Fórum Econômico Mundial não orientou proibição de hortas caseiras por emissão de CO2

Publicado originalmente em Agência Lupa por Evelyn Fagundes. Para acessar, clique aqui.

Circulam nas redes sociais vídeos afirmando que o Fórum Econômico Mundial estaria orientando os governos dos países a proibirem hortas caseiras pelo risco aumentado de  emissão de CO2. Nos posts, usuários levantam teorias conspiracionistas sobre a decisão induzir as pessoas a comprarem alimentos tóxicos nos supermercados para ficarem doentes, recorrerem às farmácias e gastarem dinheiro com remédios. É falso. 

Por WhatsApp, leitores sugeriram que o conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa​: 

“Fórum Econômico Mundial está exigindo que os governos globais imponham proibições para o cultivo de alimentos em casa por parte do público em geral a fim de supostamente reduzir as emissões de gases. A organização globalista afirma que os alimentos cultivados em casas contribuem para as mudanças climáticas”

– Transcrição do vídeo que circula nas redes sociais

Falso

O Fórum Econômico Mundial – evento em Davos, na Suíça, que reúne líderes, presidentes e organizações para debater a economia mundial  – não divulgou qualquer comunicado que oriente os governos a proibir as hortas caseiras em seus países. A narrativa conspiracionista não é nova. Já circulou no ano passado e deturpa o sentido de um estudo que tratou do assunto. A pesquisa, que não tem qualquer relação com o Fórum, concluiu que hortas comunitárias emitem CO2, mas não orienta que pessoas parem com o plantio caseiro.

Os vídeos desinformativos fazem menção a um estudo chamado “Comparing the carbon footprints of urban and conventional agriculture” (“Comparando as pegadas de carbono da agricultura urbana e convencional”, em português).

A pesquisa, coordenada pela universidade de Michigan, não foi financiada ou produzida pelo Fórum Econômico Mundial: ela havia sido publicada na revista Nature em janeiro de 2024. O texto faz uma comparação entre as hortas urbanas e hortas convencionais e afirma que, das análises realizadas em 73 jardins e fazendas dos Estados Unidos e Europa, foi identificado que os espaços caseiros emitem mais que os locais formais.  

Os pesquisadores, entretanto, afirmam que os espaços de cultivo urbano se destacam pelos benefícios sociais quando comparados às hortas convencionais. Isso porque a saúde mental e a dieta das pessoas que atuam no cultivo caseiro podem ser melhor desenvolvidas. “Espaços de cultivo que maximizam os benefícios sociais podem superar a agricultura convencional”, afirmam os autores.

No site do Fórum Econômico Mundial, ao buscar por “urban gardens” (hortas urbanas, em português), são  exibidos textos sobre os benefícios da agricultura comunitária. Os dois primeiros resultados levam aos artigos de título “Jardins comunitários aumentam o bem-estar e a biodiversidade” e “4 razões pelas quais o mundo precisa de mais agricultura urbana pós-pandemia”. 

O primeiro, por exemplo, se baseia em um estudo da Universidade do Texas que afirma que jardins comunitários e fazendas urbanas afetam positivamente a biodiversidade, os ecossistemas locais e o bem-estar das pessoas que trabalham neles. Segundo a  pesquisa, que analisou 23 espaços na Califórnia, Estados Unidos, a agricultura comunitária tende a cultivar mais tipos de plantas em áreas menores. 

Os autores desse estudo mostraram que o plantio de árvores fora dos canteiros de cultivo das hortas pode gerar um grande impacto positivo para o ecossistema local, uma vez que, dessa forma, pode haver o chamado “sequestro de carbono”. O termo se refere a um processo que pode ser artificial, mas, nesse caso, é feito naturalmente quando as plantas capturam o CO2 da atmosfera e o transformam em oxigênio. 

Já o segundo artigo,  “4 razões pelas quais o mundo precisa de mais agricultura urbana pós-pandemia”, também defende a mesma tese apresentada na pesquisa realizada pela universidade de Michigan: as hortas caseiras, além de tornar o ecossistema local mais saudável, também influenciam na saúde dos indivíduos envolvidos – no que tange ao lado mental e físico. Segundo o texto, trabalhar em uma horta comunitária reduz o estresse e, o contato com o plantio de frutas e verduras, pode fazer com que os indivíduos adotem hábitos mais saudáveis.

Alegações semelhantes já foram checadas pela AFPLogically FactsBoatos.org e Full Fact.

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