes de suplementos ocorre localmente. Em nota enviada à Lupa, a assessoria de imprensa da Secretaria Estadual de Saúde do Espírito Santo (SESA) confirmou que a empresa está regularizada. “A Vigilância Sanitária Estadual informa que a empresa Deprol Indústria e Comércio de Suplementos tem licença sanitária válida até julho deste ano”, afirma a pasta.
Pacientes precisam ficar atentos
No Reclame Aqui há relatos de pessoas que compraram esses produtos (CureitMais e PureClico) e buscam reaver o dinheiro gasto porque as cápsulas não fizeram efeito. Redorat explica que quem fizer uso de “suplementos alimentares naturais” deve comunicar seu médico.
“O perigo é a pessoa realizar uma substituição, deixar os remédios e usar essas fórmulas e as condições associadas ao diabetes deixarem de ser tratadas. Por isso que a substituição, ou uso concomitante, deve ter orientação de um profissional de saúde especializado e que tenha conhecimento de medicamentos”, explica Redorat.
O Ministério da Saúde, em nota, avalia que é preciso cautela quando não há conhecimento da fórmula do produto.
“Não tendo efetividade comprovada, a inércia terapêutica pode levar ao agravamento do diabetes e, diante do uso sem orientação médica, considerando que a fórmula contém fitoterápicos e não temos conhecimento da fórmula, há de se ter cautela, pois determinadas substâncias podem provocar interações medicamentosas que comprometam a segurança e a eficácia no uso de medicamentos hipoglicemiantes ou qualquer outro medicamento de uso contínuo”, diz a pasta.
Outro lado
Alessandra, em nota, diz que, nos últimos dois anos, apenas 20 reclamações foram registradas no Reclame Aqui, sendo a maioria relacionada ao prazo de entrega. “Dessas 20 reclamações, apenas quatro clientes afirmaram que não voltariam a comprar, como é mostrado no próprio site do Reclame Aqui”.
Ela também explica que os produtos possuem garantia de 90 dias para devolução sem burocracia e os clientes recebem junto com o suplemento um e-book informativo sobre a remissão do diabetes 2.
“Além disso, tanto em nosso Site Oficial quanto no Protocolo e Atendimento ao Cliente, informamos claramente que: “A suspensão ou redução dos medicamentos somente poderá ocorrer se o médico responsável autorizar. Nosso Site Oficial deixa claro que o suplemento é um auxílio para a remissão do Diabetes Tipo 2, e não um substituto para tratamentos médicos”, afirma a naturopata.
A informação sobre o médico responsável optar por suspender ou reduzir os medicamentos foi acrescentada recentemente à página do PureGlico. Uma captura de tela realizada pela Lupa em 16 de janeiro mostra que esse dado não existia até então. Além disso, essa informação não consta na página do CurreitMais.

Print da página do PureGlico, em 16 de janeiro, capturada via WayBackMachine. Foto: Reprodução

Print da página do PureGlico, em 6 de fevereiro, contendo as novas informações sobre a avaliação do médico. Foto: Reprodução
Por fim, Alessandra aponta que seu trabalho é pautado na ciência e possui regulamentação e transparência com os consumidores. “Seguimos as diretrizes da Anvisa, utilizamos ingredientes com comprovação científica e fornecemos informações claras e responsáveis sobre o uso dos suplementos”, finaliza.