Ligas acadêmicas deixam de ser exclusividade da Medicina e proporcionam autonomia a estudantes

Publicado originalmente em Jornal da UFRGS. Para acessar, clique aqui.

Extensão | Construídas e mantidas por graduandos, ligas oferecem atividades de educação em saúde com viés multiprofissional

*Foto: Arquivo Liga Acadêmica de Enfermagem/Arquivo

Foi durante as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em maio deste ano que surgiu a Liga Acadêmica de Restrições Alimentares da UFRGS (LARA). Enquanto a comunidade universitária suspendia aulas e cedia estruturas dos câmpus para receber doações e acolher desabrigados, as faculdades de Medicina e Direito da UFRGS se uniram para criar o projeto SOS Alérgicos do Rio Grande do Sul, voltado às pessoas em abrigos que sofriam com a falta de opções para alimentação por conta de restrições alimentares, como alergias ou a doença celíaca, por exemplo.

A nutricionista e doutoranda do Instituto de Ciência e Tecnologia de Alimentos da UFRGS (ICTA) Fabiana Magnabosco, uma das fundadoras do projeto, conta que a preocupação com a alimentação de pessoas com restrições alimentares em abrigos se deu pela gravidade dos efeitos adversos que o consumo de determinados alimentos pode causar. “Uma pessoa com restrição alimentar muitas vezes não pode consumir nem traços daquilo a que ela tem sensibilidade, então elas não podiam comer a comida oferecida no abrigo”, explica. “Dependendo do caso, o consumo poderia levar à morte.”

Ao longo das semanas em que a água das enchentes tomou conta de cidades inteiras, as participantes do projeto arrecadaram, por meio de doações e mobilização, cerca de 16 caminhões cheios de alimentos específicos para pessoas com restrições alimentares, como pães e biscoitos sem glúten e produtos sem lactose.

Quando a água baixou e, aos poucos, a rotina voltou ao normal, o projeto se estabeleceu como liga acadêmica. A estudante de Nutrição e membro da Liga Paula Bandeira, que é celíaca e intolerante à lactose, conta que, agora, o foco da LARA é mapear os membros da comunidade acadêmica com alguma restrição alimentar e tornar a Universidade um lugar mais acessível a essas pessoas. “A gente entende a acessibilidade de uma maneira mais ampla, pensando que se alimentar é um direito básico”, reflete. “É fundamental que, numa universidade federal e que visa à acessibilidade, não sejamos invisíveis.”

As ligas além da Medicina

Historicamente, as ligas acadêmicas são associadas ao curso de Medicina. Ativa ainda hoje, a primeira fundada no Brasil, em 1920, foi a Liga de Combate à Sífilis, vinculada à Faculdade de Medicina da USP e voltada à conscientização e prevenção da sífilis além dos muros da universidade. Até hoje, as ligas mais comuns são aquelas que tratam de especialidades médicas, como a pediatria ou a cardiologia, e, apesar de abordarem e estimularem o conhecimento e a especialização de estudantes em assuntos multidisciplinares, que englobam também a enfermagem e a biomedicina, por exemplo, muitas ainda são exclusivas para estudantes de Medicina.

Mais recentemente, no entanto, outros cursos da área da saúde têm voltado sua atenção para as possibilidades extensionistas e a abertura de portas que a participação em uma liga acadêmica proporciona aos ligantes. E foram exatamente essas as razões que motivaram a criação da Liga de Enfermagem da UFRGS (LAEnf) em 2016. Primeira liga voltada aos estudantes de Enfermagem no Rio Grande do Sul, a LAEnf hoje conta com 12 ligantes e desenvolve projetos de extensão e pesquisa sobre temas variados dentro de sua área de interesse, como a saúde mental ligada à enfermagem e possibilidades de trajetória profissional para enfermeiros.

Para a vice-presidente da liga e estudante de Enfermagem, Laura da Silva, a recente expansão das ligas acadêmicas para além da Medicina representa o fim de um histórico de exclusão e uma maior valorização dos estudantes de outros cursos da área da saúde cuja importância muitas vezes não é devidamente reconhecida. “A gente quer dar esse protagonismo pros estudantes”, explica.

“A saúde é composta por todos, e todo mundo precisa ter essa oportunidade”

Laura da Silva

Além disso, a presidente da LAEnf e também estudante de Enfermagem Mirela Nunes enfatiza a importância da liga no processo de ganho de independência e incentivo à autonomia dos estudantes participantes. Apesar de contar com duas professoras orientadoras, Mirela destaca que a liga é totalmente construída pelos ligantes — e só se mantém por conta deles. “Os alunos que dão a ideia, os professores dão só o suporte”, destaca.

Focada principalmente nos projetos extensionistas, atualmente a LAEnf busca, acima de tudo, o reconhecimento do profissional da enfermagem e a conscientização acerca da profissão. “É uma forma de mostrar tanto pros alunos quanto pra comunidade a importância e o que faz um enfermeiro”, enfatiza Mirela. 

A vice-presidente Laura ainda destaca que, se tratando da responsabilidade da enfermagem, a comunidade e a promoção de saúde sempre são o foco. “A gente sempre aprende, desde o primeiro semestre, que a enfermagem é comunidade”, conta. “Nós pensamos muito sobre como levar educação em saúde para a sociedade; a gente visa projetos que também são fora da comunidade acadêmica.”

Foto: Liga Acadêmica de Enfermagem/Arquivo
As ligas e a extensão

Assim como a LARA e a LAEnf, a Liga do Sangue (LiSan) da Universidade Federal de Ciências de Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), fundada em 2015, também é descentralizada da Medicina e focada nas práticas extensionistas e em exportar conhecimento sobre saúde para fora do ambiente acadêmico. Voltada principalmente para estudantes do curso de Biomedicina, a LiSan estimula seus ligantes e o resto da comunidade universitária a conhecer e se especializar na hemoterapia, que consiste no uso terapêutico do sangue para prevenir e tratar doenças.

Apesar de, no princípio, o nome Liga do Sangue não ter sido bem aceito — foi, inclusive, considerado “horroroso” — a estudante de Biomedicina e participante da liga Carolina Villar destaca a importância de um nome acessível para que haja sucesso na aproximação que a liga pretende fazer com a comunidade externa. “É um nome de fácil acesso pra comunidade, e nosso objetivo é passar a informação do que é o sangue e a hemoterapia de uma forma mais acessível”, explica.

Um dos carros-chefes da liga é a conscientização sobre a doação de sangue e de medula óssea dentro e fora da Universidade. O grupo trabalha longitudinalmente em conjunto com o Hospital de Clínicas de Porto Alegre em uma campanha para incentivar o cadastramento no Registro Brasileiro de Doadores Voluntários de Medula Óssea (Redome) do Instituto Nacional de Câncer (Inca), que reúne mais de 5 milhões de possíveis doadores de medula óssea e identifica potenciais compatibilidades. “A gente começa o trabalho pelas redes sociais para impactar o maior número de pessoas possível e disseminar a informação”, conta Carolina. “A gente já fez campanhas em que a gente conseguiu somar 400 doadores.”

A professora Sandrine Wagner, que coordena a LiSan, destaca que, mesmo entre os cursos da área da saúde, o desconhecimento sobre a hemoterapia e a doação de sangue e medula ainda é comum. Por isso, a liga também trabalha extensivamente dentro da UFCSPA para conscientizar e captar novos doadores. “A partir de vários encontros e conversas, quiz de perguntas e respostas, as pessoas vão se identificando como possíveis doadores e desmistificando algumas coisas”, observa.

Ela ainda acredita que, através desses trabalhos, a liga também capacita outras pessoas para transmitir conhecimento sobre os assuntos que a LiSan aborda em suas atividades. “Às vezes, o aluno descobre algum impeditivo pra ser doador, mas ele ainda tem a chance de levar essa informação adiante.”

Acima de tudo, Sandrine destaca o potencial da liga de formar estudantes e futuros profissionais dedicados e mais capacitados para trabalhar com a hemoterapia e a conscientização sobre a doação de sangue e medula óssea. Ela enfatiza, além disso, como a liga só segue existindo e atingindo tantos resultados por conta desses mesmos estudantes. “A gente só sobrevive com a entrada de novos ligantes”, enfatiza. “São eles que mantêm circulando essa transmissão de conhecimento e da importância que é a Liga do Sangue nesse contexto de saúde pública.”

Primeira ação da Liga do Sangue de cadastro no REDOME, em parceria com o Hospital de Clínicas de Porto Alegre – 2023 (Foto: Arquivo LiSan)
Atividade da ação anual da Liga do Sangue na casa de apoio Madre Ana, com crianças em fase de tratamento nos hospitais da Santa Casa de Porto Alegre (Foto: Arquivo LiSan)

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