10 de Março de 2025 | AINDA ESTAMOS AQUI, ESPANTADOS E PERSISTENTES

Publicado originalmente em Observatório de Comunicação Pública (OBCOMP). Para acessar, clique aqui.

Réveillon no Brasil ocorre em algum dia depois do carnaval e o OBCOMP retorna sem as desculpas que poderiam justificar a ausência de atualizações. Desse lugar privilegiado que permite observar e criticar, continuaremos a compartilhar informações e experiências que impactam os processos da comunicação pública e da política e, consequentemente, os modos de estar no mundo.

Sob a perspectiva do interesse público que rege as democracias e a respectiva comunicação – a comunicação pública –, compartilhamos observações alinhadas a três acontecimentos públicos recentes, que têm potencial para ser transformados em instigantes objetos de pesquisa. São acontecimentos que agregam perspectivas diversas relacionadas a temas do campo da comunicação política e ao debate público que apontam para as crises das democracias contemporâneas e o poder da comunicação. Abordaremos, então, um aspecto da conjuntura nacional relacionado à (in)comunicação do governo brasileiro e a avaliação da opinião pública sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva; o comportamento autoritário do atual presidente estadunidense, Donald Trump; e o debate público gerado pela audiência e reconhecimento internacional do filme Ainda Estou Aqui.

A comunicação do governo Lula e a baixa popularidade obtida pelo presidente nas pesquisas permitem abordar, especificamente, o exercício da comunicação pública.  Estudos desenvolvidos no campo da comunicação política têm situado a comunicação na redemocratização do Brasil como uma das características mais importantes, tanto no fortalecimento das mídias convencionais como organizações empresariais, quanto no poder das estruturas e estratégias de comunicação vinculadas à governança dos partidos de esquerda, especialmente, o projeto da Administração Popular, em Porto Alegre (4 mandatos, de 1989 a 2004) e o complexo sistema desenvolvido nos dois mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva (de 2003 a 2010). O conceito Comunicação Pública foi consolidado nesses períodos, com o significativo avanço das políticas públicas relacionadas a direitos humanos, meio ambiente, educação que geraram importantes debates públicos.

No curto período de 12 anos, o mundo e o Brasil mudaram radicalmente, com a ascensão da extrema direita e de novos dispositivos digitais de comunicação que mudaram a política e a governança, ampliando espaços e a circulação de ideias conservadoras e fascistas aliadas a investimentos milionários. É nesse imbróglio que o terceiro governo do presidente Lula acontece e, ainda neste seu terceiro ano, fica evidente a ausência de uma política de comunicação pública com estratégias que promovam a unidade do discurso, a visibilidade para as ações de governo e o debate público. É evidente a complexidade da comunicação, nesse período, que abrange o acirramento das disputas político-ideológicas e as mídias digitais; tensões entre os poderes judiciário, legislativo e executivo; disputas institucionais no próprio governo e com partidos de apoio; problemas de ordem econômica e a busca de soluções. O carisma do presidente não foi suficiente para acalmar a opinião pública e a alta dos preços, diante da errática comunicação oficial transformada em pauta constante para a imprensa associada à surpresa sobre os baixos índices de popularidade do governo Lula. A mudança de dirigentes na Secretaria de Comunicação Social (Secom) – órgão responsável de formular e implementar a política de comunicação e divulgação do Poder Executivo federal – a falta de unidade nos discursos públicos e de visibilidade às ações do governo não têm permitido que a sociedade entenda o modo de governar e as ações em prol do interesse público. A ausência dos princípios da comunicação pública é evidente, nas informações contraditórias ou nas informações desconexas que geram, evidentemente, insegurança e fragilizam o projeto governamental.    

Da complexidade de gerar comunicação pública no Brasil atual, vamos à performance histriônica do atual presidente dos Estados Unidos no seu percurso privado. Enquanto o mundo considerava improvável nova eleição de um político empresário falastrão nos moldes de Donald Trump, ele toma posse, mostra suas armas para exercer um poder autocrático e ofusca princípios da democracia, como se dirigisse um reality show no qual os países são peças de um jogo perverso, onde o vencedor já está definido. Sem nenhuma concessão à comunicação pública, às relações e aos protocolos internacionais, traz à tona seu clown vingativo e alardeia seu poder. A visibilidade desse poder pode ser identificada, especialmente, na propaganda cruel e humilhante em dois momentos: a veiculação de vídeo criado por IA, em suas próprias redes, mantido pela música estridente que orienta imagens da transformação de Gaza em resort onde felizes usuários em coloridas paisagens são sobrepostos aos sobreviventes e destroços de uma terra aniquilada. Trump e Netanyahu aparecem usufruindo as belezas do local. O segundo momento é o registro formal e a respectiva divulgação do encontro humilhante entre o presidente Trump e seu vice James Vance com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, até aquele momento parceiros na guerra contra a Rússia e, repentinamente, o discurso de submissão proposto ao estado ucraniano. Dois fatos assombrosos à imagem do país e às relações internacionais que infringem regras mínimas da civilidade em tempos de paz e ignoram, estrategicamente, os princípios da democracia voltados ao interesse público, em nome da promoção do personalismo e da performance “dono do mundo”.

Por último, cabe abordar o filme Ainda Estou Aqui de Walter Salles Jr., fenômeno cinematográfico e de interesse público. Do livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, o filme situa-se como um delicado produto de comunicação no recorte de uma história passível de ocorrer em qualquer lugar do mundo. A obra extrapolou as marcas de sucesso e chegou ao podium do Oscar como o melhor filme estrangeiro, depois de uma trajetória de premiações. Em1997, O Que É Isso, Companheiro? de Bruno Barreto, que também abordou o período ditatorial brasileiro, concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro. 

Movido por uma forte máquina mercadológica, Ainda Estou Aqui mostrou segredos do Brasil do regime militar ao contar, numa linguagem universal, uma história intimista de dor e medo de uma família submetida às atrocidades do regime em nome da segurança nacional. O filme é sutil quanto à violência e a única morte explícita é a de um querido cão. Talvez por isso surpreenda, emocione e cumpra um papel importante nesse momento nacional de polarização político-ideológica: faz com que o período da ditadura seja relembrado e talvez possa esclarecer aqueles que defendem a volta desse regime, já que os próprios militares não apoiaram o quase-golpe de 8/1/23. Milhares de brasileiros assistiram e aprenderam um pouco sobre aquele período histórico pouco estudado nas escolas. Muitos filmes e séries já foram realizados sobre o regime militar, mas Ainda estou aqui pode ter inaugurado uma fatia do mercado cinematográfico, até rentável, ao recuperar excertos daquele período que ainda retém tantos segredos que poderiam ser contados em centenas de histórias sobre desaparecidos, famílias destruídas, torturas, morte, a censura e a repressão da sociedade e a resistência. São temas de interesse público que acionam a memória coletiva, criam uma rede de reconhecimento sobre a nossa identidade, nossa democracia e geram importante debate público.

Sim, abordamos acontecimentos sobre a comunicação pública política que problematizam a democracia contemporânea e aparentemente não têm nenhuma vinculação. O primeiro é a constatação sobre a incomunicação de um governo (Lula no Brasil) tornada pauta da imprensa, numa época de facilitação da comunicação em centenas de dispositivos e especialistas. O segundo impacta sobre o total desrespeito ao interesse público, no comportamento autoritário e desrespeitoso entre países (o encontro de Trump, Vance e Zelensky) e a crueldade mórbida de um presidente que divulga em suas redes um vídeo onde se festeja a instalação de um resort paradisíaco em cima de escombros e das mortes de Gaza. Por último, a referência à memória sobre a ditadura militar no Brasil, através do filme Ainda Estou Aqui, cuja repercussão possibilita amplificar histórias relacionadas, que são de interesse público e geram debates.    

Porto Alegre, 10 março de 2025

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