Publicado originalmente em ObjETHOS. Para acessar, clique aqui.
Vanessa Pedro
Jornalista, professora e Pesquisadora Associada do objETHOS/UFSC
“Opa, Thais. Salve, Toledo”. Assim começa o podcast “A Hora”, produzido pela UOL e comandado pelos jornalistas José Roberto de Toledo e Thais Bilenky, que semanalmente chega aos tocadores de áudio e trata de política. O bordão é usado pela dupla desde os tempos em que faziam parte da bancada de outro podcast, o “Foro de Teresina”, da revista piauí, e segue conectando os seguidores na nova casa de ambos. Tanto os que descobriram o produto na UOL e passaram a acompanhar os jornalistas quando os que vieram com eles pela convivência já construída durante os tempos do podcast da piauí. Esse marcador da conversa já se tornou parte da identificação de cada um, a ponto de ser transferido com eles de um programa para o outro, e também provoca o início do nosso papo sobre “cultura da convergência”. E já dou logo os créditos do conceito para o pesquisador norte-americano Henry Jenkins, que publicou, no início dos anos 2000, um livro que tem contribuído ainda hoje à compreensão das transformações na comunicação e nas relações entre as pessoas através dela. Muito dessa transformação se credita à tecnologia, e é correta essa análise, mas o mais interessante na obra do autor e na observação das produções contemporâneas que ele faz é que Jenkins percebe, e mostra, que essas mudanças estão principalmente acontecendo no jeito das pessoas se relacionarem e de pensarem a comunicação. “A convergência não ocorre nos aparelhos, por mais sofisticados que venham a ser. A convergência ocorre dentro dos cérebros de consumidores individuais e em suas interações sociais com outros” (Jenkins, 2009, p. 29).
Inclusive porque, por convergência, Jenkins refere-se “ao fluxo de conteúdos através de múltiplas plataformas de mídia, à cooperação entre múltiplos mercados midiáticos e ao comportamento migratório dos públicos nos meios de comunicação”. Então, associada à tecnologia, as grandes mudanças passaram a ser as formas de produzir e o uso de múltiplas linguagens e mídias associadas; o lugar, o papel e a participação dos públicos; e também o que e como as pessoas são mobilizadas a interagir pelas produções e como elas mobilizam umas às outras a agir e a construir relações entre elas. Então, ele diz que a digitalização dos processos e dos produtos estabeleceu “as condições para a convergência”, que também permitiu a exponencial ampliação da circulação de conteúdos, alterou e foi alterada pela “participação ativa dos consumidores”, que deixaram de ser agentes passivos da comunicação e receptores de conteúdo. O autor também admite que essa relação é às vezes “colisão” de velhas e novas mídias. Jenkins fala da mentalidade da sociedade nesse novo ecossistema e nas novas formas de se relacionar e comunicar, que impacta as pessoas. Tem muito mais gente agora interferindo, produzindo, circulando informações, produtos, narrativas, e fazendo conexões das mais impensadas inclusive pelos produtores profissionais. É o que o autor investiga em uma obra posterior, chamada Cultura da Conexão, onde desenvolve o conceito de “propagação” para entender essa cultura do espalhamento de informações, interações e relações, que ele difere da “viralização”.
Aí que volto pra conversa com Toledo e Thais, que falaram sobre convergência na edição de 29 de novembro do podcast “A Hora”, mas não chamaram assim. Toledo de alguma forma aborda o tema, falando sobre o comentário de um ouvinte do programa e identificando uma mudança no comportamento do público. Mas deixa a conversa no ar para outro dia. Eu explico. Thais Bilenky lê uma mensagem aos apresentadores do programa, escrita pelo professor do Curso de Direito da Universidade de São Paulo (USP), Vitor Schirato. O pesquisador manda um abraço para Toledo e acrescenta: “diga que eu o considero um grande amigo”. Thais lembra que o professor Schirato já é conhecido do programa porque foi entrevistado em outros episódios como especialista. Pessoalmente, Toledo e Schirato nunca se encontraram, não são de fato amigos, mas nesse espaço do podcast, dedicado ao comentário dos ouvintes, acontece a declaração de uma amizade construída a partir das ideias, posturas, diálogos e experiências produzidas pela troca sonora, no caso do professor, tanto como ouvinte quanto como fonte. Toledo retribui a declaração de amizade, consolidada naquele instante e diz: “não o conheço, mas já o considero amigo também, professor. Amigos há anos”.
A prática da convergência ao vivo, e em cores
O jornalista foi primeiramente tão espontâneo quanto participante ativo da “cultura da convergência” na sua melhor expressão de criação de relacionamento e proximidade através da experiência das mídias. Num contexto onde o ouvinte cria uma relação de comunidade, proximidade e troca, garantida pelo aumento do espaço, da presença, da linguagem de conversa e da interferência do usuário. A partir da troca de informações, narrativas, opiniões, a participação e a circulação de conhecimentos criam comunidade, conexão, reconhecimento e até amizade sincera. No instante seguinte, o jornalista se dá conta e expõe a frequência desse tipo de demonstração de conexão e comenta: “você sabe que esse já um fenômeno comum né. As pessoas nos abordam”. O programa segue, mas não sem antes o apresentador experiente e perspicaz, que produz em áudio, em texto, na internet, no jornal impresso, em lives no Youtube, expressar que algo mudou no jeito de comunicar e que essa comunicação está gerando ações, reações e novas relações, inclusive aparentemente pessoais. “Interessantíssimo esse fenômeno. Um dia a gente fala sobre isso”, diz o jornalista, encerrando o parêntese e a menção ao ouvinte.
Toledo identifica a mudança de comportamento e das novas características do cenário contemporâneo do jornalismo e da comunicação, mas decide deixar o debate para outro dia. Ele não leva adiante nenhuma elaboração a mais sobre as questões que produziram a nova e súbita amizade de anos, inclusive porque o programa tem um tempo e uma pauta a cumprir, como um bom produto que se desenvolve entre a inovação e os modos de produção já construídos tradicionalmente pelo jornalismo anterior à convergência. E sim, é interessantíssimo pensar nas mudanças que ainda estão ocorrendo dentro do ecossistema dessa nova cultura. Dá um “” na cabeça a cada ficha que cai (a mistura de referências entre o emoji e a gíria analógica foi de propósito) e quando se percebe que as combinações, possibilidades, desafios e maneiras pelas quais as relações estão sendo estabelecidas, criam credibilidade ou abandonam referências. Nessas mudanças, novas perguntas vão sendo feitas como qual o papel dos públicos, agora chamados de usuários nesse ecossistema, e de que forma o jornalismo pode tanto fazer parte quanto estar ativo nessas relações?
Em suas reflexões dos anos 2000, Jenkins se refere em vários momentos a um período de transição, onde já há uma hibridação de soluções e de produtos, que reúnem velhas e novas mídias, métodos novos e tradicionais de abordagem, diálogo e colisão entre essas mídias e linguagens e, sobretudo, um ambiente de experimentação que ele e outros autores, que ele cita, percebem no período. Jenkins se refere ao pensador francês Pierre Lévy em alguns momentos no primeiro capítulo de Cultura da Convergência, especialmente sobre o conceito de “comunidades de conhecimento”, para tratar da experimentação que estaria em curso no início das primeiras experiências mais relevantes de uma nova relação com a audiência, com as comunidades formadas principalmente em torno de temas e produtos culturais e de entretenimento. Na obra ele não trata de jornalismo e até hoje as experimentações ainda são mais encontradas nas produções relacionais à cultura e ao entretenimento do que no jornalismo. O jornalismo se mantém ainda atrelado a modelos, formatos e modos de produção consolidados ao longo de quase dois séculos. Falando de comunicação e também de outros aspectos da sociedade contemporânea, Jenkins diz que “estamos num período de ‘aprendizagem’, através do qual inovamos e exploramos as estruturas que irão sustentar a vida política e econômica no futuro” (Jenkins, 2009, p. 59). Atualmente ainda estamos nesse caminho de transição, verificando as transformações (e invenções) tanto da tecnologia quanto das formas de narrar e de se relacionar com os públicos. Vivemos um momento ainda de experimentação associada à reflexão, uma vez que comunicação é de fato movimento, e, no caminho, torna-se capaz de testar soluções que acontecem enquanto tudo ainda se transforma e indica para onde continuar se movimentando.
As possibilidades estéticas e éticas do podcast
Thais Bilenky ainda comenta, em tom de brincadeira, entregando a “leveza possível” que prometeu no lançamento do podcast, em junho desse ano, que as pessoas os abordam e se relacionam de forma próxima depois que “ouvem essa voz de veludo dessa apresentadora. E essa voz de trovão deste apresentador”. Ela de alguma forma faz referência, tentando entender a preferência dos ouvintes, a características que eram buscadas e utilizadas pelos locutores dos programas clássicos da era de ouro de rádio. Aquela voz empostada, grave, com a busca da autoridade pela pretensa neutralidade. Claro que “contém ironia” no comentário da jornalista porque ela sabe que tampouco Toledo preenche os requisitos dos locutores clássicos do rádio e que são ainda menos desejados nos novos modelos experimentados pelos podcasts, que já incorporaram a coloquialidade, a conversa do cotidiano, a multiplicidade de vozes, sotaques e formas de narrar. E justamente por isso estão inseridos em projetos multimídia e fazem parte da combinação que configura a comunicação convergente contemporânea. É baseada em parte nessa estética e linguagem que os atuais podcasts experimentam muitas possibilidades, que vão do narrativo apoiado em roteiro minucioso aos debates que permitem improviso, bastidor e pessoalidade.
Pesquisadores especializados na história e na produção em rádio e que também estudam os atuais modelos de podcast têm investigado com propriedade as relações entre as produções contemporâneas em áudio e as reportagens de rádio, como a professora Valci Zuculoto (UFSC) e o pesquisador Arnaldo Zimmermann no texto “Da reportagem ao podcast: aproximação entre a reportagem radiofônica especial e o podcast ‘CBN Especial’” (2021). “A segunda geração de podcasts consolida a chamada “era de ouro” no consumo de áudio pela internet e também expande o espaço do jornalismo dentro de uma nova cultura do uso da voz” (Zuculoto e Zimmermann, 2021, p. 2). Em sua análise, além de refletir sobre produções específicas e comparar características, eles também se aproximam da discussão que me interessa nesse texto, que é observar como as produções jornalísticas contemporâneas estão lidando com as características da cultura da convergência, seguindo as ideias de autores como Jenkins e Lévy, e o quanto ainda não constroem suas narrativas e linguagens compreendendo e aproveitando as características que marcam esse novo ecossistema onde o jornalismo está completamente mergulhado.
O jornalista José Roberto de Toledo se dá conta da mudança a respeito do relacionamento com a audiência, mas remete o debate para um outro momento. E não que ele precisasse parar o desenvolvimento do episódio para este debate, inclusive porque o tema merece uma reflexão específica e pautada. O que não era a proposta. Mas a surpresa e o adiamento da conversa também indicam possibilidades para que se observe a estrutura, a linguagem e o desenvolvimento do podcast “A Hora” para pensar como utiliza possibilidades convergentes como o papel da participação, da interferência dos usuários nas produções e a criação dessa relação que parece muito próxima, quase íntima. E de confiança. Essa, aliás, um tema em debate e em disputa sempre no jornalismo, e hoje sobretudo, que pode ser pensado à luz dessas novas possibilidades de relacionamento com os usuários e entre eles. Zuculoto e Zimmermann indicam que essas mudanças de estrutura, de uso da voz e de capacidade de escuta ainda passam por experimentação, pelo distanciamento e pela aproximação de modelos conhecidos do jornalismo no rádio. “Enquanto o rádio convencional pode preencher com música e notícias do momento parte do dia de seus ouvintes, o podcast pode propor outra relação de escuta e […] experimentação sonora” (2021, p.7).
Horácia e a voz da inteligência artificial
O podcast “A Hora” é uma produção híbrida que mantém estrutura próxima de um programa de radiojornalismo, com entrevistas, debates, apresentação, blocos e pauta definida e seguida pelos apresentadores, que comentam notícias da semana. A abertura do programa é um bate-bola de notícias num formato de manchetes, curtas e diretas. Talvez seja possível identificar até mais pontos de contato com programas de rádio e com uma estrutura tradicional de um programa jornalístico do que com as experiências de relacionamento com os ouvintes criadas pelo Foro de Teresina quando eles eram da bancada. E pode haver um cuidado para construir novos formatos de quadros e de condução que não seja visto como espelho do modelo realizado no produto da piauí. Há um bloco em que foi inserida a personagem Horácia, uma criação inteligência artificial que fala com os apresentadores com uma voz meio robótica e cheia de humor e sacadas. Horácia desafia os apresentadores com frases de pessoas públicas que lê para que eles digam se são verdadeiras ou falsas. Se foram ditas pelos autores citados por Horácia ou se foram inventadas pela inteligência artificial. Eles estão experimentando um tema tão novo quanto desconhecido, o da inteligência artificial, através da criação de uma personagem que, ao mesmo tempo, cria um espaço de relacionamento entre os apresentadores e também com o público e ainda abre à possibilidade de discutir inovação e muitos outros temas trazidos pelos conteúdos das frases escolhidas para o quadro. É difícil não lembrar do quadro “Kinder Ovo” do “Foro de Teresina”, onde os apresentadores (e os ouvintes) tentam acertar a voz no áudio escolhido pela diretora do programa e reproduzido um diferente a cada edição. A competição entre os apresentadores instiga ouvintes e produzem essa cola entre o programa e os usuários. Mas a vantagem do “Foro” ainda parece evidente porque ele trabalha com essa adivinhação de autoria e com o áudio de alguém. Enquanto “A Hora” tem mais um quadro de frases lidas, ainda que pela IA. Quem sabe com o passar do tempo e da criação de comunidade em torno do podcast da UOL, a Horácia ganhe a vantagem de virar uma mascote tão orgânica quanto se tornou o Teresino para o “Foro”.
Ao mesmo tempo, “A Hora” experimenta bem outras potencialidades do podcast, que ainda se desenvolve, busca modelos e explora as possibilidades da cultura da convergência. Isso passa pelo carisma dos apresentadores jornalistas e pelo diálogo que eles produzem entre eles. Além da abertura manchetada, há outro momento no começo do programa que abre espaço para um deles contar algo pessoal ou de bastidor antes de entrar na primeira pauta produzida. Isso acaba gerando (ou ainda está tentando gerar) um ambiente mais solto, mantendo a informação apurada, de conversa entre eles. Dependendo do assunto, pode provocar graça e engajamento, como no episódio em que Thais descreveu uma turbulência no avião em que tinha estado. Num programa ela contou a experiência, e citou o presidente do BNDES, Aloísio Mercadante, que também estaria no avião. No programa seguinte comentou do telefonema que recebeu da assessoria do político contando que tinha escutado o podcast e relatando experiência semelhante que ele havia passado em outro momento. Tudo dito com humor sobre o medo que passou. O espaço dessa relação com a subjetividade, que também por isso, acaba variando bastante de tema, de forma de narrar e de emoção gerada, acaba promovendo mais um ponto de aproximação com o ouvinte. Um quadro criado por eles para o “A Hora” a partir do que estão experimentando juntos nesse podcast, buscando um jeito próprio de fazer. Em outro episódio, esse quadro gerou emoção. Thais Bilenky falou sobre as mortes em São Paulo causadas por policiais e, enquanto a voz embargava, contou sobre a entrevista que fez com a mãe de um menino de quatro anos que havia sido morto em uma ação policial na cidade. Independente da natureza desse espaço do programa, a pessoalidade, a linguagem e a possibilidade de falar sobre o processo jornalístico e da relação subjetiva do jornalista com os temas e as pessoas têm um potencial de criação que pode gerar conexão, identificação, comunidade e empatia pelo programa e pelos jornalistas. E até declarações futuras de amizade sincera. “O tom íntimo, adotado através da produção e da edição dos podcasts, aumentaria a cumplicidade com o ouvinte”, diz Martínez-Costa & Gárate (2019), também citados por Zuculoto e Zimmermann. “É possível concluir inicialmente que o podcast jornalístico goza de uma liberdade estética e editorial que a rádio ainda resiste em explorar” (2021, p. 16).
A construção de nuances no relacionamento com os ouvintes, que Toledo se dá conta no ar, na UOL, é parte de um processo que os jornalistas do podcast trazem desde o Foro de Teresina. Inclusive parte das referências, trazidas para “A Hora” ou outras que ficaram no “Foro”, foram criadas por Toledo ou utilizadas por ele. O podcast da piauí já possui uma identidade musical que caracteriza o produto. Toledo construiu no Foro um território entre o real e o imaginado, quase uma Nárnia, que chamou de “Grande Matão”. Parte dessa criação o acompanhou para o novo programa, mas não é utilizado na mesma frequência e nem cabe no formato do programa atual. Ainda assim, a criação de uma comunidade que se aproxima dos apresentadores e os considera ‘velhos amigos’ começa a aparecer e bater à porta do programa da UOL e dos apresentadores nessa nova versão. A convergência está lá, nas experiências e nos novos amigos de uma vida toda. Talvez precisem só parar para pensar nela, aproveitar que os ouvintes estão dando a dica e experimentar o modelo (ou novos modelos). E não deixar a conversa pra outro dia.
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Referências
JENKINS, Henry. Cultura da Conexão. São Paulo, Aleph, 2015.
JENKINS, Henry. Cultura da Convergência. São Paulo, Aleph, 2009.
ZUCULOTO, Valci; ZIMMERMANN, Arnaldo. “Da reportagem ao podcast: aproximação entre a reportagem radiofônica especial e o podcast ‘CBN Especial’”, in Revista Comunicação Pública, Vol. 16 N.º 31, Lisboa, Escola Superior de Comunicação Social do Instituto Politécnico de Lisboa (ESCS), 2021.