Publicado originalmente em Jornal da UFRGS. Para acessar, clique aqui.
Adaptação | Diante dos desafios ao corpo e à saúde mental que permeiam as expedições a ambientes extremos, cientistas buscam manter hábitos rotineiros durante os dias navegação
Esta reportagem integra o Especial Antártica, que, até janeiro, trará reportagens que abordarão desde as pesquisas e o entendimento sobre as mudanças climáticas até o cotidiano e as curiosidades de uma tripulação que passará 60 dias em um navio quebra-gelo.
*Foto de capa: International Antarctic Coastal Circumnavigation Expedition – ICCE – Photo/Video © Anderson Astor e Marcelo Curia
Viajar ao redor do continente que possui 90% das geleiras de todo planeta e acomoda animais que não se veem em outro lugar, como os pinguins e o krill – um pequeno crustáceo fundamental para a cadeia alimentar do oceano austral –, é uma experiência única e privilegiada. No entanto, apesar do cenário singular e impressionante, a Antártica também guarda os maiores desafios à vida humana na Terra: é o ambiente mais ventoso, mais seco, mais frio e, no verão, o Sol nunca se põe em boa parte do território.
Lidar com esses superlativos tem sido o dia a dia dos 61 pesquisadores e pesquisadoras que estarão circum-navegando a Antártica no navio quebra-gelo Akademik Tryoshnikov até o final de janeiro de 2025 sob a coordenação do Centro Polar e Climático da UFRGS. O pós-doutorando em Glacioquímica na UFRGS Filipe Gaudie Ley Lindau descreve que, nessa época do ano, as temperaturas no continente gelado ficam por volta dos -10°C, mas são os ventos de 40 a 50km/h que tornam o frio rigoroso. “A nossa sensação no trabalho, em geral, é de desconforto”, confessa o estudioso, que já esteve outras duas vezes na Antártica.
Para enfrentar os graus negativos, os cientistas precisam sobrepor diversas camadas de roupa quando saem da embarcação para coletar amostras. Não há como se expor ao clima sem vestir ao menos três agasalhos no tronco e nas pernas, bota dupla impermeável com forro reforçado, meias de lã, luvas e pescoceiras. De acordo com a médica pós-graduada em Medicina de Expedições e Áreas Remotas no Royal College of Physicians and Surgeons of Glasgow Daniela Silvestre, em temperaturas abaixo de -15ºC já há risco de congelamento das extremidades, como bochechas, pontas dos dedos e lóbulos das orelhas.
Somado ao cotidiano desafiador imposto pelas características atmosféricas, os expedicionários ainda ficam expostos nas 24 horas do dia aos raios solares, já que o Sol incide em ângulo reto, entre outubro e março, nas localidades posicionadas abaixo do Círculo Polar Antártico.
“A gente não consegue ficar de olhos abertos sem os óculos de neve; a luz reflete muito, mesmo quando está nublado. O mínimo que há (de luz) vem de todos os lados”
Filipe Lindau
Em alto mar, o dia a dia está sempre em movimento
Ao circum-navegarem a costa da Antártica, os pesquisadores passam boa parte da viagem a bordo do navio, que oferece maior conforto do que as estações e os acampamentos montados em meio à imensidão de gelo. Mesmo com melhores estruturas para viver e trabalhar, um elemento incômodo surge à medida que os viajantes dormem, acordam, se alimentam e realizam suas pesquisas sob o movimento da água: o enjoo. “Vamos passar por áreas que são famosas por terem um mar muito agitado, principalmente entre a América do Sul e a Antártica. Esse vai ser um desconforto que nós não temos em terra”, afirma Filipe.
Segundo Daniela, náusea e vômito são comuns nas primeiras 48 horas por conta de um desequilíbrio entre o que o passageiro está vendo e o que o seu sistema vestibular, que atua no equilíbrio, está percebendo. Chamado também de seasickness, o enjoo do movimento pode prejudicar o sono e a alimentação dos estudiosos, além de causar desidratação. No entanto, os sintomas costumam aliviar com medicação, repouso e adaptação do corpo ao ambiente. “Isso tudo é transitório e melhora a partir do momento em que labirinto, ouvido e olhos começam a entrar num mesmo compasso”, explica a especialista.

Photo/Video © Anderson Astor e Marcelo Curia
Em meio aos extremos, um pouco de normalidade
Diante de um céu que não escurece, a manutenção de hábitos que compõem a rotina ordinária dos pesquisadores torna-se fundamental para que dia e noite não se confundam. Além do esforço em preservar os horários das refeições, o grupo de pesquisadores empenha-se na elaboração de cardápios semelhantes aos que usualmente consomem em seus respectivos países. Em geral, comidas enlatadas só são utilizadas quando os cientistas estão instalados em barracas, distantes das estações de pesquisa. No navio, é possível preparar batata frita, arroz, feijão e até ingerir bebidas alcoólicas, como cerveja e espumante, para celebrar as festas de final de ano.
Nessa expedição inédita capitaneada pela UFRGS, argentinos, chilenos, peruanos, indianos, russos, chineses e brasileiros passarão Natal e Ano-Novo juntos, compartilhando tradições culturais. No caso dos russos, o nascimento de Jesus Cristo só é celebrado em 7 de janeiro, porque a maioria dos cidadãos segue o calendário juliano, baseado nos princípios da Igreja Ortodoxa. Para os chineses, o Ano-Novo ocorrerá somente em 29 de janeiro, durante a Lua Nova, quando os pesquisadores já terão retornado às suas casas. Independentemente das particularidades de cada cultura, Filipe assegura que a equipe irá planejar comemorações a fim de garantir o espírito de normalidade, mas também de criar momentos atrativos no cotidiano.

Tensão constante e monotonia permanente
O relato de Filipe sobre a organização de atividades coletivas para diferenciar um dia do outro evidencia o contexto monótono que marca a Antártica, apesar das paisagens deslumbrantes e da vida animal extraordinária. Embora o continente antártico mantenha os pesquisadores em alerta de forma ininterrupta, pois o clima pode tornar-se violento rapidamente, a incerteza é menos latente do que a monotonia. Doutora em Psicologia Organizacional do Trabalho pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) com estudos voltados às regiões polares e aos ambientes ICE (isolados, confinados e extremos), Paola Barros-Delben comenta que tanto a tensão constante quanto a inalterabilidade da rotina causam ansiedade.
Além disso, mais prejuízos são adicionados ao bem-estar emocional dos estudiosos em razão da falta de privacidade, do sentimento de enclausuramento, da dificuldade para dormir e da sociabilidade limitada.
“Tudo isso vai afetar, sim, a saúde mental, principalmente por conta da restrição social. Não é que eles não tenham acesso a interações sociais, mas elas são limitadas somente àquele grupo que está ali presente. Aos pouquinhos, se começa a perceber algum tipo de irritabilidade e fadiga”
Paola Barros-Delben
Não é raro, segundo a psicóloga, que os cientistas retornem de missões à Antártica com uma espécie de burnout. Conceitualmente, o burnout ou Síndrome do Esgotamento Profissional está associado a um ambiente laboral desgastante, e não a um espaço onde se compartilha residência e trabalho, como é o caso dessa expedição. Na prática, entretanto, os sintomas são bem semelhantes.
A imponência e a grandiosidade do lugar mais inóspito da Terra não impedem que as complexidades dos indivíduos se manifestem, isso porque os trabalhadores que estão ali a serviço da pesquisa científica são, em primeira instância, sujeitos. E onde quer que a vida humana habite, mesmo sobre um oceano imenso e um continente constituído basicamente de gelo, felicidades e angústias seguirão fazendo parte do cotidiano de todas as pessoas.

Photo/Video © Anderson Astor e Marcelo Curia