Mulheres jovens, de baixa escolaridade e em insegurança alimentar consomem mais ultraprocessados no pós-parto

Publicado originalmente em Agência Bori. Para acessar, clique aqui.

Highlights

  • Pesquisa da Ufal analisou adesão de mulheres de Alagoas a padrões alimentares saudáveis e ultraprocessados durante 12 meses após o parto
  • Cada ano de estudo reduz as chances de consumo de ultraprocessados no pós-parto em 19% e cada ano de idade, em 8%
  • Insegurança alimentar grave eleva em 55% a probabilidade de mães no pós-parto aderirem a padrões alimentares ultraprocessados

Pesquisa realizada com puérperas da região Nordeste do Brasil mostra que, quanto menor a escolaridade e a idade das mães e maior a insegurança alimentar entre elas, maior é o consumo, no pós-parto, de alimentos ultraprocessados – formulações industriais que, além de altas concentrações de açúcar, sódio e gorduras, apresentam substâncias químicas como conservantes, acidulantes, corantes e estabilizantes, que alteram sabor, textura, cor e conservação. A conclusão está em artigo de pesquisadores da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) publicado na sexta (29) na “Revista Brasileira de Saúde Materno-Infantil”.

Para cada ano adicional de idade, a chance de adesão ao padrão alimentar ultraprocessado diminui em 8%, enquanto cada ano de estudo diminui essa chance em 19%. Por outro lado, a cada nível de insegurança alimentar – do mais leve ao mais grave –, as chances de consumir ultraprocessados crescem 55%.

Ao longo de 12 meses após o parto, a pesquisa analisou o padrão alimentar das 240 mulheres que deram à luz entre fevereiro e agosto de 2017, no hospital público da cidade de Rio Largo, Alagoas. A maioria das mães da amostra (67%) eram de baixa renda, tinham a partir de 20 anos de idade (70%) e mais de 8 anos de estudo (60%).

A pesquisa avaliou a percepção de insegurança alimentar dessas mulheres, ou seja, a dificuldade de acesso à alimentação de qualidade e em quantidades suficientes. Neste caso, 29% das mulheres apresentaram insegurança leve — que se refere ao comprometimento da qualidade da alimentação; 12%, insegurança moderada — com restrição na quantidade de alimentos ingeridos — e cerca de 6%, insegurança grave — comprometimento da qualidade e das quantidades, podendo incluir a fome –, segundo a medição da Escala Brasileira de Insegurança Alimentar.

O estudo também identificou, com base nas respostas sobre frequência de consumo, dois padrões alimentares. O primeiro é o padrão predominantemente saudável, que inclui frutas, verduras, proteínas e leites. O segundo tem predominância de ultraprocessados, com presença de produtos como doces, salgadinhos, macarrão instantâneo, refrigerantes e sucos artificiais. Os ultraprocessados oferecem diversos riscos à saúde humana, aumentando o risco de desenvolver doenças crônicas como hipertensão e diabetes.

Para a pesquisadora da Ufal Risia Cristina Egito de Menezes, uma das autoras do artigo, as condições socioeconômicas são determinantes para o padrão alimentar das mães no pós-parto. ‘’Para muitas famílias, os ultraprocessados são financeiramente mais viáveis, embora insuficientes para garantir uma nutrição adequada”, explica. “Essa situação é especialmente preocupante entre mulheres em idade reprodutiva, dado o aumento das demandas nutricionais nesta fase do ciclo de vida”, continua, citando o risco de má nutrição entre as puérperas, que precisam atentar à sua própria alimentação e à do bebê.

A pesquisadora alerta que é urgente o reforço de políticas públicas voltadas para a rede de atenção à saúde da mulher. Neste sentido, a equipe pretende seguir pesquisando os padrões alimentares de grupos em situação de vulnerabilidade.

Menezes também cita medidas do poder público que podem facilitar o acesso à alimentação saudável, como a implementação de hortas comunitárias nas cidades, além de programas de assistência alimentar e de transferência de renda. “Subsídios fiscais para alimentos in natura e minimamente processados, aliados à taxação de ultraprocessados, que já mostram bons resultados em outros países, também poderiam favorecer o acesso a alimentos saudáveis e desestimular o consumo de opções prejudiciais, promovendo um ambiente alimentar saudável’’, finaliza.

DOI: https://www.scielo.br/j/rbsmi/a/d8qt7swTdLQ7qyyFzgMt9BK/?lang=pt

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