Publicado originalmente em Agência Lupa por Maiquel Rosauro. Para acessar, clique aqui.
Página na internet alega que cientistas brasileiros descobriram um “verme diabético” que se aloca no pâncreas, o qual seria o responsável por provocar picos mortais de glicose e diabetes tipo 2.
O site traz uma entrevista com um homem chamado “doutor Francisco Ramos”, que alega ser professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e “autor do livro mais vendido da Amazon”, intitulado “Vencendo a diabetes – guia prático e simples de como reverter essa doença em 25 dias”.
Durante o vídeo, o suposto médico diz que as pessoas se contaminam com o “verme diabético” a partir da “infecção com alimentos contaminados”, “contato com animais doentes” e “a partir do consumo de água mal tratada”.
Ao final, o “doutor Francisco” faz propaganda para a tal cura: “Insucaps”, um suplemento alimentar em cápsulas. Neste momento, a página abre anúncios para compra do produto. É falso.
Por meio do projeto de verificação de notícias, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

ALERTA URGENTE: Cientistas Brasileiros Descobrem “Verme Diabético” Que Se Aloca no Pâncreas e Causa Picos Mortais de Glicose e Diabetes Tipo 2!”
– Texto em vídeo que circula na internet
Falso
A Diabetes tipo 2 não tem cura e não é causada por um verme. Essas informações são mentirosas e possuem como único objetivo vender um produto que não é certificado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Além disso, o homem que se apresenta como “doutor Francisco Ramos” não é quem ele diz ser.
O médico Renato Redorat, coordenador do Departamento de Diabetes, Exercício e Esporte da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), explica em nota enviada à Lupa que a informação sobre o “verme diabético” é falsa e que não existe o tratamento vendido na página.
“Toda cura ou remissão de uma doença crônica que venha seguida das frases: ‘isso não querem que você saiba’, ‘a indústria escondeu de você’, entre outras, desconfie. As informações são discutidas seriamente por diversos profissionais de saúde antes de serem postadas em suas páginas oficiais”, afirma o médico.
Segundo Redorat, o termo “cura” não existe para a diabetes tipo 2. No momento, o máximo que a ciência conseguiu foi uma remissão da doença – o que inclusive foi acordado por especialistas em 2021.
“Gostaria muito de um dia poder representar uma sociedade como a Brasileira de Diabetes e falar que foi encontrada a cura para o diabetes. Uma pessoa morre de diabetes no mundo a cada 5 segundos, é a maior causa de amputação não traumática, cegueira, aumenta a chance de infarto de 4 a 6 vezes, sendo a maior estatística em pacientes usando máquinas de diálise e como causa de insuficiência cardíaca. Uma doença que vai ferindo o paciente por dentro e reduz sua vida aqui no planeta Terra em pelo menos seis anos”, explica o especialista.
Falso médico
A UFSC, em nota enviada à Lupa, informa que nenhum médico chamado “Francisco Ramos” atua em seu Hospital Universitário – vinculado à Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh). A instituição também sinaliza que uma busca no Portal da Transparência, do Governo Federal, não trouxe nenhum resultado sobre o suposto profissional.
“Em relação a possíveis pesquisas científicas que relacionem os termos “verme” e “diabetes”, a UFSC informa que não foram encontrados resultados em consulta realizada nesta sexta-feira, 28 de fevereiro, às 9h45, em seu Repositório Institucional (disponível publicamente no endereço https://repositorio.ufsc.br/) – meio oficial de publicização da produção científica da universidade”, diz a UFSC.
Também é falso que o tal médico publicou um livro chamado “Vencendo a diabetes – guia prático e simples de como reverter essa doença em 25 dias”, que estaria entre os líderes de vendas na Amazon. Uma busca na plataforma revelou que esse título não existe.
Sem registro na Anvisa
O site também engana ao alegar que o “Insucaps” possui registro na Anvisa. Uma busca no site da agência não gerou resultado sobre o suplemento alimentar. Em contrapartida, no Reclame Aqui, plataforma onde consumidores brasileiros registram suas queixas, há uma grande quantidade de reclamações sobre o produto.
“Comprei o suplemento Insucaps após assistir a um vídeo do Dr. Francisco, onde ele afirmava que o produto cura o diabetes. No entanto, ao receber o frasco em minha residência, percebi várias inconsistências e me senti enganado. No vídeo, foi dito que o Insucaps cura o diabetes, mas na embalagem a alegação principal é voltada para emagrecimento. Isso é completamente diferente do que foi prometido”, publicou um usuário do Reclame Aqui.
Propaganda enganosa
O Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar), em nota, relata que já examinou dezenas de casos de anúncios de suplementos alimentares que prometem cura de qualquer doença, tendo reprovado quase todos diante da constatação de que as promessas estão associadas a um alimento.
Como exemplo, o Conar cita alguns casos analisados recentemente, como o 112/2024 (prometia o controle de diabetes tipo 1), 135/2024 (controle da ansiedade e colesterol), 152/2024 (cura de diabetes e lesões nos rins) e 217/2024 (redução de esquecimentos constantes).
“Sabe-se que os suplementos alimentares podem oferecer benefícios nutricionais. No entanto, não são medicamentos e, portanto, não podem ser promovidos como soluções para doenças. Assim, entendo que esta estratégia publicitária possui o caráter nitidamente enganoso, podendo levar os consumidores a negligenciarem tratamentos comprovados e colocarem sua saúde em risco, prática que deve ser combatida. Registre-se, também, a utilização de endosso falso para promoção dos anúncios, uma vez que também se mostrou enganosa a alegação de que o produto teria sido aprovado pela Anvisa”, diz trecho da decisão referente ao caso 112/2024, que, a partir de um post patrocinado no Facebook, vendia um produto com a promessa de controlar o diabetes tipo 1.
Outro lado
A Lupa encaminhou um e-mail para o endereço que consta no site do “Insucaps”, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria. O texto será atualizado em caso de manifestação.