Produção da vacina contra dengue pelo Instituto Butantan poderá alcançar 60 milhões de doses anuais

Publicado originalmente em Jornal da USP. Para acessar, clique aqui.

Esper Kallás diz que o Butantan atende a uma solicitação do Governo Federal e que a vacinação em larga escala deverá ter seu início em 2026

O governo anunciou para 2026 o início de uma campanha de vacinação contra a dengue, que prevê ofertar 60 milhões de doses  anuais. O imunizante de dose única, que protegerá contra quatro sorotipos da dengue, está em produção no Instituto Butantan e tem como público alvo a população entre dois e 60 anos de idade incompletos.

O professor Esper Kallás, docente titular da Faculdade de Medicina da USP e diretor do Instituto Butantan, explica que a iniciativa faz parte dos editais do Programa de Desenvolvimento e Inovação Local (PDIL) e de Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDP), do Ministério da Saúde. Três dos quatro projetos contemplados são do Instituto Butantan, sendo dois deles relacionados ao combate da dengue. 

No mesmo evento que anunciou os projetos selecionados pelos editais, o governo demonstrou também a intenção de adquirir 60 milhões de doses para a distribuição em uma campanha de imunização em 2026. Contudo, o professor ressalta a necessidade da aprovação da Anvisa antes da produção das doses em grande quantidade e do início da campanha. “O nosso pacote para pedido de liberação da vacina foi completo em dezembro de 2024 […]. Somente com a liberação da agência essa vacina pode seguir adiante para ser utilizada aqui no Brasil. Qualquer produto feito no Brasil para utilização em pessoas, desde um quimioterápico até um creme que você passa na pele, depende da aprovação da agência. É uma agência super importante, fazem um papel de avaliar a qualidade, a segurança de tudo que é usado em pessoas – com a vacina da dengue não seria diferente.”

Homem branco, meia idade, usando óculos e vestindo camisa branca com gravata de cor escura.
Esper Kallas – Foto: Repreodução

Tecnologia de proteção

O docente descreve o desenvolvimento do imunizante como uma vitória da ciência brasileira. Ele conta que o projeto se iniciou nos anos 90, com a transferência de licença de desenvolvimento de uma vacina descoberta por Steve Whitehead, um pesquisador dos Estados Unidos. Duas décadas depois, o medicamento passou na frente de seus concorrentes por ser capaz de combater a dengue com apenas uma dose aplicada. Além disso, a vacina é tetravalente, ou seja, oferece proteção contra os quatro tipos de vírus da dengue. Como um terceiro fator diferencial, Kallás menciona a grande eficiência do imunizante: “É uma vacina que consegue proteger muito bem pessoas de dois anos até 60 anos de idade incompletos, que é a faixa etária mais ampla das vacinas testadas até hoje. E a gente já tem dados mostrando que, passados 3,7 anos depois da última aplicação de uma dose da vacina, as pessoas mantêm ainda uma proteção. […] Agora a gente está analisando os dados de cinco anos”.

A respeito dos resultados de testes, realizados por todo o País e envolvendo quase 17 mil pessoas, o professor aponta indicadores promissores: “[O estudo] mostrou que a vacina é muito boa, muito eficaz na proteção da dengue um e dois. Nós não tivemos nesse período ocorrência de casos de dengue três e quatro. Mas tem dados indiretos, que é a quantidade de anticorpos protetores e alguns experimentos feitos fora do Brasil, nos Estados Unidos, que utilizaram de artifícios de infecção experimental, que a vacina também protege muito bem contra o tipo três”.

Ele reforça que o vírus da dengue, introduzido no Brasil na década de 80, trouxe grandes problemas ao País e muitas mortes, sendo os dados a respeito da doença em 2024 ainda preocupantes. A vacina em desenvolvimento, então, pode ser um instrumento poderoso, aliado ao combate às formas tradicionais de transmissão da doença, explica Kallás. O imunizante ainda não é indicado a pessoas com algum defeito do sistema imunológico, gestantes e à população acima de 60 ou abaixo de dois anos, que também serão contemplados por uma nova pesquisa que se iniciará em 2025, no Instituto Butantan.

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