Desdolarização representa quebra de paradigma nas trocas comerciais globais, mas não rompe relações de subserviência

Publicado originalmente em Jornal da UFRGS. Para acessar, clique aqui.

Macroeconomia | Países do sul global se aliam no objetivo de anular a hegemonia do dólar estadunidense, mas desdolarizar não necessariamente significa apoiar políticas de soberania nacional

*Foto: Moeda de 25 centavos de dólar, chamada nos Estados Unidos de “quarter” (Foto: Flávio Dutra/JU)

Imagine que toda vez que, ao efetuar uma compra, você fosse obrigado a utilizar uma moeda diferente da qual você já possui. E, além disso, o valor dessa moeda flutuasse constantemente. Estranho, né?

Ou pior, digamos que você precise de um empréstimo, e solicita crédito ao banco, mas, em contrapartida, a instituição exige que as paredes da sua casa sejam pintadas de uma cor de escolha deles – mais esquisito ainda!

É mais ou menos assim que o mercado mundial funciona, e essas dinâmicas, conforme explica o professor do departamento de Economia e Relações Internacionais da UFRGS e especialista em História do Pensamento Econômico Andrés Haines, se amparam no “problema do dólar, que é fundamental e historicamente usado pelos Estados Unidos como ferramenta de coerção geopolítica”.

Em resposta à onipresença da moeda estadunidense nas exportações internacionais, algumas nações, como China e até mesmo o Brasil, têm experimentado o que tem sido chamado por especialistas de processo de desdolarização.

Esse movimento representa uma tentativa das nações de ocupar um local de protagonismo no cenário internacional que traga confiança e valorização de suas moedas locais, além de causar uma fissura no império estadunidense, que há muito perdura nas dinâmicas internacionais.

As raízes do dólar como moeda-base

O dólar mantém-se a moeda mais utilizada para trocas comerciais internacionais desde a Conferência Monetária e Financeira das Nações Unidas, realizada em Bretton Woods, em 1944, quando a Segunda Guerra Mundial se encaminhava para o fim.

Um dos legados da conferência – além da consolidação dos EUA enquanto potência econômica mundial – é a criação do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Internacional para a Reconstrução e Desenvolvimento (Bird), entidades encarregadas pela regulação das taxas de câmbio internacionais através da utilização do dólar como base.

Além de ditar e fiscalizar o comércio internacional, os bancos forneciam empréstimos às nações que se encontravam destruídas pela Segunda Guerra. Durante o século XX, essas instituições foram a força motriz no reestabelecimento de Estados por meio da injeção de recursos e, de quebra, da promoção de projetos políticos libertários.

No entanto, em função de os Estados Unidos deterem o maior poder de voto nas decisões das diretrizes estabelecidas pelos bancos na hora da aprovação da concessão e aplicação de crédito, logo as organizações se tornariam instrumentos de coerção geopolítica.

Para ter acesso aos empréstimos, os países membros do FMI e Bird deveriam se submeter a contratos rigorosos, cujas cláusulas extrapolavam as condições de um contrato de crédito convencional: além de quitar o valor cedido no prazo estabelecido, também eram exigidas a privatização de estatais e a abertura comercial, o que demonstrava um alinhamento ideológico dos bancos com os ideais da nação soberana à época, os Estados Unidos.

Essa estratégia de coerção ficou ainda mais evidente no Consenso de Washington, realizado em 1989. Durante a reunião, composta por economistas dos principais bancos dos EUA, o Fundo Monetário Internacional elaborou recomendações econômicas, com foco nos países latinos, que deveriam ser estritamente seguidas, caso o país interessado quisesse seguir com a contratação do empréstimo subsidiado pelo Fundo.

Esse, inclusive, foi um dos motivos da implementação do Plano Real, em 1994, no governo de Itamar Franco, uma vez que ia de acordo com os ideais de controle inflacionário exigidos em contrapartida à contratação do empréstimo junto ao FMI. Mais tarde, diversas estatais brasileiras foram privatizadas, também conforme previsto pelo acordo.

Além das necessidades de alterações políticas e econômicas nacionais, o FMI e Bird se tornariam um importante método de controle das reservas internacionais dos outros países, isto é, o quanto cada nação tem, em estoque, de moedas estrangeiras.

De acordo com o Fundo Monetário Internacional, 59% das reservas cambiais globais são em dólares. O bloqueio dessas reservas, portanto, é uma forma de sanção econômica, que foi acionada em 2022 contra a Rússia, quando o país foi destituído da participação no Swift (sistema responsável por facilitar trocas monetárias internacionais) e teve cerca de US$ 630 bilhões de seu fundo monetário bloqueados como forma de represália à invasão à Ucrânia.

Andrés explica que essas reservas geram uma assimetria por parte dos Estados Unidos com o restante do mundo. E os países, com receio de serem sancionados, evitam ir além das dinâmicas comerciais já instauradas em função da força coercitiva do dólar. É justamente nessa problemática que o Brics – grupo formado por grandes economias emergentes – tem tentado atuar.

O dólar segue sendo a moeda de trocas internacionais mais utilizada no comércio internacional
Detalhes de notas de 1, 5, 20 e 100 dólares. As imagens que ilustram essa matéria foram feitas a partir de uma ideia original do fotógrafo Fernando Schmitt, em seu ensaio “Dinheiros”, disponível em https://fernandobschmitt.myportfolio.com/dinheiros
Por uma economia multipolar

O Brics se trata de uma organização internacional composta, inicialmente, por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Desde o ano passado, no entanto, outros seis países entraram no grupo: Arábia Saudita, Argentina, Egito, Etiópia, Irã e Emirados Árabes Unidos.

Na época da concepção do Brics, os líderes dos países fundadores deixaram clara a intencionalidade por trás da união internacional: a alteração do sistema financeiro global unipolar, instaurado pela hegemonia estadunidense e europeia, para um modelo multipolar, que preza pela cooperação entre os países tidos como subdesenvolvidos.

De acordo com a pesquisadora do Núcleo Brasileiro de Estratégia e Relações Internacionais da UFRGS (Nerint/UFRGS) e professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Cristina Pecequillo, essa movimentação representa a quebra de um paradigma, na medida em que desloca as relações comerciais do eixo ocidental ao eixo oriental e as converte em uma potencial soma de forças.

“Há uma tentativa de diminuir a dependência do dólar e reforçar laços econômicos entre as nações do Brics, que são motores do desenvolvimento de suas regiões, principalmente na Ásia”

Cristina Pecequillo

E a pergunta que fica é: o que o Brics tem feito para atingir esse objetivo?

Uma das medidas mais concretas, que demonstra a postura de enfrentamento e possível consolidação do grupo como alternativa ao atual sistema, foi a criação de sua própria instituição financeira, o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), cuja representação diretiva agora se dá pela ex-presidenta Dilma Roussef.

Também conhecido como “Banco do Brics”, o NBD surge como uma espécie de entidade equiparável ao Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (Bird), cujo objetivo principal é investir na infraestrutura de países em desenvolvimento e possibilitar a cooperação entre países emergentes.

Embora o poder monetário não esteja no mesmo patamar – o NBD detém 35% do PIB mundial, enquanto o Bird fica na casa dos 41% –, há algumas diferenças que tornam o Banco do Brics um atrativo.

Por exemplo, os países que compõem o Novo Banco de Desenvolvimento, diferentemente do Bird, não têm o poder de veto unilateral quando se trata de acatar ou não uma solicitação de crédito. Além disso, a entidade também incentiva o empréstimo em moeda local, o que se torna uma alternativa vantajosa quando comparado às restrições mais duras dos bancos tradicionais, que requerem alinhamentos ideológicos.

Essa flexibilidade é um dos pontos-chave para o desenrolar do processo de desdolarização que, apesar de ainda lento, representa uma mudança nas dinâmicas internacionais por se tratar de “transações que ocorrem preferencialmente a partir das moedas dos próprios países”, explica Cristina.

A especialista ainda acrescenta que “a desdolarização é justamente isso. Fazer com que o dólar não seja usado nas transações ou empréstimos, ou seja, tirar o dólar do circuito financeiro, o que torna as sanções econômicas dos Estados Unidos menos efetivas”.

O dólar fora do jogo

As trocas comerciais sem a mediação do dólar já são uma realidade entre os membros do Brics. Relações bilaterais entre Rússia e China, por exemplo, efetivam trocas comerciais em suas respectivas moedas.

Cristina explica que esse movimento, adicionado aos demais esforços que vêm sendo realizados pelos integrantes do Brics, culmina no desgaste do “poder dos Estados Unidos de gerar dívidas, pois agora outros países podem difundir essa agenda”.

Além das trocas que ocorrem por fora das instituições tradicionais, o Brics acaba se tornando uma alternativa aos países sancionados. É o caso do Irã, que sofre com embargos estadunidenses desde 1995 e recentemente se juntou ao bloco econômico alternativo.

Para Cristina, a inclusão de países à margem nos planos de investimento do Brics, mesmo que represente a manutenção de uma dependência econômica, ou até mesmo o que o ocidente tem chamado de “armadilha da dívida armada pela China”, não é relevante para os que estão em apuros.

“O país em desenvolvimento não quer exatamente saber disso, pois ele [o país] sabe que ficará dependente de uma forma ou de outra, o que importa é de quem e com quais condições”

Cristina Pecequillo

No entanto, a especialista alerta para o que chama de “interdependência econômica”, que vem a ser exatamente o caso do Brasil.

Industrializar ou lucrar, eis a questão

A interdependência econômica é caracterizada por um relacionamento comercial internacional que gera demanda de uma das partes por um item específico. Consequentemente, a outra parte produz uma mercadoria altamente especializada.

De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, a China é a principal parceira comercial do Brasil, e o setor econômico que mais lucra com essa colaboração, e que cresce todo ano, é também o que tem profundos impactos ambientais: o agronegócio.

Na relação comercial sino-brasileira, a soja é a commodity mais atrativa – rendeu US$ 57,94 bilhões no ano de 2024 –, seguida por petróleo, ferro e carne bovina.

As commodities são produtos primários que não exigem nenhum tipo de manufaturação ou complexidade tecnológica. O Brasil se especializou nesse tipo de produto e, agora, necessita continuar a produzir para manter girando a economia nacional.

Além de maior parceira econômica, a China tem demonstrado reconhecer o potencial tecnológico brasileiro. Exemplo disso é a montadora chinesa BYD, referência em carros elétricos, que anunciou o começo da produção de automóveis da marca no Brasil.

A companhia começou a ocupar uma fábrica na Bahia que outrora pertencia à Ford, o que demonstra simbolicamente como a China tem ocupado espaços comerciais que anteriormente pertenciam aos estadunidenses.

A coexistência da condição brasileira de celeiro do mundo juntamente ao potencial tecnológico impulsionado por investimentos chineses geram uma dicotomia de resolução complexa.

“O Brasil está tentando fazer um equilíbrio entre renovação da política industrial e […] as vantagens que tem com o agronegócio. Esse é o discurso. Mas na prática há o risco de o Brasil ser simplesmente um fornecedor de commodities”, pondera Cristina.

Assim, ao passo que as relações multilaterais financeiras se mostram efetivas na decomposição do poder coercitivo do dólar, pois alteram as dinâmicas vigentes, resta saber qual caminho o Brasil decidirá seguir: de mero exportador de commodities ou de um país que abraça o potencial de seus pesquisadores e investe em tecnologia.

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