Ataques à ciência nos EUA ameaçam avanço científico em escala mundial

Publicado originalmente em Jornal da USP. Para acessar, clique aqui.

Demissões, cortes e restrições impostas à ciência pelo governo de Donald Trump colocam pesquisadores em alerta, dentro e fora dos Estados Unidos

O texto a seguir é a primeira parte de uma reportagem especial do Jornal da USP sobre os possíveis impactos do governo Trump na ciência internacional. As partes dois e três serão publicadas em nos próximos dias 26 e 27 de março.

A preocupação com o futuro da ciência americana sob a gestão de Donald Trump extrapolou as fronteiras dos Estados Unidos e virou motivo de apreensão internacional. Pesquisadores, revistas e organizações científicas de diferentes países — incluindo o Brasil — têm expressado consternação com as medidas adotadas pelo presidente americano e as consequências que elas poderão ter para o progresso da ciência não só dentro dos EUA, mas em todo o mundo. 

“É difícil colocar em palavras a extensão do dano que está sendo causado ao empreendimento de pesquisa dos Estados Unidos, que é de valor quase incalculável tanto para a nação em si quanto para o mundo em geral”, diz um editorial da revista Nature, publicado em 25 de fevereiro. O texto faz duras críticas ao governo Trump e cobra apoio da comunidade internacional aos colegas norte-americanos. “Um ataque à ciência e aos cientistas em qualquer lugar é um ataque à ciência e aos cientistas em todo lugar”, diz a publicação britânica.

As críticas se referem a uma série de medidas adotadas pelo governo Trump nos primeiros dois meses de sua administração (iniciada em 20 de janeiro), incluindo demissões em massa, cortes de verbas, cancelamento de projetos, eliminação de programas, supressão de informações e a nomeação de figuras polêmicas para cargos importantes em diversas agências de pesquisa americanas. Nos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), por exemplo, mais de 1 mil funcionários foram demitidos, centenas de milhões de dólares em fomento à pesquisa foram congelados ou cortados, centenas de projetos em andamento foram cancelados e procedimentos para a avaliação de novos projetos foram suspensos por várias semanas, criando um represamento bilionário de recursos que deixaram de chegar às mãos de pesquisadores nesse período. 

Várias dessas medidas estão sendo contestadas na Justiça — em alguns casos, com sucesso —, mas há muita incerteza e apreensão sobre o que vai acontecer daqui para frente. Além dos cortes já implementados, um memorando oficial de 26 de fevereiro exige que todas as agências e departamentos do governo federal apresentem até 14 de abril um plano detalhado de reestruturação operacional e redução da força de trabalho (RIF, na sigla em inglês). O documento não estipula números, mas solicita uma redução “em larga escala” do quadro de servidores e a “eliminação máxima” de funções que não sejam obrigatórias por lei. O objetivo, segundo a Casa Branca, é reduzir o tamanho do Estado americano, que Trump considera excessivamente grande, ineficiente e corrupto na sua configuração atual.

Pesquisadoras avaliam resultados de um experimento no Centro Clínico dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos Estados Unidos – Foto: Clinical Center, National Institutes of Health/Flickr – CC BY-NC 2.0

A comunidade científica internacional reagiu com indignação. A Federação Europeia de Academias de Ciências e Humanidades (ALLEA) emitiu em fevereiro um declaração repleta de alertas. “A ALLEA está profundamente preocupada com o fato de que as ações da administração dos EUA possam ter consequências amplas e devastadoras para programas de pesquisa essenciais (globais), particularmente em áreas como saúde, clima, gênero e ciências sociais”, disse a entidade, que representa as academias de ciência de quase 50 países

A declaração é assinada por mais de cem organizações de dentro e fora da Europa, incluindo a Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). “A ciência é um bem comum da humanidade e seu enfraquecimento em qualquer nação afeta toda a comunidade global”, reforçou a ABC, em uma declaração própria, divulgada em 12 de março.

A SBPC também publicou uma carta de repúdio às ações do presidente americano. “As medidas de Trump fazem parte de uma estratégia clássica dos governos de extrema direita, que enxergam a ciência como um empecilho à realização de seus objetivos políticos ou ideológicos. O objetivo é minar a confiança da população na ciência e remover evidências científicas que possam se contrapor a seus interesses econômicos”, diz a nota da entidade, publicada em 13 de fevereiro e subscrita por mais de 50 organizações da comunidade científica nacional. “A estratégia é ter um controle rígido da ciência para que seja possível implementar políticas públicas baseadas em interesses políticos-ideológicos, e não em evidências científicas.”

Construção coletiva

Pesquisadores ouvidos pelo Jornal da USP destacam que o avanço científico e tecnológico da espécie humana é um processo de construção coletiva, no qual os EUA exercem um papel fundamental como protagonista na produção de conhecimento e no desenvolvimento de novas tecnologias em escala internacional. Por consequência, qualquer mudança que afete a capacidade dos Estados Unidos de produzir ciência tem potencial para impactar o desenvolvimento científico e tecnológico do mundo como um todo. “Quando você tem uma crise de financiamento nos EUA, essa crise rapidamente se alastra”, diz o professor do Instituto de Física e pró-reitor de Pesquisa e Inovação da Universidade de São Paulo, Paulo Nussenzveig. “Estão desarticulando um dos mais notáveis sistemas de geração e aplicação de conhecimento já desenvolvidos.”

Nesse contexto, uma eventual derrocada da ciência americana poderia prejudicar a capacidade da comunidade internacional de lidar com desafios globais que dependem intrinsicamente de conhecimento científico coletivo para serem superados, como a mudança climática, a transição energética e a segurança alimentar. 

“Na sociedade do conhecimento, todos os grandes problemas mundiais precisam da ciência para serem resolvidos. Sem ciência, nenhuma das grandes metas endereçadas nos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (das Nações Unidas) serão atingidas”, avalia Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da USP e vice-presidente da SBPC. “Então, desse ponto de vista, é um retrocesso enorme para a humanidade.”

O presidente da SBPC e professor da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, Renato Janine Ribeiro, disse estar estupefato com o fato de Trump estar agindo “sem nenhuma contenção” e de forma tão destrutiva. “Ele mente, ele ameaça, ele toca o terror — para usar uma expressão vulgar”, disse o filósofo ao Jornal da USP, no fim de fevereiro. “Está muito difícil antever o que vai acontecer. O que está visível, por enquanto é que é um governo sem limites.”

O presidente americano Donald Trump aponta para o público durante participação na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), em 22 de fevereiro de 2025 – Foto: The White House via Flickr

Objetivo velho, estratégia nova

Não é a primeira vez que Trump entra em conflito com a ciência. Em seu primeiro mandato como presidente (2017-2020) o líder republicano tentou por repetidas vezes cortar o orçamento de agências de pesquisa federais, incluindo do NIH, da Nasa e da Fundação Nacional de Ciências. Todas essas propostas, porém, foram derrubadas pelo Congresso americano, que não só rejeitou os cortes como aumentou o orçamento das agências, numa demonstração clara de apoio suprapartidário à ciência nacional. 

Mas a situação agora é outra. Além de contar com maioria republicana no Congresso para facilitar a aprovação de suas propostas, Trump empregou uma nova estratégia e começou a cortar recursos (humanos e financeiros) das agências federais quase que imediatamente por meio de ordens executivas (decretos) e outras intervenções que não requerem aprovação do Congresso.

A “tesouraria” desse processo é o novo Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), criado por Trump e liderado pelo bilionário Ellon Musk, que recebeu carta-branca do presidente para intervir em praticamente todas as engrenagens da máquina pública federal. A transparência das ações é mínima, o que torna difícil saber o número exato de funcionários demitidos. Relatos na imprensa americana falavam em cerca de 100 mil pessoas até o início de março, incluindo funcionários que foram demitidos ou aceitaram incentivos do governo para pedir demissão. 

Muitos desses cortes estão sendo contestados na Justiça. O Departamento de Agricultura (USDA) chegou a demitir cerca de 6 mil funcionários no início de fevereiro, mas teve que recontrata-los temporariamente (por um período de 45 dias) por ordem de uma comissão federal que supervisiona questões trabalhistas. Antes disso, por iniciativa própria, a pasta teve que recontratar vários especialistas em gripe aviária que teriam sido demitidos por engano, num momento em que o país luta para conter surtos da doença. A nova secretária de Agricultura, Brooke Rollins, justificou os cortes dizendo que eles deixariam o departamento “melhor, mais forte, mais rápido e mais eficiente”. A pasta tem um orçamento de pesquisa de US$ 1,8 bilhão para este ano.

Na Agência de Proteção Ambiental (EPA), o novo diretor Lee Zeldin disse que planeja cortar 65% do seu orçamento. Uma das medidas seria acabar com o Escritório de Pesquisa e Desenvolvimento da EPA, responsável pela realização de estudos que orientam cientificamente o trabalho da agência — por exemplo, para estabelecer limites de poluição ou medir a toxicidade de substâncias químicas. Mais de 1,1 mil funcionários do escritório seriam cortados nessa ação, além de centenas que já foram demitidos ou optaram por deixar a agência em fevereiro. 

Cortes ainda mais profundos são previstos para o orçamento de 2026, cuja proposta deve ser encaminhada pela Casa Branca ao Congresso nos próximos meses. (O ano fiscal americano começa em outubro e termina em setembro. O orçamento em vigor nesse momento foi aprovado ainda no governo Biden.) A meta anunciada por Trump e Musk é cortar US$ 2 trilhões em gastos do governo federal nos próximos dez anos.

Vista aérea do Centro Clínico do NIH, maior hospital dedicado a pesquisas clínicas nos Estados Unidos – Foto: National Institutes of Health/Flickr – Domínio público

Saúde em risco

Uma das situações mais preocupantes no momento é a dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), referência mundial em pesquisas biomédicas, voltadas para a compreensão e a cura de doenças. Trata-se de uma rede federal de 27 centros de pesquisa, cada um deles dedicado a um tema específico, como câncer, envelhecimento, saúde mental, vacinas e doenças infecciosas. 

Cerca de 1.200 funcionários do NIH foram demitidos e várias atividades da instituição foram suspensas nos últimos dois meses. No início de fevereiro, o instituto anunciou que passaria a limitar o pagamento de “custos indiretos” a 15% do valor total dos projetos de pesquisa, o que representaria uma redução brutal no volume de recursos repassados a universidades e outras instituições que abrigam projetos financiados pela agência. (Custos indiretos, ou “overhead costs”, são aqueles relacionados à manutenção predial, serviços técnicos e processos administrativos realizados pelas instituições que sediam os projetos. O porcentual varia de uma instituição para outra, mas gira em torno de 40% do valor dos projetos.) A medida foi temporariamente suspensa por uma decisão judicial, em resposta a uma ação movida por dezenas de Estados e universidades americanas; mas o processo segue em disputa.

Além da redução de recursos humanos e financeiros, há muita preocupação com relação às prioridades de pesquisa da nova administração. O novo chefe do Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS), Robert F. Kennedy Jr., a quem o NIH está subordinado, é amplamente conhecido por propagar teorias conspiratórias e pseudocientíficas sobre diversos temas, incluindo vacinas, água fluoretada e HIV/Aids. 

Dezenas de projetos financiados pelo NIH que estudavam temas relacionados à hesitação vacinal ou buscavam desenvolver estratégias para encorajar a vacinação foram cancelados nas últimas semanas, assim como centenas de projetos relacionados a diversidade, equidade, inclusão (DEI, na sigla em inglês) e outros temas que Trump busca expurgar da administração pública federal, como gênero e sexualidade — mesmo que eles estejam sendo estudados num contexto de saúde pública. 

Já os Centros para Controle e Prevenção de Doenças (CDC), que também são subordinados ao HHS, foram orientados a reinvestigar o possível link entre vacinas e autismo — uma hipótese sem fundamento, que já foi amplamente investigada e desmentida nas últimas décadas, inclusive pelo próprio CDC, mas que segue sendo difundida por grupos antivacina na internet e nas redes sociais.

A presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Helena Nader, disse que o desmonte do NIH seria “trágico” para a biomedicina no mundo todo. A agência americana é a maior fonte de financiamento para pesquisas biomédicas no planeta, com um orçamento anual de aproximadamente US$ 47 bilhões. “O impacto vai ser muito grande, inclusive para a indústria farmacêutica”, ressaltou Nader, que é biomédica e professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Ela faz um paralelo com o que aconteceu no Brasil durante o governo Bolsonaro e alerta que esse impacto é de longo prazo. “Depois que você desmantela não é fácil remontar”, diz. “Construir é muito lento; destruir é muito rápido.” 

O geneticista Carlos Menck, professor do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, também está apreensivo; mas disse que a ciência é resiliente e que é preciso esperar para ver se Trump vai ser realmente capaz de implementar tudo que está ameaçando fazer. “Se daqui três ou quatro anos tiver menos ciência sendo produzida nos Estados Unidos, é algo que vai desacelerar a ciência no mundo todo, certamente”, disse Menck ao Jornal da USP. Ele lembra que mesmo as grandes universidades privadas americanas, como Harvard e Stanford, dependem fortemente de recursos públicos para financiar seus laboratórios e as pesquisas que são realizadas dentro deles. Em muitos casos, até os salários dos pesquisadores provêm de verbas de pesquisa. “Se esse financiamento público for cortado, não sei como é que elas vão fazer.”

A Universidade Columbia, em Nova York, foi uma das mais impactadas até agora. No início de março, o governo Trump mandou cortar US$ 400 milhões em financiamento previsto para a instituição, incluindo US$ 250 milhões que seriam alocados pelo NIH para financiar centenas de projetos de pesquisa sobre Alzheimer, diabetes, obesidade, câncer e outros temas na área da saúde, segundo reportagem da revista Science. A justificativa apresentada pelo governo é que a universidade não estaria fazendo o suficiente para combater o anti-semitismo em seu câmpus. Outras 59 universidades foram notificadas no início de março pelo Departamento de Educação de que estão sendo investigadas pelo mesmo motivo. 

Já a Universidade Johns Hopkins anunciou no início de março que iria demitir mais de 2 mil pessoas em função de um corte de US$ 800 milhões em financiamento do governo federal para projetos de pesquisa que são conduzidos pela instituição, dentro e fora dos Estados Unidos. Nesse caso, os recursos eram oriundos da Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (USAID, em inglês) que foi quase que completamente desmontada pelo governo Trump, sob o argumento de que ela era permeada de fraudes e liderada por “lunáticos da extrema esquerda”. Cerca de metade do orçamento operacional da Johns Hopkins provém de verbas federais de apoio à pesquisa, segundo reportagem do jornal The New York Times. A universidade, que é referência mundial em pesquisas biomédicas, recebe cerca de US$ 1 bilhão por ano em financiamento do NIH e está conduzindo cerca de 600 estudos clínicos, segundo a reportagem.

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*Estagiária sob supervisão de Moisés Dorado

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