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Artigo | Rose Gurski e Patrícia Fagundes, do PPG em Psicanálise: clínica e cultura, refletem sobre a despolitização dos laços educacionais e o empobrecimento da imaginação e da capacidade de sonhar
*Foto: Flávio Dutra/JU
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O intenso sofrimento psíquico que acomete adolescentes escolares e jovens universitários tem sido uma questão para o campo da educação, bem como para as famílias, educadores e profissionais da saúde. Inflacionária dos discursos individualistas, ancorada na competitividade e na ideologia meritocrática, a lógica neoliberal vigente contribui com a fragilização dos vínculos e com o esvaziamento do compartilhamento de experiências. Nesse cenário, as tentativas de suicídio e as mortes autoprovocadas se apresentam como um problema clínico-político da atualidade.
Os resultados da última Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PENSE), com adolescentes que frequentam o ensino fundamental, apontam que 21,4% dos alunos entrevistados afirmaram sentir que a vida não vale a pena (IBGE, 2019). Segundo a divulgação de um relatório da Word Health Organization (WHO), no ano de 2019, o suicídio apareceu como a segunda causa de morte entre os jovens de 15 a 29 anos. Além disso, as estatísticas do IBGE, em 2023, apresentaram altos índices de abandono escolar, especialmente a partir dos 15 anos de idade. Tais índices somam-se aos inúmeros relatos de mal-estar e sofrimento psíquico que temos escutado nas narrativas de jovens universitários no âmbito de uma pesquisa-extensão multicêntrica que realizamos.
Trata-se, portanto, de questões que demandam uma escuta mais atenta sobre as condições do laço social e educativo e seus efeitos para a saúde mental de adolescentes e jovens que frequentam as escolas e universidades.
A fim de melhor compreender o adoecimento que acomete os que chegam à primavera da vida, é preciso ampliar a análise das condições individuais a fim de não circunscrever o sofrimento psíquico a aspectos somente privados. O professor, filósofo e crítico cultural Mark Fisher, no livro “Realismo Capitalista: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo?”, alerta que uma das possíveis consequências da patologização e da medicalização dos sintomas apresentados pelos adolescentes contemporâneos consiste no bloqueio de qualquer possibilidade de compreensão das causas estruturais do sofrimento, com o que se despolitiza a formação juvenil, produzindo-se efeitos nocivos do ponto de vista ético-político.
Diversas produções do Núcleo de Pesquisa em Psicanálise, Educação e Cultura (NUPPEC)/Eixo 3 (Psicanálise, Educação, Intervenções Sociopolíticas e Teoria Crítica) da UFRGS, que discutem questões relativas ao campo da psicanálise, educação e política, vêm evidenciando o quanto a despolitização dos laços educacionais apaga questões fundamentais do cenário sociopolítico. Segundo tais produções, a exclusão da causalidade social das múltiplas crises que vivemos participa dos modos atuais de sofrimento juvenil.
A incidência do sofrimento psíquico, as tentativas de suicídio e o suicídio consumado que acometem, cada vez mais, essa fatia da população, vêm mobilizando um grupo de pesquisadores docentes de universidades públicas do Brasil, da Argentina e da França na realização de uma pesquisa multicêntrica. As inquietações compartilhadas acerca da ausência de perspectivas de futuro na vida dos jovens, especialmente nas universidades públicas, impulsionaram a construção do projeto “Psicanálise e saúde mental na Universidade: políticas de vida, escuta e sobrevivência psíquica em tempos sombrios” – projeto no qual o NUPPEC/Eixo 3 da UFRGS está envolvido através da professora Rose Gurski, uma das coordenadoras do estudo.
No eixo nacional, a pesquisa busca investigar o modo como o sofrimento psíquico se faz presente nas universidades públicas brasileiras, onde temos observado que uma das possíveis condições do agravamento do sofrimento entre jovens universitários está relacionada a algumas especificidades decorrentes de novas formas de ingresso.
A diversidade racial, cultural, social e de gênero trazidas pelas políticas de cotas e, também, o ingresso pela via do ENEM e do SISU abrem caminhos para uma maior mobilidade em diferentes sentidos. Apesar de as políticas inclusivas serem absolutamente necessárias, elas se apresentam como insuficientes, caso não sejam acompanhadas pela efetividade das políticas de permanência, especialmente no que se refere a alguns grupos de universitários.
Diante dessas condições, temos compreendido que o sofrimento psíquico de discentes é pautado não só pelas exaustivas jornadas acadêmicas que precisam ser repensadas, mas, também, pela precariedade das condições de vida que impactam o acesso aos direitos básicos, como habitação, transporte, lazer, entre outros.
Por meio das escutas que realizamos no FALAQUI – ação de extensão desenvolvida pelo NUPPEC/Eixo3 da UFRGS em parceria com a equipe da pesquisa Psicanálise e Saúde Mental na Universidade –, temos constatado que a cultura institucional, apesar de nem sempre provocar o sofrimento discente, pode, sim, agravá-lo, caso não considere a necessária melhoria das condições de mal-estar que habitam as universidades em tempos que parecem cancelar o futuro.
Um recente caso de discriminação entre estudantes universitários ganhou repercussão na mídia durante um campeonato acadêmico de handebol realizado na cidade de Americana (SP). Estudantes do curso de Direito da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) foram filmados proferindo ataques de cunho racista e elitista aos alunos da Universidade de São Paulo (USP). É importante observar que, nesse perturbador episódio, a palavra “cotista” foi utilizada de modo pejorativo, desnudando o não reconhecimento das cotas como políticas de ações afirmativas que se configuram como mecanismos políticos de equidade social.
O achatamento da dimensão política no campo da formação educacional opera também pela repetição de violências seculares que sempre reforçaram o caráter de exclusão e segregação, marca da sociedade brasileira que participa também do cotidiano das universidades.
As reflexões da pesquisa multicêntrica nos levam a compreender que a atual gramática neoliberal relança e incrementa traços de colonialidade que, por sua vez, esvazia a dimensão política nos laços, encurtando a imaginação e empobrecendo a possibilidade de sonhar com outros mundos possíveis.
De que forma nossas instituições educacionais e formativas têm lidado com os impactos dessas condições do laço social? No âmbito da pesquisa multicêntrica supracitada, temos realizado articulações com a dimensão da política a fim de enlaçar o saber que decanta de nossas investigações e extensões acadêmicas para o campo das ações concretas, mirando, sobretudo, um horizonte de futuro que possa recolocar a libido das gerações que chegam na difícil e fundamental tarefa de renovar o mundo.
Rose Gurski é psicóloga e psicanalista. Professora do Departamento de Psicanálise e Psicopatologia da UFRGS e do PPG em Psicanálise: clínica e cultura da UFRGS. Orientadora no PPG em Psicologia Clínica da USP. É pesquisadora do CNPq, Coordenadora do NUPPEC-Eixo 3. Pós-doutora em Psicologia Clínica pela USP e pesquisadora membro do PSOPOL/USP.
Patrícia Fagundes é psicóloga, psicanalista e membra pesquisadora integrante do NUPPEC-Eixo 3. Mestra em Psicanálise: Clínica e Cultura pela UFRGS.
Acolhimento
Se você está em sofrimento ou conhece alguém que esteja, pode procurar o Centro de Valorização da Vida (CVV), que oferece acolhimento e apoio emocional gratuito. O atendimento é feito por chat ou pelo telefone 188.
Para jovens de 13 a 24 anos, o serviço Pode Falar Unicef oferece escuta e acolhimento gratuito por meio de um chat. Também é possível acompanhar o perfil no instagram @canal.podefalar.
Para informações sobre como acessar o atendimento de saúde mental na rede pública e em centros de formação em Porto Alegre, região metropolitana e litoral norte, acesse o site Saúde Mental UFRGS.