‘A sociedade como um todo tem que estar imunizada contra a
desinformação, e isso é um processo educacional de médio a
longo prazo, mas que tem que começar alguma hora’
Marco Schneider fala sobre os 6 anos da Rede Nacional de Combate à Desinformação e a luta por integridade da informação no Brasil
A Rede Nacional de Combate à Desinformação (RNCD) completou no mês de setembro seis anos de atuação. Criada em setembro de 2020 pela professora, pesquisadora e jornalista Ana Regina Rêgo, a iniciativa surgiu de sua pesquisa de pós-doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, entre 2019 e 2020, contexto em que vivíamos um cenário de pandemia e completa desordem informacional.
Como resposta a esse cenário crítico, a RNCD é criada e, desde então, vem se articulando, produzindo e disseminando conhecimento sobre integridade da informação no Brasil e no mundo, em suas variadas frentes de atuação. A Rede interliga projetos e instituições de múltiplas naturezas que contribuem de alguma forma para combater a desinformação no Brasil e já reúne coletivos, iniciativas acadêmicas, agências, redes de comunicação, projetos sociais, projetos de comunicação educativa, programas de monitoramento de desinformação, observatórios, projetos de checagem de fatos, projetos de pesquisa, instituições e revistas científicas, dentre outros.
De 2020 para cá, o debate sobre integridade da informação tem ganhado corpo no Brasil e no mundo, impulsionando alguns progressos, mas ainda enfrentando muitos desafios, especialmente com o avanço das ferramentas de inteligência artificial. O atual coordenador-geral da RNCD, Marco Schneider, fala sobre o contexto brasileiro, os progressos e desafios e sobre o papel que a Rede tem exercido nesse debate.
Coordenador-geral da RNCD desde 2025, Schneider é professor do curso de Jornalismo e do Programa de Pós-graduação em Mídia e Cotidiano (PPGMC) da Universidade Federal Fluminense (UFF), pesquisador titular do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict) e professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação (PPGCI/Ibict). É doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (ECA/USP) e autor dos livros Fascismo Zumbi: desinformação, midias sociais, inteligência artificial e outras histórias de terror do nosso tempo (2025) e A Era da Desinformação: pós-verdade, fake news e outras armadilhas (2022).
A RNCD está completando 6 anos de atuação. Como a organização tem contribuído para o combate à desinformação?
Schneider: De muitas maneiras, principalmente a partir da articulação de gente comprometida com a causa no Brasil e no mundo inteiro. A principal característica da RNCD está em seu nome; essa é uma rede que busca aproximar iniciativas, promover sinergias entre pesquisadores, agências de checagem, coletivos voltados à educação midiática e à crítica informacional e midiática, rádios e TVs universitárias, profissionais de comunicação, da ciência da informação, da divulgação científica… São iniciativas de norte a sul do Brasil que, a partir da atuação da RNCD, se unem para somar forças. Além disso, a Rede também atua na produção e divulgação de pesquisas que contribuem para os estudos da integridade da informação em vários campos do conhecimento. E contribui também participando e se posicionando ativamente diante dos debates públicos sobre integridade da informação, assinando abaixo-assinados e promovendo outras formas de mobilização com intuito de pressionar a imprensa e membros do legislativo a avançar na regulação das plataformas digitais, caracterizando o viés cívico da nossa organização.
Na sua avaliação, de 2020, quando a Rede foi criada, para cá, o que mudou no cenário da integridade da informação no Brasil? Quais foram os maiores avanços e os principais desafios surgidos nesse período?
Schneider: De 2020 para cá podemos observar uma maior consciência pública do problema da desinformação. Por parte de autoridades, do judiciário, do executivo — menos do legislativo do que a gente gostaria —, mas uma percepção da sociedade, como um todo. Talvez as pessoas estejam menos ingênuas quanto às fake news, que é o termo que se popularizou mais. Mas, na prática, o jogo ficou mais duro com o crescimento das plataformas e a mudança de política dessas plataformas, sobretudo desde que o Twitter foi comprado por Elon Musk e desde a guinada da Meta para a extrema-direita, aliando-se ao Trumpismo. O que essas plataformas tinham de checagem interna, abandonaram, pararam de investir, e abriu-se a porteira para a extrema direita e não para liberdade de expressão, como eles alegam. Podemos ver, inclusive, que tem reverberado aqui no Brasil, como no caso daquele vídeo do Porchat retirado do ar e o caso da página de anúncios da campanha do Lula retirada do ar pela Meta. Ou seja, tem uma censura interna nas plataformas com viés de extrema direita, que é contrária à promoção da integridade da informação. E cada país está lidando com isso de uma forma. A Europa tem uma regulação um pouco mais dura, os Estados Unidos não, e no Brasil estamos tentando, mas está difícil. Aqui, apesar de alguns avanços, acho que o cenário das plataformas piorou graças às suas políticas internas, as guinadas à direita e a lentidão no avanço das regulações.
Recentemente, a RNCD passou a integrar a Media and Information Literacy (MIL) Alliance da Unesco. Como esse reconhecimento pode contribuir para a atuação da RNCD?
Schneider: Ainda é recente, mas acho que vai ser bacana. Além de dar visibilidade, a Unesco pode favorecer novas articulações internacionais, aproximando outras iniciativas ao redor do mundo e promovendo participação em estudos e ações. É nesse sentido que eu acho que pode contribuir.
Quais os principais desafios que você enxerga no horizonte brasileiro de combate à desinformação?
Marco: Primeiro, essas eleições. Dependendo do resultado delas, vai ficar bem mais difícil. O candidato da oposição e seus grupos políticos têm sinalizado não terem menor interesse em regulação e em combater a desinformação, muito pelo contrário, enquanto o governo atual e sua Secretaria de Comunicação têm historicamente se comprometido com essa questão regulatória. E as eleições no Congresso também impactam, temos que ver se teremos parlamentares suficientes para defender essa agenda ou não, porque eles tocam o debate regulatório, que continua sendo o principal horizonte a curto prazo no combate à desinformação. Então, as eleições são fundamentais e o principal desafio hoje. E, no fundo, acho que se trata da boa combinação. Precisamos buscar a regulação — que vai mexer no lucro e no modelo de negócio das plataformas —, mas também aliada a ações de educação midiática-informacional crítica e a políticas públicas de escala. A sociedade como um todo tem que estar imunizada contra a desinformação, e isso é um processo educacional de médio a longo prazo, mas que tem que começar alguma hora. Além das checagens de fato, evidentemente, e do investimento em bom jornalismo. O modelo de negócio das empresas de comunicação está em crise pela competição das plataformas por publicidade, mas o bom jornalismo seria uma boa maneira de combater a desinformação e promover a integridade da informação. E favorecer a prática do bom jornalismo envolve a democratização também da mídia, retomando todo o debate da CONFECOM e do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, não só em relação às plataformas, mas em relação à radiodifusão convencional. E, claro, educação de qualidade para a população, que envolve uma educação científica de qualidade, inclusive em termos de ciências sociais. São medidas de curto, médio e longo prazo, de micro, média e macro escala. E a gente vai fazendo o que dá para fazer.