Incubadoras tecnológicas impulsionam negócios e convertem ideias inovadoras em startups competitivas

Publicado originalmente em Jornal da UFRGS. Para acessar, clique aqui.

Inovação | Vínculo com instituições de ensino superior garante formação qualificada aos empreendedores e oferece conexões entre empresa e pesquisa 

*Victor Cortez, bolsista de Iniciação Científica, e Patrícia Schonhofen, pós-doutoranda em Desenvolvimento Industrial, trabalham no OsteraTest, ferramenta que aponta quais óvulos têm maior chance de originar embriões viáveis. A iniciativa foi desenvolvida pela Ostera, startup vinculada à Incubadora Empresarial do Centro de Biotecnologia (Foto: Pietro Scopel/JU)

O desejo de empreender pode surgir, muitas vezes, da intenção de sanar questões produzidas pelas opressões de raça, gênero e sexualidade. Foi diante desse cenário que a Abalô Conexões Plurais, um marketplace que reúne produtos e serviços destinados à população LGBTQIAP+, nasceu pelas mãos de Patricia Philips e Drika Lima. Incomodadas com a falta de acolhimento à comunidade queer em bares, restaurantes, lojas de roupa e por parte de especialistas, como psicólogos e advogados, as companheiras de vida decidiram ser parceiras também no âmbito profissional e criaram uma plataforma que divulga lugares, pessoas e mercadorias seguros para todos os públicos.

Um ano após incluírem a empresa no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ), em 2022, a Abalô foi selecionada pelo CEI Impacto, um programa vinculado ao Centro de Empreendimentos do Instituto de Informática da UFRGS, destinado exclusivamente a iniciativas ao mesmo tempo preocupadas com a promoção de melhorias sociais e com resultados financeiros. O CEI é uma das cinco incubadoras tecnológicas da Universidade cujo papel é auxiliar no desenvolvimento de empreendimentos inovadores com o suporte técnico dos departamentos acadêmicos.

Atualmente em pré-incubação, uma etapa inicial ao processo de constituição da startup, a Abalô participa de mentorias, encontra-se com outras empresas, treina seu pitch  apresentação resumida do negócio – e pode utilizar salas com computador, mesas e wi-fi. Patricia e Drika, que frequentemente buscam qualificar-se enquanto empreendedoras, viram nas incubadoras a oportunidade de alavancar seu negócio. “É por isso que estamos dentro dessa parceria com a UFRGS: os alunos trazem melhorias para o nosso trabalho em relação à pesquisa de mercado e à pesquisa com empreendedores. O INF [Instituto de Informática] está nos ajudando também com melhorias na nossa página [da internet]”, menciona Patricia.

Além da incubadora vinculada ao Instituto de Informática, a UFRGS possui a IE-CBiot, associada ao Centro de Biotecnologia, a Héstia, ligada à Escola de Engenharia, a ITACA, conectada ao Instituto de Ciência e Tecnologia de Alimentos, e a IMZ, conjugada às faculdades de Farmácia e Ciências Econômicas e ao Centro Interdisciplinar Sociedade, Ambiente e Desenvolvimento (Cisade). Juntas, as incubadoras já graduaram 52 empresas e atualmente reúnem 31 incubadas em formação. 

Geralmente inseridas nos parques tecnológicos das instituições de ensino superior, essas organizações têm caráter mais educativo do que mercadológico. De acordo com um estudo realizado entre 2018 e 2019 pela Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec), em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), 61% das incubadoras brasileiras são mantidas por universidades.

No caso da UFRGS, é o Parque Zenit quem direciona as políticas da pré-incubação e da incubação, distribui as atividades entre as incubadoras, realiza a seleção das empresas por meio de edital e faz o acompanhamento final das startups. O Parque, inclusive, está com inscrições abertas até 1.º de fevereiro para novos empreendimentos por meio do Edital Unificado de Incubação.

Segundo o diretor da entidade, Marcelo Favaro, a preocupação central das incubadoras é instruir o empreendedor, oferecendo conhecimentos jurídicos, contábeis, de marketing e gestão de pessoas. O sucesso do produto, portanto, não é o objetivo primordial.

“Se ao final da jornada a empresa não for viável, nós entregamos para a sociedade uma pessoa com uma formação que vai muito além da formação técnica, entregamos um profissional que ganhou competências em áreas que agregam valor”

Marcelo Favaro
As incubadoras tecnológicas fazem parte de um complexo ecossistema de inovação que inclui outras iniciativas da Universidade: o Parque Zenit, o Núcleo de Empreendedorismo, a Secretaria de Desenvolvimento Tecnológico (Sedetec) e as Empresas Júnior.
Uma nova alternativa de carreira para pesquisadores

Do mesmo modo que ideias inovadoras surgem fora da academia, outras são inteiramente construídas ao longo do percurso educacional dos universitários. A bióloga Lucia von Mengden desenvolveu, durante o mestrado e o doutorado na UFRGS, uma forma de aumentar as chances de sucesso da fertilização in vitro, reduzindo a quantidade de ciclos necessários para obter a gestação. O que era uma pesquisa inédita tornou-se também uma startup premiada, a Ostera, nascida no Programa Centelha, impulsionada pela Maratona de Empreendedorismo e pelo AcelerEA, e incubada na IE-CBiot. 

A empresa – que desenvolveu um software capaz de apontar quais óvulos coletados têm mais chance de gerar embriões de qualidade – está em incubação interna, uma modalidade na qual o empreendimento depende das estruturas físicas da incubadora. Por essa razão, diferente da Abalô, que está no começo da trajetória de aprendizagem, a Ostera paga um aluguel pelo espaço utilizado e um percentual anual de 2,5% das vendas à UFRGS.

Para Lucia, apesar dos custos atuais, não haveria como fundar o negócio sem o braço empresarial do Centro de Biotecnologia. “Os processos todos são muito caros, e nós fazemos muita pesquisa; sem a pesquisa nós não conseguimos desenvolver o nosso produto. Eu não teria como abrir um laboratório sozinha desde o início, e a incubadora foi essencial, então acho justo que a gente devolva à Universidade”, afirma a pesquisadora, que administra a empresa junto do professor do departamento de Bioquímica Fábio Klamt e do pós-doutorando Marco Antônio de Bastiani. 

Oferecer capacitação para que cientistas possam montar seu próprio negócio e tenham outros horizontes para além das carreiras tradicionais no mercado de trabalho é uma das contribuições das incubadoras, segundo Favaro. No caso de Lucia, que desejava fazer pesquisa sem ser professora, a ousadia de criar a Ostera lhe permitiu unir o útil ao agradável e disputar protagonismo com outros grandes projetos. Em 2024, a empresa venceu a competição de startups do South Summit, um encontro internacional de empresários e investidores que ocorre anualmente em Porto Alegre, na categoria “Mais Escalável”, isto é, o modelo de negócio que pode crescer rapidamente com pouco investimento.

A pesquisa realizada por Lucia von Mengden durante o mestrado e o doutorado na UFRGS deu origem ao OsteraTest, ferramenta capaz de antecipar a qualidade do óvulo que será utilizado na fertilização in vitro, e à Ostera, startup que utiliza a estrutura física da IE-Cbiot (Foto: Pietro Scopel/JU)
Desenvolvido por Marco Antônio de Bastiani, o software que compõe uma das etapas do OsteraTest utiliza bioestatística para reduzir os investimentos financeiro e emocional realizados pelos pacientes na fertilização in vitro (Foto: Pietro Scopel/JU)
Indicadores de sucesso e manutenção de vínculos

Não é somente a UFRGS, entretanto, que possui incubadoras a serviço de quem quer empreender no Rio Grande do Sul. Outras 40 estão espalhadas pelo estado, conforme dados da Secretaria Estadual de Inovação, Ciência e Tecnologia. Destas, um terço estão localizadas na Região Metropolitana, como a incubadora do Feevale Techpark, vinculado à Universidade Feevale, que elaborou uma maneira de avaliar a qualidade da educação proporcionada às empresas.

“Desenvolvemos um indicador da pré-incubação, que compreende cinco eixos: empreendedorismo, gestão, capital, mercado e tecnologia. Coletamos dados no início e ao final do processo para conseguir mensurar o nível de apropriação do conhecimento pelos pré-incubados”, explica Moema Pereira Nunes, doutora em Administração pela Unisinos e assessora dos projetos pré-incubados da Feevale. Segundo Moema, realizar levantamentos garante que a expertise e o suporte infraestrutural oferecidos pelas incubadoras sejam constantemente aprimorados.

Nesse sentido, outra prática que fortalece os empreendimentos é a pós-incubação, oferecida pela Universidade Federal de Pelotas. A Conectar, incubadora da UFPel, monitora a evolução dos negócios graduados pelos seus faturamentos anuais e estimula parcerias entre as startups já formadas e as que estão em formação. De acordo com a administradora da Conectar, Adalice Andrade Kosby, as empresas que já passaram por todas as instâncias de incubação prestam consultoria às incubadas e pré-incubadas na intenção de manter vínculo com a universidade e de propiciar trocas entre experientes e novatos. 

Das iniciativas sociais às científicas, despontadas dentro ou fora da academia, empreender não é tarefa fácil. Apesar disso, o futuro de expansão almejado tanto pela Abalô quanto pela Ostera tem alto potencial de concretizar-se à medida que as startups estão inseridas numa rede de conexões especializada e privilegiada. Segundo Moema, as incubadoras estabelecem um ambiente rico que envolve todas as áreas de desenvolvimento do conhecimento e que promove a interação entre os diversos atores. “Diferente de uma empresa que está fora do ecossistema de inovação, há um amadurecimento do empreendedor na pré-incubação e na incubação, fazendo com que tenhamos empreendimentos mais bem preparados para lidar com mudanças.”

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