Iniciação científica pode ser um ótimo primeiro passo na carreira em pesquisa

Publicado originalmente em Jornal da Universidade por Mírian Barradas e Leonardo Machado. Para acessar, clique aqui.

Formação | Mesmo impactadas pela pandemia, atividades de IC ajudam na preparação de cidadãos que entendem e respeitam a ciência – além de ser uma porta de entrada para a atuação como cientista

*Foto de capa: Arquivo Pessoal/ Maria Victoria de Vargas/2020 – A doutoranda no Programa de Pós-graduação em Ciências Biológicas da UNIPAMPA, Maria Victoria de Vargas, em viagem à Antártica para coleta de Polytrichum juniperinum, planta que estuda em sua pesquisa

Muitas vezes o primeiro contato dos estudantes com a carreira científica, a iniciação científica (IC) é vista como “a base da pesquisa”, sobretudo acessada por meio de vários programas que oferecem bolsas para estudantes de Ensino Médio e graduação. Quem já passou ou está na IC destaca que é o momento para ‘se sentir cientista’ pela primeira vez, entender como a ciência é feita e aprender mais sobre a universidade e até mesmo a área de atuação fora da academia.

Hoje docente do Colégio de Aplicação da UFRGS e orientador de iniciação científica, Victor Hugo Oliveira foi bolsista durante a graduação em Geografia. Segundo o docente, a IC na graduação – especialmente na primeira metade do curso – é essencial para a formação de futuros profissionais da pesquisa, porque é nessa atividade que o aluno costuma ter a primeira aproximação com o método científico. “Ter esse contato com as práticas, com um pesquisador mais experiente ou um núcleo facilita muito quando a gente vai tomar as nossas próprias decisões em relação aos fazeres da pesquisa”, acrescenta.

Outros investigadores de diferentes áreas que também passaram pela IC na graduação reforçam a importância da iniciação como “base” da carreira científica. Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Ciências Biológicas da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), Maria Victória de Vargas foi bolsista de iniciação científica desde as primeiras semanas da graduação em Biotecnologia na mesma universidade. Para ela, foi uma experiência essencial para desenvolver habilidades, como trabalhar em grupo e ser participativa. “Eu consigo hoje ter autonomia para realizar um trabalho com clareza, com dedicação. Isso eu fui aprendendo ao longo do tempo e com certeza teve essa base na iniciação científica”, declara. O aprendizado de métodos e técnicas de pesquisa é destacado pelo astrofísico formado pela UFRGS e aluno de doutorado na Australian National University Arthur Puls:

“Na IC eu aprendi o básico da minha área de pesquisa, além de dominar métodos que eu uso ainda hoje no doutorado. Já dava para ter a sensação do que é ser cientista” 

Arthur Puls
Arthur Puls hoje faz doutorado na Australian National University na área de astrofísica (Foto: Flávio Dutra/JU, a partir de Marlene Bergamo)

Os pesquisadores ressaltam que a IC também é um momento de vislumbrar um futuro com oportunidades que, às vezes, nem são imaginadas. “Ter vindo do interior da Bahia, de uma universidade pequena, num departamento recentemente criado, da primeira turma do curso de Física foram desafios, e a iniciação científica me mostrou que era possível naquela época, no interior da Bahia, desenvolver pesquisa”, afirma o docente do Instituto de Física da UFRGS Alan Alves Brito. Ele destaca que ter tido a possibilidade de viajar para apresentar trabalhos em congressos, conhecer grandes cientistas do campo da Física e ter recebido prêmios ainda na graduação foram extremamente motivadores.

Alan Alves Brito destaca que a iniciação científica abriu oportunidades que ele sequer imaginava enquanto estudante (Foto: Flávio Dutra/JU, a partir de Marlene Bergamo)

“Essa experiência mexeu com a minha autoestima, me colocou nos trilhos da pesquisa, me ajudou a entender quais são os processos, o que está em jogo no trabalho de pesquisa e a disciplina que é necessária no trabalho de investigação”

Alan Alves Brito

Maria Victória acrescenta que é um momento para que o bolsista aprenda sobre diferentes assuntos. “Nós, bolsistas, sempre estivemos envolvidos em todos os projetos do laboratório, então sabíamos ‘um pouco de tudo’ e a iniciação científica te permite conhecer e entender o melhor nicho para ti, do que tu mais gosta, no que tu te encaixa melhor”, explica. 

Além dessa aproximação com a ciência e com uma possível carreira futura de pesquisador, bolsistas de IC apontam outros benefícios da atividade: o contato maior com os setores da Universidade e um conhecimento mais profundo da área de atuação fora da academia. “Eu acabo lendo muitos artigos sobre publicidade e acho que entendo mais o mercado publicitário do que entenderia se eu não estivesse fazendo a pesquisa”, relata Rafaela Sant’Anna, estudante do curso de Publicidade e Propaganda e bolsista desde 2019.

Para o aluno de Ciências Contábeis Thom Teodoro, que foi bolsista de IC por cerca de um ano entre 2019 e 2020, a atividade ensinou muito sobre a leitura e a interpretação de artigos científicos: “Eu li muitos artigos em línguas estrangeiras e, como não sou fluente em inglês, eu usava o Google Tradutor. Eu lia o artigo traduzido e, então, voltava pra ler em inglês para ver se eu entendia”, conta. Esse conhecimento, acredita, vai auxiliar no trabalho de conclusão de curso: “Eu já tenho mais ou menos esquematizado como fazer e como começar. Não digo que estou na frente, mas já sei o método de como fazer o trabalho”.

Para Thom Teodoro (à esquerda), estudante de Ciências Contábeis e ex-bolsista de IC, a atividade vai auxiliar na elaboração do trabalho de conclusão do curso. Já a estudante de Publicidade e Propaganda Rafaela Sant’Anna, que é bolsista de IC, acredita que a experiência ajuda a conhecer o mercado publicitário (Foto: Flávio Dutra/JU, a partir de Marlene Bergamo)

Um dos principais desafios relatados pelos atuais e ex-bolsistas é conciliar a IC com as atividades da graduação. Além de cumprir a carga horária no laboratório, a bolsa tem outras demandas, como a apresentação de trabalhos em eventos. “Essas dificuldades, no fim, agregam muito, porque nos ensinam a ter o jogo de cintura que precisamos ter para trabalhar com pesquisa”, afirma Maria Victória. Para Arthur, é até esperado que essa dificuldade aconteça, pois cursar disciplinas e fazer IC são duas atividades distintas e que demandam muito do estudante. 

Alan lembra que uma das dificuldades na sua época de iniciação científica era o financiamento, já que havia poucas bolsas destinadas à universidade e poucos recursos para as viagens para congressos, por exemplo. Mesmo baixo, o valor da bolsa era um auxílio para a permanência na universidade e para a compra de material, como livros e apostilas. “Foi muito importante para me manter financeiramente na Universidade e também para me motivar e autoafirmar como pesquisador”, resume.

Os impactos da pandemia na pesquisa e na saúde mental dos bolsistas

Conciliar as atividades da graduação com aquelas da iniciação científica, por si só, já é algo desafiador para muitos estudantes. Somem-se a isso uma pandemia e diversas restrições – distanciamento social, ensino remoto, teletrabalho –, e o impacto na pesquisa é evidente. Para Victor Hugo, que estava trabalhando em vários projetos, surgiram diversas dúvidas sobre os novos processos de pesquisa no ambiente digital: como fazer entrevistas?; é melhor usar o Meet, Zoom ou Whatsapp?; e como fica a assinatura dos termos de consentimento: digitalizar, imprimir ou enviar por e-mail? “Se não me engano, só em fevereiro [de 2021] saiu uma instrução normativa do MEC sobre ética de pesquisa em tempos de pandemia”, conta. 

Além dos métodos, a adaptação também foi necessária nos projetos: o docente relata que, em 2020, coordenava um projeto de pesquisa envolvendo bolsistas de IC da graduação sobre juventudes contemporâneas que previa entrevistas com alunos do Colégio de Aplicação da UFRGS. Segundo ele, com adultos é possível fazer entrevistas por videoconferência, mas com adolescentes é importante que seja feito uma espécie de grupo focal, em que os próprios jovens conversem entre si e não sejam “inquiridos” por um pesquisador. Com a pandemia e a impossibilidade de realizar os grupos focais presenciais, os pesquisadores adaptaram o projeto e cada bolsista de IC fez uma busca bibliográfica sobre os temas que seriam abordados com os adolescentes. “Foi uma forma de manter a pesquisa e, ao mesmo tempo, explorar uma técnica que dificilmente se faz com tanto detalhe na IC, porque essa construção do estado do conhecimento costuma ocorrer mais na pós-graduação”, diz.

Outro impacto da pandemia na iniciação científica é na saúde mental dos graduandos. Antes da pandemia, 83% dos alunos de graduação relatavam ter enfrentado questões de ordem emocional, segundo uma pesquisa da Andifes. Com a covid-19, a soma de demandas da graduação, o distanciamento social, o Ensino Remoto Emergencial (ERE),  somados ao medo de perder alguém ou se infectar, impactam de muitas maneiras a saúde mental dos discentes. A segunda edição da pesquisa Juventudes e a pandemia do coronavírus, divulgada em maio deste ano, apresenta alguns reflexos da pandemia na saúde mental dos jovens: cerca de 60% relatam ansiedade e uso exagerado de redes sociais; e 50% sentem exaustão ou cansaço constante.

O apagamento dos limites entre horário de trabalho e de descanso é um dos aspectos que os discentes apontam como um dos principais desafios da IC na pandemia. Rafaela conta que, teoricamente, há horários definidos, mas na prática eles são mais difusos: “Às vezes, por exemplo, a gente marca uma reunião na quinta-feira para comentar o que a gente leu, aí fica aquele dia fixo. Daqui a pouco essa reunião fixa muda para segunda-feira, e isso muitas vezes nem é avisado com antecedência”. A bolsista também relata uma queda de produtividade na pandemia: “Às vezes pra fazer o que fazia em 2h [no presencial], hoje eu levo 2 dias. Então eu acho que [a pandemia] fez bastante a diferença, sim”. 

Victor Hugo aponta que, nesse contexto, a sensibilidade do orientador é essencial. Ele explica que a primeira coisa que é preciso ter em mente é a compreensão, o entendimento de que passamos por tempos difíceis e estamos fragilizados; e a segunda, a flexibilidade e a noção de que nem sempre estamos disponíveis.  

Victor Hugo Oliveira passou de bolsista a orientador de iniciação científica (Foto: Flávio Dutra/JU, a partir de Marlene Bergamo)

“A gente tem que se desculpabilizar, as coisas não são como a gente gostaria porque o momento não é como a gente gostaria”

Victor Hugo Oliveira

Mesmo fora da pandemia, o papel do orientador na IC é colocado em destaque pelos entrevistados. Para Victor Hugo, o trabalho de um orientador vai muito além da orientação metodológica: é um trabalho de convivência, um apadrinhamento científico. Thom acrescenta que sua ex-orientadora, a professora da Faculdade de Ciências Econômicas Wendy Carraro, virou uma espécie de mentora. “Acho que uma das principais coisas da bolsa foi ter esse contato com alguém da faculdade. Ela foi a melhor orientadora possível: a gente sempre conversava muito. Até hoje, quando eu estou com alguma dúvida, posso conversar com ela porque ela é superaberta com todas as questões”, elogia.

Contato com a ciência pode iniciar já no Ensino Básico

Algumas vezes, o primeiro contato com a ciência acontece antes da graduação, na própria escola. Foi o caso de Maria Victória: “Eu tinha a disciplina de Metodologia Científica na escola, em que a gente aprendia esse processo de escrita, projeto, revisão, então na universidade eu consolidei aquilo que eu aprendi no ensino básico”. 

Além de ter a chamada “IC Júnior” como um dos temas de pesquisa, Victor Hugo coordena um projeto de pesquisa que tem alunos do Colégio de Aplicação como bolsistas. Ele ressalta que a forma de trabalhar é adaptada aos alunos do Ensino Médio: “A gente busca desenvolver estratégias em cada etapa, porque trabalhar com adolescentes e graduandos é muito diferente”. Cada um dos bolsistas júnior escolheu um tema para trabalhar sobre ciência: desde negacionismo científico até a relação entre ciência e público LQBTQIA+, por exemplo. 

O docente conta que adoraria ter tido a experiência da IC júnior no Ensino Médio, mas que essa prática não era usual naquele momento. “Hoje já é! Antes de ingressar como docente na UFRGS, trabalhei em escolas privadas e orientei alunos em iniciação científica”, comemora. No entanto, ele complementa que a IC na Educação Básica ainda é mais restrita às escolas privadas e, na rede pública, à esfera federal, como os colégios de Aplicação e os Institutos Federais, e algumas poucas exceções. Isso se reflete no próprio Salão UFRGS Jovem. “Entre as 10 primeiras instituições que mais inscrevem trabalhos, só duas são públicas: o Colégio de Aplicação e o Liberato [Escola Técnica Liberato Salzano Vieira da Cunha], vinculado à Secretaria de Inovação, Ciência e Tecnologia do Estado”, afirma.

A IC na UFRGS

Hoje, na UFRGS, segundo os dados da Pró-reitoria de Pesquisa (Propesq), há aproximadamente 1.800 bolsistas de iniciação científica, entre remunerados e voluntários. Desses, aproximadamente 1.500 iniciaram as atividades após março de 2020, quando começou a pandemia de covid-19.

Dentro da Universidade, o Salão de Iniciação Científica (SIC) é um dos holofotes para a divulgação das pesquisas desenvolvidas na iniciação científica. Anualmente, o SIC acontece de forma presencial, mas em 2020 o evento foi transferido para a modalidade virtual, o que ocorrerá novamente em 2021. Outra adaptação ocorreu nos tipos de trabalhos: na impossibilidade de acessar os laboratórios no ano passado, o evento aceitou diversos trabalhos de revisão bibliográfica, pois muitos bolsistas passaram a realizar esse tipo de pesquisa. 

A chefe da Divisão de Iniciação Científica da Propesq, Rafaela Guarnier, destaca que em 2021 foram lançados dois novos programas de IC: o BIC Ações Afirmativas, voltado para alunos que ingressaram na Universidade por meio da políticas de cotas; e o BIC Meninas na Ciência, com bolsas destinadas a mulheres que estejam em cursos nos quais a participação feminina está abaixo de 40%. “Ainda que haja um déficit enorme na pós-graduação, no nível de graduação a pesquisa está forte e atuante”, comenta.

Uma experiência gratificante e que beneficia a sociedade

Para Maria Victória, apesar de o campo científico não parecer tão encantador, a experiência na IC e como pesquisadora é muito gratificante.

“A iniciação científica é realmente uma porta para novos conhecimentos, para descoberta de novos dons e de novas atividades. É um lugar que vai te abrir oportunidades”

Maria Victória de Vargas

“É uma experiência valiosa para quem quer aprender como a pesquisa científica funciona na prática antes mesmo de entrar na pós-graduação”, acredita Arthur. Os cientistas trazem alguns conselhos a quem está – ou quer ingressar – nessa jornada: “É bom procurar sempre fazer a melhor apresentação possível no Salão de Iniciação Científica e não hesitar em aceitar oportunidades de apresentar seu trabalho em palestras, seminários, etc. E dominar o inglês, que é a língua franca da ciência”, diz Arthur. Maria Victória destaca que é preciso ter dedicação: “Eu aconselho a quem se interessar e queira entrar na IC que abrace todas as oportunidades e conhecimentos. Tudo isso é proveitoso e em algum momento vai fazer sentido”.  

Maria Victória de Vargas foi bolsista de Iniciação Científica e hoje é doutoranda no Núcleo de Estudos da Vegetação Antártica (NEVA) da Unipampa (Foto: Flávio Dutra/JU, a partir de Marlene Bergamo)

Na percepção de Victor, a IC é um trabalho vantajoso para todos os lados: o professor recebe a força de trabalho do bolsista, e o aluno ganha experiência e conhece os meandros da pesquisa científica. Mas ele reforça que o benefício vai além da esfera individual e da mera formação de pesquisadores. “Estamos falando [da formação] de cidadãos críticos, que conhecem o método científico, então a chance de termos pessoas que negam a ciência é muito menor”, conclui.


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