Publicado originalmente em Agência Lupa por Catiane Pereira. Para acessar, clique aqui.
Um vídeo que circula nas redes sociais afirma que há um surto de virose se espalhando pelo país e que o governo federal estaria tentando “abafar a situação”. A gravação menciona que o surto começou em São Paulo e já teria avançado para o estado do Rio de Janeiro e cidades como Belo Horizonte (MG) e Curitiba (PR). O vídeo também alega que hospitais estão lotados e que tendas foram montadas por voluntários para lidar com a crise de saúde pública. Falta Contexto.
Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que o conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação:

Urgente o surto de virose avança pelo Brasil e governo tenta abafar a situação no litoral paulista. Deu lugar uma nova fase ainda mais alarmante, o surto de virose ultrapassou os limites de São Paulo e começou a se espalhar por outras capitais brasileiras (…) enquanto voluntários montam tendas emergenciais para atender o crescente número de infectados
– Trecho de vídeo que circula pelas redes sociais
Falta contexto
Apesar do tom alarmista do vídeo que circula nas redes sociais, especialistas ouvidos pela Lupa esclarecem que viroses gastrointestinais são comuns durante o verão. Elas podem ocorrer simultaneamente em diferentes regiões do país, sem que haja necessariamente uma conexão direta por uma cadeia de transmissão.
Neste início de ano, por exemplo, cidades do litoral de São Paulo como Guarujá, Santos, Praia Grande e São Vicente registraram um aumento de casos de viroses. Casos da doença também foram relatados em Curitiba (PR) e Florianópolis (SC) e outras localidades de Santa Catarina.
No entanto, ao contrário do que afirma o vídeo que circula nas redes sociais, não há um surto generalizado de viroses nas cidades mencionadas. Procurado pela Lupa, o Ministério da Saúde afirmou que “não há registro de surtos de viroses” em Belo Horizonte (MG) e Curitiba (PR) e que os casos em Florianópolis (SC) estão dentro do limite esperado. A pasta diz que acompanha “o cenário de surtos em alguns municípios litorâneos de São Paulo e Santa Catarina”.
O Ministério da Saúde disse ainda que, por meio do Instituto Evandro Chagas (IEC), “conduz estudos sobre o norovírus, abrangendo desde pesquisas epidemiológicas de detecção e genotipagem em casos de diarreia na população até investigações em Virologia Ambiental, como análises de vírus em águas, além de estudos com amostras de animais”.
A Secretaria de Saúde do Rio de Janeiro informou que “não houve registro de surto de Doenças de Transmissão Alimentar” entre 1º e 10 de janeiro de 2025. Já a Secretaria de Saúde de Santa Catarina explicou que não possui dados consolidados, pois doenças diarreicas são reportadas por porcentagem e analisadas conforme a tendência do período.
Imagens usadas no vídeo são antigas
Vale ressaltar que as imagens usadas no vídeo não têm relação com os casos de virose registrados este ano no litoral paulista. Uma delas, que mostra pessoas em frente a uma unidade de saúde, foi registrada em Salvador (BA), em junho de 2019, após um incêndio no prédio do Hospital das Clínicas.
Outra imagem, que supostamente exibe uma tenda usada para atender pacientes com virose, na verdade mostra uma estrutura montada pela Defesa Civil em Belo Horizonte (MG) para tratar casos de dengue em fevereiro de 2024. Já a imagem de uma profissional da saúde atendendo uma mulher foi registrada no Rio de Janeiro, em 2022.
Também não há registros na imprensa ou na internet sobre a instalação de tendas por voluntários para auxiliar pessoas com sintomas de virose. Buscas em ferramentas como Google, Bing e DuckDuckGo também não indicam qualquer ocorrência desse tipo até o momento.
Alta nos casos de virose no litoral paulista
Os atendimentos nas cidades da Baixada Santista, em São Paulo, aumentaram significativamente desde o final do ano, acompanhados de relatos de sintomas como vômitos, náuseas, cólicas e diarreia.
Uma morte está sendo investigada como possível consequência da doença. Amanda Caroline Resende de Oliveira, de 29 anos, moradora de Cristais Paulista, interior de São Paulo, faleceu após apresentar diarréia e vômito. Amanda havia estado no litoral paulista dias antes.
No Guarujá, a cidade mais afetada com o surto, mais de 2 mil casos de virose já foram registrados. No dia 4 de janeiro, a Prefeitura de Guarujá notificou a Companhia de Saneamento do Estado (Sabesp) por suspeitar que o aumento dos casos de virose esteja ligado à contaminação do mar por ligações de esgoto clandestinas.
Nesta quarta-feira (8), o governo de São Paulo confirmou a detecção de norovírus em amostras de fezes humanas coletadas de pacientes atendidos na Baixada Santista. O norovírus é um vírus de RNA altamente contagioso. Ele é caracterizado por causar sintomas graves, como diarréias que levam à desidratação e à perda da microbiota intestinal, podendo, em casos graves ou em grandes surtos, resultar em complicações mais sérias.
A origem exata da contaminação ainda não foi identificada. As amostras, coletadas nas cidades de Guarujá e Praia Grande, foram analisadas pelo Instituto Adolfo Lutz, laboratório de referência no estado, e atestaram a presença do norovírus.
Uma virose, termo popularmente usado para descrever diversas infecções virais, é geralmente causada por vírus como rotavírus, norovírus, astrovírus e adenovírus. Essas infecções provocam sintomas como diarreia, vômito, náuseas, febre e desidratação. Existem também viroses que afetam o sistema respiratório, como gripes, resfriados e até mesmo a Covid-19.
“As viroses respiratórias, como o sarampo, a Covid-19 e a gripe, são transmitidas principalmente pelo contato de pessoa para pessoa, seja ao falar, tossir ou por meio da saliva. Já os vírus que provocam sintomas gastrointestinais, como vômitos, dores abdominais e diarreia, podem ser transmitidos tanto pela saliva quanto pela contaminação de água, alimentos ou, eventualmente, pelo contato direto entre pessoas”, explica a infectologista Raquel Stucchi, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).
Casos de virose são comuns no verão
A infectologista Raquel Stucchi ressalta ainda que as viroses gastrointestinais, como a gastroenterocolite aguda (GECA), são mais comuns no verão. Isso se deve por causa das altas temperaturas e superlotação das praias, facilitando a transmissão por água contaminada e alimentos mal higienizados.
“Os surtos são mais comuns no verão porque os vírus que causam sintomas gastrointestinais se multiplicam e se adaptam melhor às temperaturas elevadas. Além disso, o litoral atrai um grande número de visitantes, aumentando as chances de contaminação pelo contato com o mar, que pode estar poluído por esgoto, inclusive clandestino”, explica a especialista.
Surtos de viroses podem não estar conectados
Casos de viroses podem surgir em diferentes localidades sem, necessariamente, haver uma conexão direta entre eles, afirma o biomédico Daniel Ferreira, mestre em infectologia pela pela Universidade Federal de São Paulo (USP) e pesquisador na área de virologia animal e humana na Unicamp.
Segundo ele, embora a transmissão fecal-oral seja um fator relevante, a velocidade de disseminação do vírus pode não estar diretamente relacionada aos surtos observados e sem a confirmação por métodos como reconstrução filogenética, é precipitado afirmar que diferentes surtos estão ligados a um mesmo vírus.
“O crucial para entender essa questão é ter o diagnóstico genético das diferentes infecções nos múltiplos estados. Com essa informação, é possível reconstruir o ‘passado evolutivo’ do vírus e determinar, com precisão, de onde ele veio e para onde foi”, explicou.
Como prevenir e tratar uma virose?
Embora não existam vacinas para as viroses mais comuns, a imunização está disponível para doenças mais graves, como gripe, rotavírus, sarampo, catapora, rubéola e febre amarela.
Raquel Stucchi esclarece que as principais medidas de prevenção das viroses comuns incluem arejar os ambientes, lavar as mãos regularmente, consumir água potável, higienizar frutas e vegetais, evitar compartilhar itens pessoais e manter cuidados extras com a higiene em casos de pessoas doentes em casa.
Além disso, a infectologista alerta que a garantia de uma rede de saneamento adequada é essencial para prevenir viroses. “Os gestores devem assegurar uma rede de saneamento que elimine riscos de contaminação da água com esgoto, seja para beber, lavar louça ou alimentos, e até para evitar que a água do mar seja afetada”, explica.
Geralmente, as viroses respiratórias e gastrointestinais duram de três a dez dias. É recomendável procurar avaliação médica se os sintomas se agravarem ou persistirem por vários dias, mesmo que leves. Para casos mais graves, como febre alta, dificuldade para respirar, vômitos ou diarreia intensa que dure mais de 24 horas, é indicado procurar um pronto-socorro.