Publicado originalmente em Agência Lupa por Evelyn Fagundes. Para acessar, clique aqui.
Circula nas redes sociais um vídeo que mostra homens afirmando que conseguiram retirar suas armas de uma delegacia. Segundo a legenda do post, a Justiça determinou a devolução das armas de grosso calibre aos criminosos. É falso.
Por WhatsApp, leitores sugeriram que o conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

Justiça determina devolução de armas de grosso calibre a membros de organização criminosa que haviam sido apreendidas pela Polícia.
Que país é esse ???
É brincadeira.
Estamos perdidos…! É mais uma prova que o Brasil está sem governo e sem lei e sem autoridade…
– Legenda do vídeo que circula nas redes sociais
Falso
O vídeo não mostra criminosos que receberam armas apreendidas e depois devolvidas pela polícia. Na realidade, o que os homens exibem na gravação não são armas de fogo de grosso calibre, mas sim equipamentos considerados pela legislação como “lançadores de projéteis de plástico maciços (airsoft)”, isto é, armas de pressão de um tipo que não possui restrição de circulação, diferentemente das armas de fogo convencionais.
As armas de pressão exibidas pelos influenciadores, conhecidos como Jean Youtuber e Erick Menezes, são utilizadas pelos homens em conteúdos publicados na internet. No Instagram, Jean se pronunciou sobre a desinformação. Segundo ele, as armas são de “CO2”, ou seja, disparam equipamentos de pressão por ação de gás comprimido, não balas convencionais.
Vale destacar que, conforme define o Exército, “as armas de pressão, por ação de mola ou gás comprimido, não são armas de fogo, atiram setas metálicas, balins ou grãos de chumbo, com energia muito menor do que uma arma de fogo”.
Segundo o site Acorda Cidade, – portal de Feira de Santana (BA), cidade onde o caso aconteceu – a Polícia Militar identificou o armamento no carro onde os influenciadores estavam. Na abordagem, as armas foram encaminhadas para a delegacia para dar início a uma perícia a fim de identificar se os equipamentos eram de fogo ou de pressão.
Jean diz que as armas foram apreendidas e periciadas pela polícia, que concluiu que o armamento era de pressão. “Minhas armas de airsoft haviam sido apreendidas, foram levadas para a delegacia da Polícia Civil, foram periciadas para determinar que eram armas de airsoft. Foram todas periciadas e todas liberadas”.
Os influenciadores disseram que deram início a processos jurídicos para a retirada dos posts falsos. “Nosso trabalho é mostrar que o crime não compensa através de vídeos e encenações. Cortaram a parte que eu falei que era equipamento de airsoft e compartilharam como se a gente estivesse envolvido [com facções criminosas] e como se as armas fossem armas de fogo”, disse em outro vídeo.
Gravações ficcionais que mostram armas são chamariz para desinformação
Não é a primeira vez que a Lupa observa que vídeos que exibem armas são utilizados em posts desinformativos que criam narrativas associando as pessoas a facções criminosas. No final de 2023, circulou nas redes sociais um vídeo que mostrava homens armados comemorando a chegada do “chefe da favela”, o chamado Nego Tim. No entanto, foi verificado que a filmagem fazia parte de uma websérie.
Na época, a Lupa entrevistou Jeferson Costa Cordeiro, produtor do audiovisual ficcional “Dois Lados”, e ele afirmou que o intuito do projeto era mostrar ao público que o crime não compensa, evidenciando os riscos e os prejuízos trazidos pelo tráfico. “O intuito é resgatar vidas do crime, mostrar a realidade do que acontece no dia a dia dentro da favela. A gente viu a oportunidade na plataforma YouTube para lançar nossa websérie”, contou.
Em 2020, circulou nas redes um vídeo em que homens portavam armas e, segundo a legenda do post, o registro seria o resultado da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de proibir operações policiais em comunidades do Rio durante a pandemia da Covid-19. A Lupa verificou que, na realidade, o conteúdo mostrava os bastidores das gravações da série Arcanjo Renegado, coprodução do Globoplay e do Multishow com a AfroReggae Audiovisual.
Conteúdo similar foi verificado por Aos Fatos, Reuters e Estadão Verifica.