A periferização das mudanças climáticas como objeto de estudo nas universidades moçambicanas

Publicado originalmente em Jornal da UFRGS por Carlos João Batista Manjate. Para acessar, clique aqui.

Artigo | Doutorando em Desenvolvimento Rural, Carlos João Batista Manjate alerta para o afastamento entre ciências naturais e sociais em Moçambique, com negligência aos saberes locais de um lado e à temática ambiental de outro

*Por Carlos João Batista Manjate
*Ilustração: Katherine Avila/Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS

Moçambique passa por uma situação ambiental crítica com impactos severos nas comunidades rurais e camponesas em particular. Práticas científicas mais inclusivas e eficazes são requeridas para enfrentar os desafios daí resultantes e trazer respostas que satisfaçam os anseios das coletividades mais vulnerabilizadas.  

Busco neste artigo visibilizar a situação das mudanças climáticas no meio rural moçambicano, chamando atenção para a necessidade de saberes localizados no estudo de um tema importante, mas periferizado, na prática científica no país.  

Segundo Censo de 2017, as zonas rurais representam mais ou menos 90% do território moçambicano e acolhem cerca de 70% da população que depende da agricultura para sua subsistência. No entanto, a atual crise ambiental coloca em causa o modo de vida dessas populações. 

Em 2019, Moçambique, Zimbabué e Bahamas foram os países mais afetados por fenómenos meteorológicos severos (Global Climate Risk Index 2021 | Germanwatch e.V.). Essa avalição coincidiu com a ocorrência dos ciclones Idai e Kenneth que, juntos, causaram a morte de pelo menos 641 pessoas em Moçambique, além de doenças e destruição de infraestruturas, criando refugiados humanos e não humanos sem refúgios (Cyclone Idai and Kenneth | UNICEF).  

O ciclone Idai é classificado pelos especialistas como ciclone tropical mais mortífero e mais caro do sudoeste do oceano Índico, não se descartando sua relação com as mudanças climáticas. 

Moçambique regista em média cinco ciclones tropicais por ano, com maior incidência nas regiões norte e centro do país, sendo a região sul abalada por seca severa.  

Diante dessa situação de colapso ambiental em que o país se encontra, é inaceitável que permaneça um modo de produzir conhecimento científico compartimentado, estanque e que fique em silêncio frente a esse quadro. 

No ano 2023, tiveram lugar em Moçambique dois congressos internacionais realizados por duas universidades públicas com o objetivo de refletir sobre diferentes temas relevantes da realidade moçambicana, incluindo as mudanças climáticas. Embora organizados por áreas das ciências sociais, era expectável que, diante do colapso que o país vive, uma ação colaborativa, integradora entre diferentes ciências e abordagens analíticas se fizesse sentir. 

No entanto, o que se observou foi um distanciamento das chamadas ciências naturais do debate. Por outro lado, os temas das pesquisas vindas das ciências sociais não dialogavam com a temática ambiental como um todo, o que demonstra periferização e compartimentação da temática no país. 

A problemática ambiental requer uma prática interdisciplinar muitas vezes impulsionada por investigação centrada nas ciências sociais, uma vez que por trás do debate ambiental existe um jogo de poder no qual determinados impactos são visibilizados, enquanto outros são minimizados por não agradarem grupos de pressão em específico ou têm interferência de outros poderosos grupos que contestam o impacto explorado pela ciência. 

As mudanças climáticas são uma questão global urgente. No entanto, para os países africanos, e Moçambique em especial, a urgência é ainda maior, pois há uma ação de mitigação atrasada, o que representa um aumento das perdas e danos – os sistemas humanos e naturais adicionais atingem os limites de adaptação.

Os desafios decorrentes de ações de adaptação e mitigação atrasadas incluem o risco de escalada de custos, bloqueio de infraestrutura, ativos ociosos, e viabilidade e eficácia reduzidas das opções de adaptação e mitigação. Sem mitigação rápida, profunda e sustentada e ações de adaptação aceleradas, as perdas e danos continuarão aumentando, incluindo impactos adversos em resultado da desflorestação de maneira implacável e rápida. 

Ao classificar a situação ambiental em Moçambique como colapsal, quero propor um exercício reflexivo de busca de respostas a perguntas incômodas que nos permitam encontrar estratégias adaptativas socialmente relevantes de lidar com a situação, assentando nos saberes localizados.  

A quem ou a que grupos o colapso ambiental afeta em Moçambique? Como o colapso ambiental estrutura os grupos de pressão e disputas de poder em Moçambique? O que é dito sobre o colapso ambiental em Moçambique? Como as pessoas tomam decisões relacionadas a como e onde habitar?  Como o colapso ambiental está causando movimentos populacionais, seja internamente no país ou através das fronteiras? Que fatores contribuem para a migração climática? Quais as consequências para as comunidades de acolhimento e para as que estão sendo deslocadas? Outras questões o leitor pode listar, pois estou longe de dar conta da complexidade da situação.

Para concluir, é preciso sublinhar que a periferização das mudanças climáticas como objeto de estudo nas universidades moçambicanas impossibilita o estabelecimento de abordagens mais inclusivas e eficazes para enfrentar os desafios ambientais e trazer respostas especialmente às questões críticas relacionadas às mudanças climáticas. 


Carlos João Batista Manjate é doutorando no Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Rural (PGDR/UFRGS) e integrante do Laboratório Urgente de Teorias Armas (LUTA).

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