Publicado originalmente em Agência Lupa por Victor Terra. Para acessar, clique aqui.
Cinco anos após a pandemia de Covid-19, conteúdos desinformativos em saúde, que vão da negação das vacinas a receitas milagrosas, não param de circular. Mas o que mudou e o que permaneceu no cenário midiático e das redes, de 2020 até hoje? Para responder a essas questões, a Lupa entrevistou Igor Sacramento, pesquisador e professor em Comunicação e Saúde na Fiocruz e UFRJ.
Há oito anos investigando canais de Telegram e grupos de WhatsApp antivacina, alguns com até 300 mil integrantes, Sacramento analisa o impacto das narrativas anti-ciência no aumento da hesitação vacinal, as mudanças no modus operandi da desinformação em saúde e a apropriação política do tema por parte da extrema-direita e do neoliberalismo autoritário no Brasil e no mundo. Na entrevista, o especialista defende a educação midiática e científica, bem como o investimento em comunicação e tecnologia como chaves para reduzir a aderência da população aos discursos negacionistas.
“Investir na comunicação é o que está faltando para que possamos, se não vencer a batalha da desinformação em saúde, pelo menos batalhar de forma mais equânime”, diz o especialista que atua como pesquisador no Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fiocruz e no Núcleo de Estudos e Projetos em Comunicação da UFRJ, onde também é professor.
Confira os principais trechos da entrevista:
Da ruptura institucional à hesitação vacinal: o legado pós-pandemia
Antes do governo de Jair Bolsonaro havia entre a população brasileira uma ritualidade de ir ao posto se vacinar, a praça cheia para as pessoas se vacinarem. Era como uma celebração da cidadania. O Programa Nacional de Imunizações (PNI) foi criado durante a Ditadura Militar, em 1976, ligado a uma perspectiva de suposta integração nacional, civilização e modernização do país. A ideia era vacinar para não sermos um país atrasado.
Quando o próprio presidente da República e seus políticos apoiadores, durante a pandemia, começam a duvidar de informações baseadas em evidências científicas, isso produz efeitos graves na população, que estamos sentindo até hoje.
– Igor Sacramento, pesquisador da Fiocruz e UFRJ
Quando o próprio presidente da República e seus políticos apoiadores, durante a pandemia, começam a duvidar de informações baseadas em evidências científicas, isso produz efeitos graves na população, que estamos sentindo até hoje.
Surgem grupos antivacina fortes, muitos deles reunindo testemunhos de pessoas que tiveram supostamente problemas com alguma vacina. Mas, o que também chama atenção são grupos médicos antivacina, que começam a crescer muito, e até hoje se mantêm.
Canais de Telegram impactam milhares no Brasil
[O impacto] é muito grande. São canais com milhares de pessoas. Atualmente, analiso 15 grupos no Telegram. O maior deles tem 300 mil pessoas, outros, 200 mil. Os menores têm 20 mil participantes. É muita gente. O poder de disseminação disso é enorme. São muitas pessoas recebendo esse conjunto de notícias e informações, que reforçam a narrativa anti-ciência.
Enquanto grupos de testemunhos da Covid-19 estão diminuindo, há uma tendência de crescimento de grupos antivax voltados para a saúde da criança. Há um receio crescente de pais e mães com a vacinação infantil, o que pode se tornar um problema de saúde pública, na medida em que essas crianças podem ter problemas ligados a doenças que já estavam erradicadas, como meningite, sarampo e caxumba, por exemplo.
Hesitação vacinal
A hesitação vacinal ultrapassou a Covid-19 e começou a se espalhar para outras imunizações do calendário vacinal. Algumas vacinas muito básicas e já bem estabelecidas, como a contra a meningite, são postas em dúvida. Há uma disseminação não só do risco de se vacinar mas também quanto à possibilidade de que a imunização gere alguma doença. Mesmo com a pandemia controlada, a narrativa do risco e do medo da vacina continua.
Por recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS), os números [de cobertura vacinal] têm que estar acima de 90% [da população] e durante a pandemia chegaram a bater menos de 60% em 2021. Tivemos muitos problemas recentes com a vacinação da dengue: falta de estoque e de abastecimento de vacina em postos de saúde, um calendário vacinal não unificado. Em um contexto delicado, pós-pandêmico, de tanta desinformação, o resultado é a produção de mais dúvidas. Ou seja, as próprias ações do governo, neste cenário sensível, criaram narrativas que tiveram aderência social muito maior do que já tiveram anos atrás. Isso contribui para a desinformação.
A partir de 2023, temos um momento de melhora na hesitação vacinal no Brasil, mas ainda aquém do esperado. [Dados do IBGE mostram que o total de cidades no país que alcançaram o índice de cobertura vacinal infantil esperado aumentou em 20% – de 1.745 em 2022 para 2.100 em 2023. No entanto, o crescimento corresponde a apenas 37% do total de 5.568 municípios brasileiros.]
A vacina para meningite, hoje, é um dos alvos da hesitação. Muita gente nos grupos antivacina fala: “Ah, não tem mais essa doença. Não vou vacinar meu filho porque não vejo ninguém tendo”. Percebe essa associação? Se ninguém tem, se não percebo, não preciso vacinar. Só que ninguém tem porque as pessoas se vacinaram. O argumento deveria ser o contrário.
Populismo anti-ciência: a vacina associada ao comunismo
Compreender a saúde pelas dimensões política e ideológica se instaurou de tal maneira que vai ser muito difícil desassociá-las. [Falar em vacina e saúde] se tornou uma questão política e ideológica partidária também. Porque vacinar se tornou, para alguns setores da sociedade, ”uma coisa de comunista, de petista”. Nos 15 canais de Telegram e grupos de WhatsApp que acompanho, vejo circular uma conceituação extremamente genérica de comunismo.
Em comunismo cabe tudo aquilo com o qual se discorda, tudo aquilo que é progressismo. Ideologia de gênero, luta anti-racismo, defesa da vacina. Tudo isso é visto como comunismo. Temos um deslocamento da vacina, antes entendida como um bem nacional e forma de promoção da saúde do país, para uma ideia reduzida ao comunismo.
– Igor Sacramento, pesquisador da Fiocruz e UFRJ
E não dá para desassociar [a hesitação vacinal] do neoliberalismo autoritário que a gente vive e que se associa à extrema-direita. Um neoliberalismo autoritário que se utiliza de bandeiras como a da liberdade individual para promover a anti-ciência, o anti-Estado, o anti-establishment, a anti-saúde coletiva e pública. Promove a ideia de que essas práticas devem ser de escolha individual. “Eu devo escolher o que fazer ou não”’.
Ao mesmo tempo, esse neoliberalismo autoritário guarda marcas com o fascismo, com o culto ao líder e a ideia de nacionalismo. Estamos vendo, no segundo governo Trump, a questão da guerra da taxação, ligada à narrativa da soberania nacional e de um culto à essência nacional. Então não tem raça, não tem gênero, tem americano. É a construção de um “nós versus eles”.
Impacto da mentalidade antivacina para o futuro da saúde
Na visão desses grupos antivacina, quem se vacina são os “outros”. No outro que eu quero reprimir, no outro indesejável. Na lógica do neoliberalismo autoritário, a vacinação é esse “outro”, o representante do Estado. Esse outro autoritário, que se impõe ao meu corpo como uma forma de controle. “Se eu não quiser, não me vacino, porque tenho informação suficiente para acreditar que a vacinação é prejudicial”.
Este jogo retórico-argumentativo vem crescendo e é uma marca indelével e muito prejudicial para o futuro da saúde global, na minha avaliação. Em breve, veremos doenças já que estavam totalmente controladas retornando, em especial nos países do Sul Global.
“Aqui as pessoas pensam como eu”
Não é exagero afirmar que a expansão das narrativas e comunidades antivacina e anti-ciência é consequência direta da desinformação. Para além disso…
[…] a desinformação no campo da saúde se tornou uma estratégia política para um processo de consolidação de um autoritarismo de extrema direita e de um tipo de populismo anti-ciência, anti-Estado.
– Igor Sacramento, pesquisador da Fiocruz e UFRJ
Hannah Arendt argumenta que a mentira é parte da política. Isso não é novo. O que é novo é o ecossistema midiático. O ritmo em que a desinformação reverbera, de maneira ampla e permitindo a produção de vínculos entre pessoas que pensam da mesma forma. Grupos que se reúnem e que se identificam, criando um senso de comunidade. “Aqui, as pessoas pensam como eu”. Aquele tiozão do churrasco que falava besteira e a gente ignorava, hoje encontrou os seus nesses grupos e canais.
Charlatanismo e curas milagrosas
Piorou a quantidade de casos envolvendo a venda de produtos curativos, milagrosos e também os preparados – que não chamo de remédios, porque não têm eficácia comprovada [1], [2], [3]. Isso já existia há muito tempo. No começo do século, na gripe espanhola, já havia venda de elixires, por exemplo. Faz parte de uma narrativa de busca por uma panaceia: entre o novo e o que já está disponível, prefiro o alternativo, o novo, o milagroso.
O problema é que o charlatanismo em saúde não promove o diálogo. Ele diz que é isso que você deve fazer e pronto, porque ele quer vender. E isso tem crescido muito nos grupos de Telegram, além da venda de atestados médicos, para que crianças possam se matricular e frequentar a escola sem precisar tomar vacina.
Divulgadores científicos: por onde andam?
Durante a pandemia, vivemos um momento de crise muito agudo e figuras como Átila Iamarino, Margareth Dalcolmo e Drauzio Varella, foram decisivas para falar com o grande público. Depois, foram retornando aos seus nichos. Agora, no pós-pandemia, o trabalho tem sido outro, voltado para a questão da institucionalização da divulgação científica. Esse trabalho ainda fica muito jogado para o pesquisador e precariza o trabalho dele, porque além de pesquisar, tem que divulgar ciência.
Também entendo que não podemos mais achar que o momento para divulgar ciência é apenas nas crises. As universidades e instituições de ciência e saúde têm que se preparar para promover uma divulgação pública e constante da ciência. Museus de ciência e outros espaços de maior democratização, diferente da lógica transferencial e autoritária. Fazer circular o conhecimento. Falar só em mito e verdade não funciona. Tem que ter um processo educacional e formativo, de média e longa duração.
Nesse sentido, educação midiática e educação científica são fundamentais. E não é só para criança, é um processo formativo contínuo. Os adultos também precisam ser educados midiática e cientificamente. Não é só nas escolas, mas nas ruas, na praça pública, com saraus, seminários abertos, mostras de cinema.
Investir na comunicação e se antecipar à desinformação
Se seguirmos com o cenário que temos hoje, a tendência será de continuação desse impacto da desinformação no campo da saúde. Temos o crescimento dos grupos e comunidades antivacina e o avanço [das tecnologias] de Inteligência Artificial (IA) e deep fakes, que se sofisticam e dificultam o processo da contra-narrativa em defesa da vacina.
Por isso, precisamos buscar antecipação, ação que passa por sermos capazes de observar as tendências, monitorar as redes sociais, fazendo isso em articulação com outras áreas que não apenas a comunicação e a saúde. Recorrer a especialistas de dados, da computação.
Mas bate numa outra questão. Enquanto as equipes, sejam governamentais ou não governamentais, não forem estruturadas e não houver recurso para isso, vamos sempre estar atrás. É preciso entender a centralidade da comunicação no combate à desinformação em saúde. E não só entender, mas fazer com que esse entendimento se converta em infraestrutura pessoal, formativa e estrutural, estruturante, física, tecnológica, metodológica. A comunicação é importante não só como instrumento, ferramenta, que é muito comum na saúde ainda.
Investir na comunicação é o que está faltando para que possamos, se não vencer a batalha da desinformação em saúde, pelo menos batalhar de forma mais equânime. Enquanto não houver recursos e investimento para isso, vamos sempre estar atrás.
*Igor Sacramento é doutor e mestre em Comunicação e Cultura pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ), onde também realizou pós-doc e atua como professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGCOM/UFRJ). É pesquisador do Núcleo de Estudos e Projetos em Comunicação (NEPCOM/ECO/UFRJ) e do Laboratório de Pesquisa em Comunicação e Saúde do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Laces/Icict/Fiocruz), onde atua como professor do Programa de Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde (PPGICS).
É especialista em temas como história da comunicação; narrativas biográficas; representações culturais; regimes de verdade; processos de subjetivação e discursos sobre corpos, saúde e doenças, sobre os quais tem livros publicados. Atualmente, coordena um projeto de pesquisa sobre os testemunhos antivacinação no Brasil e outro ligado à formação de comunicadores da saúde em contextos de desinformação. É vice-presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores de História da Mídia. Foi pesquisador na École des Hautes Études en Sciences Sociales, na França e é editor científico da Revista Eletrônica de Comunicação, Informação e Inovação em Saúde (RECIIS), da Fiocruz.
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