Como a mídia brasileira contribuiu para a ascensão da extrema-direita

Publicado originalmente em Ijnet Rede de Jornalistas Internacionais por Rafael Tsavkko Garcia. Para acessar, clique aqui.

Após as revelações alarmantes de que membros do exército brasileiro planejaram um golpe para anular as eleições de 2022, bem como uma tentativa de assassinato contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu vice e um ministro do Supremo Tribunal Federal — e de que o ex-presidente Jair Bolsonaro estava ciente e possivelmente envolvido no plano — o Brasil está lidando com o que virá na sequência.

A grande mídia, há muito considerada no Brasil um pilar da democracia, está sob renovado escrutínio por amplificar narrativas radicais e falhar em analisar criticamente a retórica antidemocrática. Para atrair audiência, muitos veículos brasileiros se voltaram para manchetes caça-cliques enganosas ou sensacionalistas, que em alguns casos também promovem discurso de ódio de figuras da extrema-direita, gerando temores de que a imprensa esteja normalizando discurso danoso.

Entender como a grande mídia contribuiu para essa dinâmica é essencial para avaliar sua responsabilidade ao traçar um caminho em direção a uma maior prestação de contas.

Uma plataforma para o extremismo

Durante a presidência de Bolsonaro, de 2018 a 2022, a cobertura da mídia promoveu o “falso equilíbrio”, explica a jornalista e cofundadora do The Intercept Brazil, Cecilia Olliveira. “A imprensa brasileira tratou figuras e movimentos radicais como partes legítimas do debate político, sem o contexto adequado sobre suas implicações antidemocráticas”, diz, acrescentando que este é um padrão que ainda persiste atualmente.

Oliveira aponta, especificamente, como veículos praticaram o “jornalismo declaratório“, no qual declarações inflamadas feitas por Bolsonaro e outros nomes da extrema-direita eram simplesmente noticiadas tal como eram proferidas, sem análise crítica ou verificação de fatos. “[O jornalismo declaratório] se tornou uma plataforma livre para a desinformação e ataques às instituições democráticas, incluindo à própria imprensa”, diz.

Marcelo Soares, professor e editor do estúdio de jornalismo de dados Lagom Data, faz coro à crítica. “A chamada imprensa ‘séria’ continua reproduzindo declarações cada vez com mais frequência. É fácil de produzir e sempre ganha muitos cliques e compartilhamentos, dependendo do tamanho do absurdo”, diz.

Essa tendência não é exclusiva do Brasil, diz a jornalista e pesquisadora Luciana Moherdaui, que cobre a extrema-direita. “Acadêmicos estrangeiros como Jay Rosen e Jeff Jarvis têm criticado a lógica de dar o mesmo espaço para extremistas para publicar o outro lado. A mídia brasileira caiu nessa armadilha, fracassando em se adaptar à dinâmica viral da desinformação”, diz. “A imprensa teve dificuldade para verificar a desinformação em tempo real durante a campanha e a presidência de Bolsonaro, levando a uma erosão da confiança no jornalismo.”

Por sua vez, plataformas como o WhatsApp deram a figuras da extrema-direita uma linha direta com o público, contornando a mídia tradicional, diz Soares. “Em 2015 e 2016, eu notei a mobilização ‘espontânea’ em torno do Bolsonaro nas redes sociais. As plataformas amplificaram a presença dele, enquanto a mídia tradicional falhou em contextualizar criticamente”, explica.

O fracasso da mídia nesse aspecto combinou-se com ataques a jornalistas e veículos. O governo Bolsonaro solapou sistematicamente a credibilidade de jornalistas e redações, taxando-os de imparciais ou corruptos. “Essa retórica encorajou os extremistas a atacar jornalistas, enfraquecendo ainda mais a capacidade da imprensa de cobrar responsabilidade dos poderosos”, diz Oliveira.

Da crise à responsabilização

Embora a imprensa tenha começado a analisar com mais rigor a extrema-direita após a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, especialistas concordam que são necessárias mudanças estruturais mais profundas. Oliveira clama por uma mudança em direção à reportagem investigativa que exponha a extensão das consequências de políticas de extrema-direita. “A mídia precisa priorizar a análise contextualizada em vez da mera reprodução de declarações. Isso vai exigir resistir a pressões comerciais para ir atrás de narrativas sensacionalistas”, argumenta.

Como muitas figuras de extrema-direita tentam intencionalmente fazer com que sua retórica extrema seja incluída no noticiário, Moherdaui reforça a necessidade de os veículos brasileiros repensarem suas estratégias editoriais para evitar dar espaço a extremistas em troca de visualizações de página. “O jornalismo precisa rever seus processos de produção, já que seu conteúdo é amplamente distorcido para viralizar”, diz Moherdaui. “[Isso dá] espaço para negacionistas da ciência e da democracia, para aqueles que pregam contra as vacinas e contra o processo eleitoral. Esse conteúdo é usado como uma estratégia para destruir a democracia e sistemas estabelecidos.”

Soares aponta a ascensão do jornalismo independente no Brasil como um contrapeso promissor às limitações dos veículos tradicionais. “Veículos menores e independentes na maioria das vezes produzem o tipo de jornalismo investigativo que as grandes corporações deixaram de priorizar”, diz. Essas iniciativas, apesar de ainda serem nichadas, fornecem um roteiro para revitalizar o papel crucial da mídia na democracia.

Aprendizado a partir de lições globais

experiência dos EUA com o trumpismo oferece paralelos e lições de moral para mídia brasileira. O exemplo também traz a oportunidade para jornalistas brasileiros adotarem práticas que funcionaram para os colegas dos EUA, adaptando-as ao contexto local, diz Oliveira.

“O jornalismo de qualidade deve prevalecer sobre o apelo fácil do sensacionalismo, reafirmando seu comprometimento com a verdade e o interesse público. Isso exige coragem e disposição para desafiar as estruturas de poder, mesmo sob o risco de perder acessos ou enfrentar retaliações”, diz.

Para a mídia mudar, é preciso primeiro reconhecer que ela está contribuindo para o problema, diz Soares. “Se o principal objetivo da empresa é atrair altos volumes de cliques para mostrar aos anunciantes, apesar da qualidade, e os chefes considerarem que o jeito mais viável de atender esse objetivo é produzir declarações em uma escala industrial, ninguém vai convencer as empresas a fazer nada diferente.”

Ao rejeitar o sensacionalismo e adotar a prestação de contas, a mídia brasileira pode reivindicar seu papel como bastião contra o autoritarismo. Em uma época de profunda agitação política e social, a imprensa deve escolher se vai perpetuar o status quo ou se tornar uma força para a renovação democrática.

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