Publicado originalmente em Jornal da UFRGS. Para acessar, clique aqui.
Artigo | Luisa Farias, Luciana Marques e Ana Mercedes Icaza apontam que, além do desenvolvimento econômico e social, os bancos comunitários funcionam como espaços de troca de saberes e experiências
*Ilustração: Magnólia Leão/Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS
A disciplina eletiva “Gestão do Cuidado na Educação”, oferecida aos cursos de Pedagogia e Administração, nos desafia a encontrar temas e iniciativas de cuidado presentes no nosso contexto imediato. A disciplina é ministrada pela professora da Faculdade de Educação Luciana Marques, que nos traz a perspectiva de como o cuidado pode ser visto em múltiplos níveis: individual, laboral, social, corporal, mental, etc. Eu, Luisa, compartilho aqui um relato de experiência que tem relação com práticas de cuidado social e econômico com populações menos abastadas.
Entre os anos de 2019 e 2022, tive a oportunidade de participar como bolsista do Núcleo de Estudos em Gestão Alternativa (NEGA). A primeira bolsa, que iniciou em outubro de 2019, era de iniciação científica (IC) para auxiliar no projeto “A verdade sobre as universidades”, em uma época em que as universidades públicas eram vistas, equivocadamente, como um lugar de “balbúrdia” pelo governo.
Em 2020, porém, com a chegada da pandemia de SARS-CoV-2 no Brasil, as aulas na universidade – e, consequentemente, as atividades de pesquisa – foram interrompidas. Quando as atividades acadêmicas retomaram, o projeto de IC foi suspenso e renovei meu vínculo com o NEGA através de uma bolsa de extensão no projeto “Processos de capacitação para o fortalecimento dos bancos comunitários”.
Os bancos comunitários de desenvolvimento (BCDs) no Brasil são experiências de economia solidária que, conforme França Filho (no capítulo “Gestão social: práticas em debate”, do livro “Considerações sobre um marco teórico-analítico para a experiência dos bancos comunitários”), nos convidam à experimentação de um outro tipo de economia, efetivamente a favor do bem-estar humano e social. Dessa forma, a lógica mercantil estará presente (moeda, valor, mercado, compra, venda), mas a lógica solidária também tomará seu espaço por meio de reciprocidade, troca e redistribuição.
Em Porto Alegre, na época, havia 2 BCDs. O primeiro, fundado em 2016 na comunidade Nossa Senhora Aparecida, no bairro Sarandi, é chamado de Banco Justa Troca. A moeda do banco é chamada de “justo” e é equivalente ao real (ou seja, 1 justo = 1 real). A diferença é que é uma moeda comunitária, que circula dentro da comunidade, para promover uma das premissas dos BCDs: garantir que a riqueza das comunidades empobrecidas permaneça no bairro para permitir o desenvolvimento local, pois o local em si não é pobre, apenas não consegue reter sua riqueza, que normalmente é distribuída nos grandes centros de comércio urbano. Com o ‘justo’, é possível comprar em mercados e pagar serviços dentro da comunidade. Além disso, o banco possui três linhas de microcrédito: para consumo, para produção ou para pequenas reformas. Nas imagens 1 e 2 é possível ver o logo do banco e exemplos da moeda local, o justo, respectivamente.


O segundo banco, também fundado em 2016, é localizado na comunidade Primeiro de Maio, no bairro Cascata, em Porto Alegre. O Banco Comunitário Cascata (BCC) possui a “antena”, porém ela ainda não é utilizada na forma de moeda circulante local, pois a instituição não conseguiu, até o momento, o lastro necessário para realizar as operações. Para que tenham validade e possam circular, as moedas precisam ser cadastradas com um lastro em real, porém, o BCC ainda não possui a verba necessária. Dessa forma, a atividade do BCC é realizada majoritariamente através de doações para a comunidade, cursos e oficinas de capacitação ou produção e, principalmente, pelas feiras de trocas. Nas imagens 3, 4 e 5 é possível ver a logo do banco, exemplos da moeda antena e a da feira de trocas, respectivamente.



Após assistir ao documentário “Quem se Importa?” e reagir ao relato de Joaquim Melo, fundador do Banco Comunitário de Desenvolvimento Palmas, acredito que meu relato de experiência não seria completo se não mencionasse que, como estudante de Administração e bolsista durante mais de 2 anos no NEGA, para mim é impossível não enxergar a relação de cuidado que existe com a busca do desenvolvimento econômico e social que os BCDs objetivam entregar às comunidades em que estão inseridos.
Mas, para além da esfera de desenvolvimento comunitário, econômico e social, durante a minha experiência na bolsa, vivi momentos de inserção comunitária muito fortes: como visitas a casas de moradores e pessoas, de alguma forma, ligadas ao banco e relatos individuais e coletivos sobre produção e reprodução (trabalho não remunerado do cuidado).
Em todas as oportunidades, foi evidente a relação de produção econômica e sobrevivência e de trabalho reprodutivo como “obrigação intrínseca das mulheres”. Assim, o papel dos bancos comunitários vai muito além de promover desenvolvimento econômico local – o que já é extremamente significativo. Ainda mais em parceria com projetos universitários, ele fornece espaços para trocas de saberes, de confiança e, em alguns casos, oferece uma rede de apoio que antes não existia para algumas pessoas.
Os Bancos Comunitários de Desenvolvimento de Porto Alegre são experiências que ainda precisam de muito apoio e incentivo, principalmente o Banco Comunitário Cascata, que passa por um processo de amadurecimento e aceitação comunitária – afinal, o que é novo causa estranhamento. O impacto causado pelos bancos, entretanto, já é extremamente significativo.
Por mais que esteja afastada desse meio há anos, sigo acompanhando a atividade dos bancos comunitários. Durante as enchentes de maio, além de todo o trabalho mencionado acima, os dois bancos foram fundamentais às comunidades em que estão inseridos, principalmente o Justa Troca, que auxiliou o bairro Sarandi – extremamente afetado pelas chuvas – com doações, auxílio econômico, suporte e articulação comunitária. O Banco Comunitário Cascata, por estar localizado em um ponto muito alto da cidade, não viu sua comunidade ser afetada diretamente pelas enchentes, mas a mobilização por doações, confecção de kits e marmitas também foi incansável.
Para finalizar, acredito que é importante destacar que a minha experiência no NEGA foi uma vivência privilegiada. Em uma época em que as bolsas de extensão não são capazes de sustentar uma pessoa por um mês, só pude garantir minha permanência na bolsa pela realidade em que estou inserida e pela rede de apoio que tenho em casa. Dessa forma, sinto que é meu dever, sempre que possível, compartilhar o que vivi e o que aprendi durante meus anos de bolsista. Não só por um dever acadêmico, mas um compromisso com organizações contra-hegemônicas que defendem outras lógicas de desenvolvimento e produção.
Luisa Fernandes Nunes Farias é estudante do curso de Administração da UFRGS.
Luciana Fernandes Marques é professora do Departamento de Ensino e Currículo da Faculdade de Educação da UFRGS.
Ana Mercedes Sarria Icaza é professora do curso de Administração Pública e Social, vinculada ao departamento de Ciências Administrativas da UFRGS, e coordenadora do NEGA – Núcleo de Estudos em Gestão Alternativa.