Publicado originalmente em Jornal da UFRGS. Acesse na íntegra aqui.
Após tantos anos de dedicação ao insaciável domínio europeu sobre a África, o capitão de navio negreiro Celestino agora é apenas um homem velho, solitário, empenhado no cuidado do jardim que envolve sua casa, à espera da morte. Próximo da virada do século XIX para o século XX, o pirata abandona o mar, retorna a terra e encontra a residência familiar tomada pelo tempo, invadida pelas plantas: “Era a fome da Natureza que a comia aos poucos e o capitão, diante do seu fóssil, uma partícula dessa fome […]”.
A partir das memórias de Celestino, expressas em trechos que simulam um diário, e de um narrador em terceira pessoa, a “A Visão das Plantas”, obra escrita por Djaimilia Pereira de Almeida, lança reflexões a respeito do passado colonial, ainda tão recentemente cessado no continente africano. Países como Ruanda e Moçambique, por exemplo, conquistaram suas autodeterminações há pouco mais de cinquenta anos, em 1962 e 1975, respectivamente.
Imbuída das influências de Luís de Camões, Carlos de Oliveira e Raul Brandão, a autora portuguesa nascida em Angola constrói um texto nutrido de poeticidade e de metáforas para narrar – pelo olhar das rosas, dos cravos, das glicínias, das camélias, das dálias, dos tomateiros e das ameixeiras – as crueldades cometidas pelo protagonista.
Da cal despejada no porão para matar escravizados revoltos à menina holandesa deixada no mato de olhos vendados, somente um ponto de vista não humano, que não se comova e que não tenha valores éticos, poderia representar crimes tão hediondos, segundo a professora de Literatura Portuguesa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Mônica Genelhu Fagundes. “É preciso uma elaboração estética para que seja suportável encarar as atrocidades do capitão Celestino, e que não são só dele, são atrocidades históricas”, sublinha.
Ao exporem os horrores sem julgá-los, as plantas aparecem como personagens da história ainda mais primordiais do que o padre Alfredo, as crianças e os vizinhos. Nessa relação mútua, na qual o pirata interage com o jardim e o jardim interage com o pirata, a figura de linguagem de personificação ou prosopopeia – atribuição de características humanas a seres não humanos ou inanimados – está na centralidade da construção narrativa. “As plantas viam o jardineiro como as plantas veem. Não se sentiam agradecidas. Tratavam o seu regador à semelhança da chuva que caía sobre elas nas noites de Outono”, escreve Djaimilia.