É urgente controlar o crescimento de casos e mortes por COVID-19 no Brasil

Publicado originalmente em Observatório COVID-19 BR. Para acessar, clique aqui.

Destaques
  • Há uma clara e forte tendência de crescimento de casos, internações e óbitos por COVID-19 em quase todo o país, especialmente nos estados do Sul e Sudeste
  • A retomada de muitas atividades e as reuniões e festas de fim de ano preocupam muito porque podem piorar uma situação que já é grave.
  • O Observatório Covid-19 BR pede urgência na tomada de atitudes de todos – governo e indivíduos – a fim de evitar maior sofrimento e mortes nas pŕoximas semanas.
Aumentam casos e óbitos por Covid-19: risco de colapso de leitos hospitalares está de volta

Os sinais de retorno do crescimento do número de casos e óbitos por Covid-19 no Brasil já estão presentes em todas as fontes de informação. Neste momento, já não há mais dúvidas sobre a intensificação da epidemia em vários estados do país, especialmente nas regiões sul e sudeste. Tanto as análises do Observatório Covid-19 BR como do projeto Infogripe, assim como os dados do Painel Coronavírus do próprio Ministério da Saúde, mostram que a tendência de queda no número de casos e óbitos, verificada há pouco tempo atrás, já se reverteu completamente.

Desde meados de maio o número de casos por 100.000 habitantes por semana no país está acima de 50, valor que serve de referência em alguns países europeus como indicativo de transmissão elevada. Mesmo sem levar em conta o fato de que no Brasil se testa muito pouco, nossa taxa vem crescendo, e estamos atualmente em 143 casos por 100.000 habitantes por semana. Em perspectiva com outros países, o Brasil já é, de novo, um dos países com a maior taxa de crescimento diário de novos infectados e novos óbitos.

O crescimento de casos de Covid-19 se reflete no aumento de internações e consequente aumento de óbitos. Tais tendências não são homogêneas no país, havendo estados e cidades em situação gravíssima, enquanto em outros a situação é mais estável. No entanto, se olharmos para o país como um todo, o aumento de casos é indiscutível. Em apenas seis semanas, os casos mais do que duplicaram, muito devido ao recrudescimento da pandemia em estados muito populosos, como Rio de Janeiro e São Paulo.

No estado do Rio de Janeiro, o número de internações por Síndrome Respiratória Aguda (SRAG) tem aumentado desde o início da segunda quinzena de outubro, com reflexo nas taxas de ocupação de leitos ambulatoriais e de UTI, superando 90% de ocupação de leitos UTI Covid-19 e 100% de leitos de suporte a vida da REDE SUS desde o início de dezembro na capital. Em São Paulo a situação é semelhante, com os índices indicando um retorno à situação que se vivia no início de setembro, com a importante diferença de que, naquela época, estávamos em fase de decréscimo de casos e agora estamos em fase de subida. Outros exemplos também impressionam. Em Santa Catarina o número de óbitos aumentou em 300% desde o início de novembro; na cidade de Salvador, a taxa de ocupação de UTIs está em 75%.

Por que os casos voltaram a aumentar?

Compreender o aumento de casos e óbitos é relativamente simples se observarmos o contexto: na vigência de uma doença de transmissão respiratória em que se recomenda o distanciamento físico e uso de máscaras faciais, as medidas de relaxamento promovidas permitiram um aumento do número de contatos, sobretudo em locais fechados, em que o ar circula pouco, propiciando um aumento de infecções. Junta-se a isto a falta, praticamente absoluta, de políticas de testagens, rastreio e isolamento das pessoas infectadas que visem interromper a cadeia de transmissão da doença, aliadas à inação de governos municipais, estaduais e, principalmente, federal e tem-se assim uma situação alarmante que exige uma resposta rápida.

A catástrofe que se anuncia não vai se reverter de forma natural. A lógica de multiplicação de casos é simples e incomplacente: novos casos geram outros novos casos. Apenas a ação coordenada dos governos e da população como um todo pode mudar o curso da epidemia, com ampliação de medidas de controle da transmissão, principalmente relativas ao distanciamento físico e à testagem em massa associada ao rastreamento de contatos e ao isolamento de casos confirmados e suspeitos. Tais medidas têm efetividade comprovada na redução de casos, internações e óbitos.

Os planos estaduais e municipais de flexibilização, a gradativa mudança na rigidez das medidas vigentes, representados por painéis de diferentes estágios e muitas vezes caracterizados por cores, não conseguem orientar as ações de resposta com a rapidez necessária. Esses planos de mitigação foram formulados tendo em mente reaberturas graduais e orientadas principalmente pela disponibilidade de leitos hospitalares. No momento de um recrudescimento da epidemia, as autoridades precisam adotar medidas que sinalizem agilidade na conduta da sociedade para reverter o crescimento de casos, especialmente porque o ritmo de aumento é muito mais acelerado do que a queda.

Alertamos que políticas de aumento de número de leitos de UTI, apesar de necessárias para doentes graves, não evitam a disseminação do vírus. Tais medidas apenas respondem às piores consequências da disseminação do vírus, que são o adoecimento na forma grave e a morte. O Brasil tem se destacado por apresentar elevada letalidade hospitalar em comparação com países europeus, como Alemanha, e latinoamericanos, como o Uruguai. É de altíssima importância ressaltar novamente que, em vez de esperar que as vítimas da Covid-19 cheguem aos hospitais, mais vidas serão salvas ou poupadas do sofrimento por meio do impedimento da infecção.

Estamos todos cansados, mas não podemos desistir

O Observatório COVID-19 BR reconhece a exaustão da população e dos profissionais de saúde em relação à pandemia, seus impactos sobre o cotidiano e a saúde mental de todos, além dos custos econômicos que têm prejudicado diversos setores no país . Mas não podemos colocar a perder todo o esforço feito até agora. Com o aumento de casos e a saturação do sistema de saúde em vários estados, somados às festas de final de ano que se aproximam, é imperativo que medidas sejam tomadas com a urgência necessária, de modo que possamos reduzir o número de vidas perdidas.

Neste sentido, o Observatório COVID-19 BR propõe que as cidades e estados com aumento sustentado de casos, que representam níveis elevados de risco, tomem ações imediatas que diminuam o número de contatos potencialmente contagiosos. Tais ações devem ocorrer rapidamente e de tal forma que uma tendência clara de decrescimento se estabeleça, com pelo menos duas semanas sucessivas de queda substanciais nos novos casos, internações e óbitos.

A diretriz básica seria o fechamento do comércio e serviços não essenciais. Em particular, o funcionamento de bares, restaurantes e academias deveria ser proibido, assim como festas e shows, em espaços públicos ou privados. Reuniões com mais de seis pessoas devem ser fortemente desencorajadas. É necessária uma ação rápida, começando no meio desta semana e se prolongando até meados de janeiro, quando teríamos uma reavaliação.

Eventualmente e localizadamente, pode ser necessária a decretação de toque-de-recolher noturno. Viagens também devem ser restritas. A convivência em ambientes sem ventilação deve ser evitada. Enfatizamos que toda medida deve ser adaptada às realidades locais, de modo que possa haver soluções com mais ou com menos restrições.

Devemos lembrar também que ações como as mencionadas acima devem vir acompanhadas de uma estratégia de reabertura segura, envolvendo testagem e rastreio de contatos, que utilize os recursos das equipes de saúde da família, que permitiriam ampla capilaridade das ações. Ademais, consideramos fundamental que exista transparência dos governos, tanto em relação aos critérios para as medidas de controle da pandemia, assim como em relação ao acesso aos dados epidemiológicos de casos e óbitos. Aliado a essas medidas urgentes e necessárias para conter o aumento de casos e de mortes, seria fundamental que o governo federal mantivesse o auxílio emergencial, como medida humanitária, de apoio concreto às pessoas com menores condições de se proteger.

No entanto, ainda há muitos esforços pela frente – a maior parte das vacinas encontram-se ainda na sua fase de testes, não há previsão de quando haverá vacinas em número suficiente para proteger toda a população. Dadas as várias etapas previstas de campanhas de vacinação, o processo de imunização pode durar até meados de 2022. É fundamental que iniciemos a vacinação em um cenário de redução de casos e óbitos. Precisamos levar em conta que o sistema de saúde que vai coordenar as ações de imunização é o mesmo que cuida de casos de doença. Além disso, apesar de ótimas taxas de eficácia das vacinas que estão começando a ser usadas na população em outros países, ainda não se sabe sobre qual é a duração da proteção conferida pelas vacinas.Desse modo, até que uma parcela grande da população esteja imunizada, precisamos manter o distanciamento físico e o uso de máscaras, para evitar novas infecções.

A epidemia de Covid-19 no Brasil já leva mais de nove meses. Ao longo deste tempo o temor inicial do desconhecido e as incertezas sobre a gravidade da doença, assim como a percepção de se encontrar sob risco de contrair a infecção foram se dissipando. É compreensível o cansaço que a situação produz. Ao se aproximarem as festas de fim de ano, o desejo de muitos é se confraternizar e voltar a se encontrar presencialmente com amigos e familiares. Queremos ficar mais perto das pessoas queridas, depois de um ano duro com tantas dores, restrições e incertezas. No entanto, precisamos nos perguntar: estamos seguros? Temos o direito de provocar mais adoecimento e mortes quando podemos ajudar a salvar vidas?

A necessidade de manter por mais algum tempo, agora com horizontes mais tangíveis, restrições como as descritas acima vem da inexorável lógica de combate ao vírus enquanto não tivermos a população vacinada. Nossa posição no Observatório Covid-19 BR é que somar forças para controlar a pandemia é absolutamente necessário. É necessário porque a nossa prioridade é preservar vidas. Acreditamos que este grande esforço precisa ser vivido coletivamente, de forma solidária. Fiquemos em casa nesta época que se aproxima. Podemos estabelecer um novo calendário para nossas festas. Fazendo isso teremos reencontros seguros e felizes em breve, e cada um de nós poderá dizer, às gerações futuras, que fez sua parte na luta contra esta epidemia que tanto nos ameaça.

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