74% dos posts falsos virais sobre a guerra no Twitter/X têm o selo azul

Publicado originalmente em *Desinformante por Matheus Soares. Para acessar, clique aqui.

O novo relatório sobre desinformação do NewsGuard mostrou que 74% dos conteúdos desinformativos virais sobre a guerra entre Israel e Hamas no Twitter (ou X) foi produzido por usuários verificados, pagantes do serviço Blue. O documento também apontou que o mecanismo das Notas da Comunidade, que a plataforma argumenta ser eficiente para conter desinformação, não consegue desmascarar a maioria das informações falsas que circulam na rede.

Durante a primeira semana do conflito, a organização internacional identificou que das 250 postagens desinformativas com mais engajamento no Twitter/X, 186 foram postadas por perfis verificados. Esses conteúdos, ainda segundo o estudo, promoviam narrativas falsas em relação aos dois lados do conflito, afirmando, por exemplo, que a Ucrânia vendeu armas ao Hamas e que os Estados Unidos tinha aprovado um apoio de 8 bilhões de dólares para Israel. Juntas, essas postagens acumularam mais de 1,3 milhões de engajamentos e 100 milhões de visualizações.

“As contas X Premium foram fundamentais para a propagação dos mitos relacionados com a guerra”, afirmou o NewsGuard, chamando esses perfis de “super difusores de desinformação”.

O relatório também mapeou sete contas com o selo azul que espalharam pelo menos duas informações falsas sobre o conflito. Uma delas, somando mais de 360 mil seguidores, conseguiu alcançar quase 3 milhões de visualizações com informações infundadas, como a de que altos funcionários israelenses tinham sido capturados pelo Hamas. De acordo com o NewsGuard, o perfil havia sido banido do Twitter, em 2022, por razões desconhecidas, mas foi restabelecido depois que Elon Musk adquiriu a plataforma de micromensagens.

Desde abril, o selo azul de verificado, anteriormente concedido apenas a perfis de figuras públicas e celebridades, pode ser adquirido por meio da assinatura do Blue, serviço pago da plataforma. Em março, Musk afirmou que a aba “For You”, com recomendações algorítmicas, iria privilegiar conteúdos postados por assinantes. Na época, o dono da rede justificou a estratégia para conter o número de bots de IA na rede social.

O NewsGuard chegou a identificar desinformação sobre a guerra sendo espalhada amplamente no Facebook, Instagram, TikTok e Telegram. Porém, a maioria desses conteúdos, ainda segundo a organização, parece se tornar viral na plataforma de Elon Musk antes de chegar às outras redes sociais.

Ao tentar uma resposta do Twitter/X, a NewsGuard chegou a enviar um e-mail para a equipe de imprensa, recebendo apenas uma resposta automática dizendo “Ocupado agora, verifique novamente mais tarde”.

Notas da Comunidade falham em conter desinformação

Ainda de acordo com o NewsGuard, 68% das postagens com narrativas falsas sobre o conflito entre Israel e Hamas não possuíam etiquetas das Notas da Comunidade, funcionalidade de checagem coletiva de fatos. “A análise concluiu que essas verificações de fatos foram aplicadas de forma inconsistente aos principais mitos relacionados ao conflito”, avaliou a organização.

A existência das Notas da Comunidade foi levantada pela diretora-executiva da plataforma, Linda Yaccarino, como uma das ações que o Twitter/X está realizando para conter desinformação após a rede ser pressionada publicamente pelo comissário da União Europeia, Thierry Breton, por não conseguir conter informações falsas ou descontextualizadas desde o início da guerra, no dia 7 de outubro.

O Observatório Europeu de Mídia Digital (EDMO, na sigla em inglês) também avaliou o mecanismo de checagem coletiva, afirmando que as notas possuem “um fraco desempenho” no combate à desinformação em contextos polarizados, como acontece atualmente na guerra entre Israel e Hamas. “Muitas vezes, notícias, vídeos ou imagens falsas não são acompanhados de notas e, quando aparecem notas, podem ser enganosas e exigir mais modificações e correções”, afirmou o observatório.

Desinformação polarizada

O EDMO também divulgou recentemente um relatório preliminar sobre informações falsas e teorias da conspiração que surgiram na primeira semana da guerra. A entidade mapeou diferentes conteúdos que favorecem ou atacam ambos os lados. Narrativas que desumanizam integrantes do Hamas e que atacam Israel com discursos antissemitas foram alguns dos exemplos trazidos pelo observatório.

Além disso, a desinformação sobre a guerra foi citada pelo secretário-geral das Organizações Unidas, António Guterres, na fala de abertura do Conselho de Segurança na manhã desta terça-feira (24). Durante o discurso crítico às ações de Israel contra a população de Gaza, Guterres afirmou que a polarização e os discursos de desumanização são impulsionados pela “tsunami de desinformação”, e que o combate ao ódio a ambos os lados do conflito deve ser combatido. 

Nos últimos dias, organizações internacionais vêm pedindo com urgência que as plataformas digitais contenham discursos odiosos contra palestinos e israelenses que ganharam as redes desde o início do mês.

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